14.1.15

JE SUIS AHMED

Já muito se disse sobre o carácter quase sagrado da liberdade de expressão no Ocidente. Acontece que esse valor sagrado pode ser uma provocação ou uma blasfémia. E a reincidência nesse humor envolve riscos, especialmente quando ele atinge outras culturas e quando se sabe que estamos numa época particularmente sensível nas relações com o mundo islâmico. E, a verdade é que ninguém anda na rua a chamar nomes a quem passa sem se arriscar a levar, pelo menos, um bom par de estalos. O grave neste incidente é que a dita "coragem" de uns intelectuais ateus de esquerda, acabou por comprometer a vida de outras pessoas que, por acidente ou por dever de ofício, se atravessaram na frente dos energúmenos terroristas. Mais, esses mesmos comportamentos, que ficam muito bem na sociedade libertária que queremos ser, podem acabar por resultar num boomerang que beneficia a odiada extrema-direita. Nada, mas mesmo nada, justifica estes horríveis assassínios. Mas convenhamos que há comportamentos de risco. É assim que se deve entender o "Je suis Ahmed".

5 comments:

Mariana Vargas said...

Reflexão muito bem feita!!

Eduardo P.L. said...

Concordo com a Mariana Vargas.

Silvares said...

Quando saímos à rua para passear nunca sabemos se não irá cair-nos um piano em cima da cabeça ou acontecer outra coisa igualmente estranha ou extraordinária. Mas não é isso que nos faz ficar em casa. Se posso falar falo. Outras vezes fico calado. Sei que digo muitas coisas estúpidas e ofendo muita gente, mas também digo coisas que outros gostam de ouvir e exprimo com frequência o meu amor por muitas coisas.Sinto-me livre talvez porque quero ser livre. Não sei se porque posso ou se porque quero. Mas sinto-me livre embora não tenha a certeza absoluta de que sou.

daga said...

o teu texto reflecte uma tolerância fora do comum... este assunto muito delicado merece realmente reflexão profunda e não se resolve com slogans. Gostei do texto e da coragem.
beijo

Li Ferreira Nhan said...

 Penso que esse horror ocorrido na França deve ser analisado dentro do contexto francês ( e não do ponto de vista, entre outros, de um papa argentino por ex). Na França, a liberdade de expressão é um princípio, e possui limites distintos, pois são condenáveis por lei. As charges do Charlie Hebdo são "desagradáveis", "engraçados", de "mau gosto", "irreverentes" e podem até ser consideradas blasfematórias. Porém, blasfêmia, em estado laico como a França, não é crime. Na França a liberdade de expressão é estabelecida pela lei da republica e não pela lei religiosa que habitualmente serve de motivo e razão para alguns fanáticos encobertos, gritando palavras de ordem/ regras/ temas, matar pessoas.
Je suis aussi Charlie.