8.4.10

NOTÍCIAS DE CRISTO - A SENTENÇA (CONTINUAÇÃO)

O jardim estava em silêncio. Quando o procurador saiu da colunata para o andar superior, inundado de Sol, com as suas palmeiras monstruosas como patas de elefante, viu, estendendo-se à sua frente, toda a odiada cidade de Jerusalém. O procurador compreendeu que uma enoeme multidão de habitantes, agitados pelas últimas desordens, se tinha já reunido na praça e que essa multidão aguardava, impaciente, a proclamação das sentenças.
O procurador iniciou o diálogo com Kaiypha. Pilatos disse que examinara o caso de Yeshua Ha-Nozri e confirmava a sentença do Sinédrio. Como Ha-Nozri e Bar-Rabban tinham sido aprisionados pelas autoridades locais e sentenciados pelo Sinédrio, de acordo com a lei e costumes locais, um desses dois criminosos teria de ser libertado em honra do dia santo de Páscoa. E, assim, o procurador desejava saber qual dos criminosos o Sinédrio desejava libertar.
Kaiypha inclinou a cabeça, significando que, para ele, o problema era claro, e respondeu:
- O Sinédrio pede que seja libertado Bar- Rabban.
O procurador sabia perfeitamente que seria esta a resposta do sumo sacerdote, mas era sua intenção mostrar que ela o surpreendia. Ergueu as sobrancelhas na face altaneira e cravou o olhar, intrigado, nos olhos do sacerdote.
- Confesso que estou atónito com a tua resposta - disse o procurador mansamente - Receio que haja qualquer má interpretação.
Os crimes não eram comparáveis, explicou Pilatos. Se Ha-Nozri não passava de um louco, Bar-Rabban  incitara à rebelião e matara um soldado durante a tentativa de captura. Em virtude disto, o procurador rogava ao sumo sacerdote que revisse a decisão.
Kaiypha replicou em voz baixa mas firme que o Sinédrio estudara cuidadosamenteo caso e portanto repetiria que tencionava libertar Bar-Rabban.
- Deveras? Mesmo que depois de eu ter intercedido? De ter intercedido aquele que fala por Roma? Sumo sacerdote, repete-o pela terceira vez.
- Digo-te pela terceira vez, que libertaremos Bar-Rabban - respondeu sossegadamente Kaiypha.
Tudo terminara. Nada mais havia para dizer. Ha-Nozri ia partir para sempre e não mais haveria alguém que curasse os terríveis e cruéis ataques de dor do procônsul. Para eles não havia remédio, excepto a morte. Mas não foi este o pensamento que o perturbou. De novo teve a mesma sensação que tivera no balcão. A vaga sensação que deixara algo por dizer na conversa com o condenado ou que talvez que não o ouvira até ao fim. Afastou a ideia, mas a angústia permaneceu sem explicação. Um fragmento de ideia que luzira como um relâmpago: «Imortalidade... a imortalidade chegou...» A imortalidade de quem? O procurador não compreendia, mas a ideia desta misteriosa imortalidade gelou-o sob o Sol ardente.
- Bem - disse Pilatos - , assim seja.
(Margarita e o Mestre, de Mikhail Bulgakov. A continuar)

1 comment:

Mylla Galvão said...

POis que se Pilatos tivesse escutado a sua ideia, Jesus não teria sido crucificado!

Bela tarde para vc!!!