6.2.11

CABINDA - 4

Noite escaldante. O petróleo arde. Clarões feéricos. Explosões de octanas. A Lua foge.  Mar agreste. Um mar que se refugia-se nas ondas distantes. Um horizonte invisível feito de bruma. Desço à cidade. Homens altos e escuros. Altivos. Olham-me de soslaio. Não sabem quem sou. Um estranho ser.  Um branco numa terra negra. Um ser exótico. Longe da pátria. Vageio no tempo. Hesito no espaço. Não olho de frente. Fujo daquilo que não entendo. Medo de mim?... Mulheres passam em "capolanas". Apressadas. Cores vibrantes. Formas excitantes. Na cabeça transportam lenha. Fogueiras tribais. Jantares ancestrais. Falam alto. Esbeltas.  Mulheres incompreensíveis. Fadas. Virgens negras... A cidade é plana. O mar adivinha-se. Calor infernal. O Mário é filho do Comandante da Marinha. Conhecemo-nos na véspera. A discoteca fica no centro de Cabinda. Ao fundo uma mesa de brancos. Pretos dançam sozinhos no reflexo do espelho. Garrafa na mão. Narciso negro. Uma vaidade primitiva. Vibram nos requebros do contratempo. E a floresta ali tão perto. Mulheres encostadas ao balcão.  Esperam clientes. Os brancos eram da tropa. Milicianos da minha idade. Gente na aventura tropical. Inocentes acidentais. Jovens arrebatados ao sossego metropolitano.  Cervejas. Whiskey. Conversas quentes. Um vapor que sobe. Um calor que tudo evapora... Acabamos no apartamento de um furriel mobilizado. Mais gin tónico e muita liamba. Erva doce de pedrada certa. Casado com uma brasileira. Um cantinho um violão. E cantamos noite fora. Janela aberta para que entrem todos os insectos... Entro tarde. Três da manhã. Tropeço nas escadas. O guarda negro faz continência. Quase piso os sapos. Uma osga cai-me na cara. Ressaca brutal. Acordo com pau de cabinda...
(continua)

7 comments:

daga said...

lindo texto :)
pois "gap" entre culturas: para eles tu eras "Um estranho ser" e para ti elas eram "mulheres incompreensíveis"!
pena o "petróleo a arder", isso tb não havia na "minha África"
beijos

Anonymous said...

Grande texto, é como se lá estivessemos. Escapámos "à tira" da aventura tropical e por isso não temos histórias de guerra para contar, a vantagem é que estamos inteiros fisica e psicológicamente. Ando é um bocado a precisar de Pau de Cabinda.
ORTEGA

Anne Lieri said...

Eduardo,texto muito realista e que prende nossa atenção!Gostei muito e aguardarei a continuação.Bjs,

expressodalinha said...

Obrigado por seguirem.

Li said...

tá bom de seguir.

a propósito que vem a se "pau de cabinda"?

expressodalinha said...

Li: um afrodisiaco muito poderoso feito de casca de àrvore das matas do Mayombe (Cabinda).

Li said...

;D