28.9.12

ILHA DO SAL - DESOVA DA TARTARUGA III


Enfiados numa pick-up verde escura, lá fomos noite sem Lua. Íamos seis. Cinco portugues e uma alemã. Escuridão total, nada de flash. Apenas umas pequenas lanternas de luz encarnada, para não afugentar as tartarugas. As fotos iam ser impossíveis. Não se via ponta de um corno. Andamos quilómetros por montes e vales, dunas e mais dunas. "É aqui", diz o Sousa. Por mim, ali ou noutro sítio. Era tudo igual. O batedor foi por uma ponta da praia. O Sousa pela outra. O motorista ficou ao telemóvel à espera de chamada quando encontrassem a tartaruga. Esperámos na impaciência. Entra a chamada. Corremos para a praia aos tropeções, na humidade quente da noite africana.
Ali estava a tartaruga (como podem ver claramente ao centro, iluminada por uma pequena luz em cima). Um bicho enorme, com uns 80 kg de peso e uma força incrível. Correu para a água. Impossível detê-la. O Sousa tentou levantá-la só de um lado, mas mesmo assim pisgou-se. Devia ter uns cem anos. Todos lhe fizemos festas. A carapaça é dura e morna e emite um brilho verde que emanava do interior do corpo. As tartarugas verdes devem o seu nome à cor da gordura esverdeada por baixo da casca.
Enervada, a tartaruga entrou na água acompanhada de grande excitação humana. Fiquei na dúvida se lhe tínhamos prejudicado a desova ou se a coisa já estaria resolvida. Entretanto o Sousa, sempre querendo agradar, começa a andar a uma velocidade supersónica praia fora tentando encontrar outra. Quase à beira de uma apoplexia, Lá apareceu outra. Esta vinha desfocada e o resultado foi este.
Acreditem que lá vê-se melhor. A excitação é grande. São animais impressionates. Grandes. Possantes. E, no entanto, tão indefesos em terra. Uma aberração, estes bichos que precisando de ar, vivem no mar. Porque carga de água vem eles desovar a terra. Porque os ovos precisam do calor. Pois, mas arriscam-se eles e arriscam as crias. E, no entanto, já é assim há milhões de anos.
Aqui está um ninho de tartarugas. Mais de cem ovos dos quais só 5, no máximo sobreviverão. No trajecto para a água, são os pássaros que os apanham. Lá dentro do mar têm os tubarões à espera. Como se pode ver, um jipe ou uma mota passam facilmente por cima, sem se aperceberem. É apenas um monte de areia. É o Sol que choca os ovos e se responsabiliza pelo nascimento. A tartaruga-mãe despeja a sua carga e volta à água. Mãe desinteressada... Também quanto mais tempo ali ficar, mais arrisca a própria vida.
A praia onde fomos está guardada por militares cuja missão é proteger as tartarugas. Com o guia certo e pré-aviso, até deixam bater foto. O Sousa sabe muito. Deixamos as tartarugas entregues à sua guarda de honra e seguimos para encontrar outro personagem...

5 comments:

Fatyly said...

Que odisseia...mas deve ter valido a pena e também por vezes faço as tuas interrogativas perante este fenómeno do reino animal que também assisti por diversas vezes. Hoje não sei se serão protegidas ou não...mas na altura eram caçadas pela calada da noite!

myra said...

achei tudo de uma grande beleza, incrivel e sim, salvemos as tartarugas!!!

Li Ferreira Nhan said...

Nossa...
Obrigada por compartilhar Jorge!
Essa experiência (única e em vias de extinção) valeu a viagem toda!
Dispenso todo o resto.

Jorge Pinheiro said...

Li: tudo o resto tb foi excelente :))

Anonymous said...

Que aventura emocionante!

A NATUREZA ANIMAL e seus MISTÉRIOS
bem as merecem!...


Anónimo da S.