7.9.14

CONDICIONAMENTOS II

Era mais a questão filosófica que eu pretendia abordar: se o meio ambiente nos altera e em que medida. Nesse particular, quer os comentários da Li, quer do Eduardo, remetem para realidades diferentes. O Eduardo tem os dois mundos. A Li tem vivenda no meio do bulício de SP. Ambos têm dúvidas quanto a um relacionamento excitante só por andar sempre fora de casa. Até sou capaz de concordar, em especial face à insegurança e indiferença das grandes metrópoles.
Não é o meu caso. Viver numa moradia num sítio calmo que não é campo (é uma zona urbana), mas onde se deu privilégio aos jardins públicos e privados (tipo "cidade-jardim" de Corbusier) tem para mim, em especial no Verão, o prazer enorme de viver na rua. Saio constantemente. As portas para o jardim estão sempre abertas. Não há limites. Não há elevadores. Chaves. Entro e saio, passo para lá do portão, vou à pequena floresta em frente... As pessoas passam no jogging. Falo a muitos que conheço. Cumprimento os vizinhos. Almoço e janto na rua. É isto que acho me condicionou ao longo dos tempos.
Mas os comentários feitos pelo João, ultrapassam esta singela realidade. A tralha acumulada e as memórias boas ou más que estão presas à casa são difíceis de "sacudir". Seria para mim uma tortura passar na minha casa e saber que já não é minha. Uma moradia, talvez por ter terreno envolvente, talvez por ter as plantas que nos rodeiam e de que cuidamos, é mais do que um apartamento. É o nosso pedaço do mundo. Tem mais personalidade. Mais ligação. Concordo que racionalmente devia mudar. Por três razões: a casa é antieconómica; a idade não é amiga de vivendas; vou deixar um problema para os meus filhos resolverem. Ando a matutar nisto faz algum tempo e sei que algo terá de ser feito. Terei de reunir um conselho de família para decidir, mas não o posso fazer em vida da minha mãe. Por isso, para já resta-me curtir a vivenda.

7 comments:

Fatyly said...

Concordo contigo e eu também já tinha saído deste apartamento (há centenas em melhor estado e com rendas mais acessíveis) mas por estar perto da minha mãe que vive na sua própria casa não quer sair e eu não quero ir para lá porque são quatro andares sem elevador.

Quanto às coisas materiais, rapidamente me desfaço delas o contrário da minha mãe.

Não tenho um problema, tenho um problemão, porque ir para mais longe dela...pois é!

Eduardo P.L. said...

Cada qual com seus problemas, com suas heranças, seus bens materiais e suas dúvidas. O que seria da vida sem eles?

João Menéres said...

Jorge : Quem me dera ter a minha Mãe ainda viva e a viver connosco ! Se assim fosse, também não nos passaria pela cabeça tomar esta resolução !
A nossa empregada doméstica ( que já fez 25 anos de casa no ano passado ) adorava olhar por ela !

O Jorge e a Fernanda ainda são muito novos!
Curtam a moradia e o local onde se encontra implantada.
Eu também deixo muitas vezes o portão aberto, apesar de ser na Av. da Boavista ( realmente uma zona de 1ª ! ).

Eduardo P.L. said...

Aqui na Piacaba onde tudo ficou aberto por 14 anos, este mês entraram uns ladrõezinhos. Não vamos mudar nossos hábitos. Ladrão de bicicleta tem em toda parte.

Paulo said...

Só uma correção histórica: O famoso "Le Courbusier" não era de todo adepto das "cidades Jardim" conceito que considerava gerar desperdício. Propunha antes "unidades de habitação". Volumosos e poucos edifícios onde se concentrariam as funções urbanas (habitação, comércio, serviços, etc.) de forma a libertar o solo que seria apenas naturalizado e equipado para desporto e lazer; tudo servido por vias rápidas. A Nova Oeiras das moradias é anti courbusiana.

Jorge Pinheiro said...

João: a minha mãe não mora connosco, mas muito perto.

Jorge Pinheiro said...

Paulo: toda a razão. A parte corbusiana é a das torres e blocos com o bosquette à volta. As moradias são abastardamento lusitano. Aliás, Le Corbusier era muito à base de matacões e construção para o povo. Basta ver o nunca realizado (felizmente) Plano "Voisin" para Paris e que teria devastado a cidade para sempre.