3.4.15

PÂNICOS

A ginástica faz mal. Sempre soube isto, mas resolvi insistir. Ontem a meio de um exercício deu-me uma tontura brutal. Só tive tempo de me apoiar ao varão para não desabar com estrondo. A classe ficou perplexa. A professora preocupada. Saí aos tropeções, entre o pânico de um ataque cardíaco e um inócuo ataque de tensão baixa. Pelo caminho ainda ponderei poder ser uma hipoglicémia ou qualquer outro fenómeno incontrolável, tipo aneurisma ou carótidas bloqueadas. Por sorte tinha médico à tarde, ou melhor médica. A médica, por acaso uma senhora muito interessante, face à minha sintomatologia, deu logo o diagnóstico: síndrome vertiginoso ou de Ménière. Fiquei aliviado e até um pouco enfatizado com um nome tão elegante. Coisa de otólitos e do ouvido interno. Mas a doutora acrescentou um comentário fatal: "Pois, vejo aqui na ficha que é muito ansioso. Com ansiedade a vida não deve ter o mesmo prazer, não é?". Não respondi por mera táctica de paciente permanente e doente sem fronteiras que lhe irá pedir, compulsivamente, novas receitas, mais cedo ou mais tarde. Mas apeteceu-me dizer-lhe: "Olhe, doutora, a vida sem ansiedade não tem brilho. É baça e vagamente inócua. Um pânico, esse, ainda está uns graus acima da ansiedade. Se não sabe nunca viveu. Nada como uma boa agorafobia, um claustrofobia, o coração em arritmia hipotética, um rim em pseudo-cólica. Sim, doutora, tenho pânicos todos os dias. O pânico é a vida do outro lado. A morte a cada instante. A permanente falibilidade. O terror. E quando o pânico passa, uff, a vida ganha uma cor deslumbrante. Uma cor que os "normais" não atingem. Sem ansiedade a vida não tem o mesmo prazer. Sem pânicos, a vida é um continuum de banalidades, uma sucessão de bolas de Berlim e de bananas maduras. Olhe, doutora, sem pânicos a vida sabe a ansiolíticos sem sal".

10 comments:

Fatyly said...

Desde que me lembro que sou gente sofro de ansiedade. Ao longo dos tempos fui aprendendo a lidar com esse "estafermo" e é precisamente o que descreves. Sendo optimista como sempre fui é um dado bom e no topo da dita nunca penso no pior e travo a fundo e os travões funcionam bem:) Quando me sucede algo muito grave ou um susto com os meus...fico estupidamente calma e tudo porquê? Porque a tensão desce tal elevador sem controlo hehehehe e os pânicos passam a panicos:):)

Nunca gostei de ginásios. Tenho os meus e todos eles a céu aberto porque fechada falta-me o ar.

Gostei imenso deste post e já o imprimi para dar à minha mãe.

Um bom dia

João Menéres said...

Já que lhe falaram um tão e elegante nome, o sídrome de Ménière ( não lhe lembrou ninguém ? ), sugiro que vá o mais depressa possível a um bom otorrino !
Tenho uma amiga aí em Lisboa que há pouco tempo ficou completamente surda de um ouvido e está com permanentes desílibrios e não pode andar só na rua !
Não foi devidamente diagnosticada !

Por favor, não hesite !!!

Um enorme abraço.

Eduardo P.L. said...

João, por favor não incentive ainda mais o Jorge. Não sabes que é hipocondríaco em ultimo grau? srsrs

Jorge Pinheiro said...

Pois... Onde fica esse médico?

João Menéres said...

Ela foi mal diagnosticada da 1ª vez. Por isso é que lhe sucedeu !
Mas não faltam aí bons otorrinos !

EDUARDO :
Só quero o bem dele !

Li Ferreira Nhan said...

Médicos, diagnósticos, ansiedade, fobias, remédios... Depois de 10 dias com o Gil internado, ando farta disso tudo;
melhor nem comentar.

Jorge Pinheiro said...

Li: e já passou?

m.a. said...

Jorge
Hoje,numa das minhas raras (+ou- ...)noites de insónia, deu-me para fazer a ronda pelos blogs.
Ao ler o seu post "Pânicos" fiquei algo, para não dizer muito confusa com o referenciado...

Ah, mas começo por discordar do primeiro parágrafo (!) pela generalização em que é aplicada...

Qt à forma como se refere à "tontura" devo informar que essa senhora está incluída num daqueles sacos de sra, onde cabe sempre mais um...

Nestes casos, a minha primeira pergunta é sempre a mesma " A que chama tontura?" (não raramente, é referida dor de cabeça...) Qd a resposta não se torna possível... então segue um conjunto mais ou menos longo de questões até ser possível enquadrar.

Qd se chega à conclusão que se trata de um vertigem (sensação de que tudo roda), a situação torna-se mais fácil orientar...

Qd refere que a ORL lhe estabeleceu de imediato o diagnóstico, presumo que terá sido mais explícito no conjunto dos sintomas... Pela características da doença, deduzo tb que já teria tido episódios semelhantes, no passado e, em cada um, uma perdazinha de audição...

Bom, para terminar, uma nota importante: qd houver outro evento, para ajudar a distinguir a vertigem, a Fernanda que lhe olhe nos olhos e observe se tremem com movimentos repetitivos, geralmente numa direção

E,pronto,a insónia está a acalmar...

Se precisarem de conversa por via oral, liguem ou viagem até à Província!
bj
mitó

Li Ferreira Nhan said...

Já em casa mas a dieta continua e junto a ela a ansiedade e o pouco humor. Foi novamente a pancreatite aguda. Alguma hora o Gil terá que aprender que é mais ou menos como " o peixe, que morre pela boca" e deixar os maus hábitos.
Obrigada Jorge.

Jorge Pinheiro said...

Mitó: Ai....!!!