23.8.12

DESEMPREGO 16%

Há personagens assim. São de hoje podendo ser de ontem. Encarnam um passado pago, numa qualquer feira medieval, alugures, somewhere, anywhere... Vestidos a rigor no esquecimento da memória. Vestem a pele de alguém que já morreu. Alguém que nunca existiu. Nem sabemos se era magra gorda, se vinha do norte ou do sul, se ia para baixo ou para cima. Um estereótipo de catecismo histórico. Representam numa feira de vaidades onde emergem as alcoólicas coragens dos homens que não queriam ter tido outro remédio senão beber e que ainda hoje continuam a não ter. Morreram na glória de ter sido os primeiros a estrebuchar na azaga enveneneda do mouro infiel, na flecha de curare soprada pelo índio bravio, no ouro gangrenado das minas putrefactas do sertão longínquo, na falsa esperança de ser fidalgo na velha cidade colonial. Dão-nos um espectáculo comercial de heroísmo bacoco, misturado com gomas de morango e carroceis em permanente rotação circum-navegando à volta de nada. Vomitámos as colónias na passagem do Equador. Exigimos nova oportunidade para reconquistar o tempo perdido.  Ficamos à deriva do futuro. Fugimos sempre que nos pedem para ser outra vez palhaços do regime. Hoje em dia participar implica um nível de compromisso que se deve mesmo perguntar para que serve. Estou farto de voluntários que são meros desempregados.

11 comments:

Maria de Fátima said...

tu, Jorge, es o génio das palavras que devemos escrever, assim, para que parecendo literatura, sejam panfleto a alertar consciencias dormentes neste descompasso de faz de conta, esse que descreves e tantos, feiras e (des)empregos e os voluntários que nos pedem que sejamos apenas para poupar uns cruzados...senhoras da caridade que quereríamos ter esquecido...

myra said...

tudo que escreve é muito, muito bom.. a foto tbem gostei...total, voce é um escritor e tanto!

Fatyly said...

Gostei e subscrevo inteiramente e também eu...também eu e farta é pouco!!!!

Anonymous said...

Puxa, não pensei em como você, a Fátima, a Fatyly e sabe lá quantos outros portugueses estão fartos, de saco cheio de tudo que esta por aí.
Não tinha a dimensão da "coisa".
Ou melhor, acho mesmo que eu não estava querendo enxergar "a coisa".
...

Já ia esquecendo; voce escreve como ninguém!
Já te disse isso.
Um monte de vezes.
Li

António P. said...

Hoje, masi inspirado que sempre, caríssimo.
Boa refexão e eu também "estou fart de voluntários que são meros desempregados"
Abraço

João Menéres said...

Sem palavras perante a sua eloquência e o desemprego cujos números sobem todos os dias.
Onde vamos parar ???

Eduardo P.L said...

Tudo já foi dito. Aplausos ao texto, e repúdio à pior forma de " tortura de jovens" que é o DESEMPREGO!

daga said...

mais uma vez deslumbras este teu auditório com palavras implacáveis que são setas disparadas contra todos e cada um de nós portugueses que nos deixamos ficar "à deriva do futuro"!

Paulo said...

Perante tanta unanimidade, o que dizer? Diante do deslumbramento de tantas palavras, o que perguntar? Só se for algo completamente diferente, por exemplo: qual o salário de um palhaço do regime? Realmente participar e assumir compromissos é próprio de quem ainda está vivo, já houve países que renasceram das cinzas à custa de trabalho voluntário. Ainda bem que nunca tive um emprego (conceito em extinção).

Luísa said...

Fantástico!
Fantástico!
Fantástico!
Mas, faltou dizer que estes voluntários têm que ter um seguro de acidentes pessoais, que não é nada barato....Afinal, o voluntariado é bom para quem?

expressodalinha said...

Comentários melhores que o texto. Obrigado Pessoal.