21.1.11

CAUSAS DA DECADÊNCIA DOS POVOS PENINSULARES - 4

“Depois da Reforma Luterana veio a Contra-Reforma. Roma não queria cair. Forçada, acabou por convocar o Concílio de Trento. Explora esse Concílio em proveito próprio. Confisca o impulso reformador e fá-lo convergir numa lógica ultramontana: só os legados do Papa podiam propor reformas; o voto deixa de ser por nações e passa a ser por cabeça, permitindo que os bispos italianos, criaturas do Papa, tivessem uma maioria absoluta, abafando os votos das nações. Convocado para reformar, o Concílio só serviu contra a reforma. Limitou-se a sofismar e a anular.+
Na sessão 5ª é estabelecido dogmaticamente o Pecado Original. A razão humana é condenada sem apelação. De então para cá ficou estabelecido que, no mundo católico, o homem deve ser um corpo sem alma; que a vontade individual é uma sugestão diabólica; que para dirigir basta o Papa em Roma e o confessor à cabeceira.
Na 13ª sessão precisa-se o dogma da eucaristia, vibrando-se um anátema para quem não acreditar na presença real de Cristo no pão e no vinho depois da consagração. É um passo decisivo no caminho da idolatria, colocando o divino no absurdo, revivendo os instintos pagãos mais primários. Parece que era isto que o Concílio desejava!
Na sessão 14ª aborda-se detalhadamente a confissão. Era até aí facultativa. Porém, em Trento, a consciência cristã é definitivamente encarcerada. Sem confissão não há remissão dos pecados. Os padres integram as famílias. Só eles podem comunicar com deus. Passa a haver uma vontade oculta que governa a casa.
Nas relações Igreja/Estado tornam-se todas as ordens regulares independentes dos bispos locais e exclusivamente dependentes do papado. É o absolutismo e a concentração de poderes. O edifício é completado na 13ª sessão, com a impunidade para o clero. E, finalmente, redige-se um catecismo que comprime em moldes estreitos uma doutrina seca e formal, uma escolástica subtilmente ininteligível.
Foi esta doutrina que semeou a Guerra dos Trinta Anos. Que representou o assassínio da Polónia como estado. Que semeou a discórdia entre as nações europeias.
Em Espanha e Portugal o catolicismo pesou sobre nós de forma acrescida. Fomos anulados pela Inquisição”.
Antero de Quental
(continua)

4 comments:

Eduardo P.L said...

A culpa é da Inquisição! Agora esta explicado!!!

Anonymous said...

Este modelo de organização foi mais tarde utilizado com sucesso pelas multinacionais que existem hoje (entre as quais a própria igreja católica).
ORTEGA

daga said...

Isto é terrível, Jorge! Não compreendo como HOJE, em plena democracia, não se explica na disciplina de História estes "promenores" do Concílio de Trento!!!
Como já disse: sou cristã, mas nunca estive de acordo com regras ditadas pela igreja católica, sempre achei que Lutero tinha razão e agora percebo por que Dostoievski detesta o catolicismo!
Beijos (sempre a aprender contigo)

expressodalinha said...

Eduardo, Ortega e Graça: quem o diz não sou eu, mas Antero de Quental. Qt mais leio o livro, mais concordo. Segue-se o impacto da Inquisição.