28.12.16

COMIGO MESMO - XXI


A verdade é que uma fotografia da minha mãe estava exposta na montra do fotógrafo, vá lá saber porquê. Alguém achou que ela seria uma candidata de peso e impeliu o povo a votar naquela foto (ainda hoje tenho essa magnífica foto). Foi claramente uma votação política para derrotar Mirandela. Uma coisa que hoje é um misto de orgulho e de anedota para ela.
Acontece que a minha mãe não sabia de nada. Estava já a estudar no Porto e achou tudo aquilo ridículo. Acabou por não aceitar. Tinha vergonha de sair à rua. Não veio a Lisboa à Casa de Trás-os-Montes representar Bragança. Uma questão de pudor? Apenas vergonha? Timidez? Não sei. A verdade é que a minha mãe sempre foi muito bonita e muito elegante. Merecia o título e muito mais. Não veio e não ganhou um vestido de noite que era o prémio de 1ª classificada. Imagino que não tenha ficado muito popular lá pela terra.
A verdade, também, é que a minha mãe sempre detestou fotografias e exibições. Um “bicho” difícil de apanhar na objectiva. Talvez já fosse essa timidez primordial. Uma timidez fotográfica que, diga-se de passagem, foi agravada ao longo dos anos pelo meu pai nos seus constantes rasgos de “realizador de Super 8”, em que a fazia desfilar frente aos monumentos, em Paris, Granada, no Convento de Mafra ou mesmo nas distantes praias algarvias. Ainda tenho esses filmes em que ela aparece sempre vagamente contrafeita, dirigida com mão de ferro pelo meu pai: “Para a esquerda, para a direita. Agora olha para cá. Mais devagar… Pára”.
Seja como for, e mesmo sem tiara ou vestido de noite, eu tenho uma Miss mãe.

3 comments:

João Menéres said...

Eis a MISS quando a Praia da Rocha era a PRAIA DA ROCHA...

Eduardo P.L. said...

Ser filho de miss não é pouca coisa,,,

Li Ferreira Nhan said...

Bonita, elegante e muito bem vestida!