28.12.13

BOM DIA

A vida entorna em mim todos os mortos da minha existências. São dezenas de corpos sobrepostos em camadas. Memórias jacentes. Máscaras que assaltam os meus piores pesadelos. Amigos, pais, tios, avós... tudo morre. Tudo desaparece. Esquecemos para não recordar. E a vida continua no esquecimento. Raras vezes visitamos os vivos à beira da morte. O cheiro incomoda. Talvez o pavor nos intimide. Talvez o medo nos derrote. O instinto refugia-se. Somos matéria à beira da putrefacção. Tenho receio de falar com moribundos. Não sei o lugar comum da salvação. Não conheço o mistério da vida eterna. Nada disto é animador. Escrevo para desabafar. E desabafo na esperança de acordar vivo.

ET: Se recebeu este post é porque está vivo. Bom Dia.

8 comments:

Norival R. Duarte said...

Foi bom você ter me lembrado, Jorge!
Um bom dia pra você também!
Grande abraço.

Eduardo P.L. said...

Estou lendo ( já no final, infelizmente) Carlos Lacerda, República das abelhas, pelo seu neto Rodrigo Lacerda. O romance biográfico é escrito na primeira pessoa portanto na voz do Carlos (avô do autor), e 99% sob a terra, depois de morto. Muitíssimo interessante. Recomendo a você que é o melhor biografo que conheço.

Fatyly said...

Bom dia também para ti.

Esta tua reflexão é inquietante, claro que recordo os meus e náo só, que já partiram, mas sempre, sempre com uma tranquilidade reconfortante e sabes porquê? Porque fiz tudo por eles enquanto seres vivos. Amei-os, dei-lhes o meu carinho, amizade e visitei-os sempre que podia. Partiram...e os cemitérios não me dizem nada de nada, não sou de ir pôr flores etc e tal.

Todos temos o carimbo no passaporte e felizmente que ninguém sabe qual será o dia...e como tal deixa o mistério, deixa essa inquietação e anima-te vivendo um dia de cada vez. Certo?

Beijos e se responderes é porque estás vivo e se não...é porque estás vivo na mesma mas com outros afazeres.

João Menéres said...

Pois eu gosto de RECORDAR todos os meus queridos que já partiram.
É a forma que tenho de sentir que não estou longe deles...
Como será possível ESQUECER quem nos deu vida e nos ensinou a vivê-la com dignidade ?
E todos os erros que cometemos, hoje pesam-me muito na consciência.
Sinal que estou vivo e certo de que não fui capaz de corresponder ao que me foi transmitido com tanto carinho e amor...
Por isso, os visito e neles penso constantemente.

daga said...

Olá, meu amigo! ainda bem que estamos vivos :) assim podes tentar esquecer mas recordar, assim podes refletir e desabafar connosco! e nós, que também não conhecemos o mistério da vida eterna, podemos ler as tuas palavras, recordar também e sentirmo-nos vivos!

Anonymous said...

Há mortos muito mais "vivos" do que muitos vivos que se nos morrem, se não repentinamente, muito devagarinho. Dir-se-ia que se vão despregando de nós, sem causar dano nem mossa. Estamos vivos, sim. Façamos jus à palavra e não nos deixemos "morrer" nem para nós, nem para aqueles que merecemos e que nos merecem.
Filosofei barato, sei, mas pronto, está filosofado.
A todos um ano novo muito vivo, muito produtivo, com muita Paz e Saúde.


:):):)

Anonymous said...

Começa o tempo onde a mulher começa, é sua carne que do minuto obscuro e morto se devolve à luz. Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras com uma imagem. Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade uma ideia de pedra e de brancura. És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves, que te alimentas de desejos puros. E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola, a sombra canta baixo. Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua, onde a beleza que transportas como um peso árduo se quebra em glória junto ao meu flanco martirizado e vivo.

- Para consagração da noite erguerei um violino, beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada darei minha voz confundida com a tua.


Helberto Helder


Feliz Ano Novo.

Mena G said...

Ironia do destino abrir este teu post neste momento.Acabou de me faltar alguém na contabilidade dos vivos.