6.2.17

COMIGO MESMO - LV


Quando a sirene da Fundição tocava às 13h o meu cão Nero, um Serra d'Aire cabeludo, era lançado à minha procura com a trela encarnada engatada na coleira. Era a maneira de eu saber que tinha de acabar o jogo das três covinhas que disputava desde as 10 da manhã por debaixo do Bloco B, de Nova Oeiras, ou de terminar a corrida de carrinhos Dinky Toys à volta da Alameda. Precipitava-me para casa a engolir o bife com batatas fritas e avançava para o Liceu ainda a ruminar a maçã reineta.
O Liceu era feito de corredores compridos, vidros e muito eco, gritado na vozeria insegura e exibicionista da juventude irrequieta. O reitor, o Dr. Mexia, fazia da “posição de dez para as duas”, uma maneira de estar na vida. Fiscalizava diariamente a entrada para as aulas. Repreendia os jeans coçados dos rapazes e as miúdas pintadas ou com saias acima do joelho. Muita gente odiava o reitor, conotando-o com a repressão do regime. Não sei. Sei que era o símbolo do poder, da moral e dos bons costumes. Coisas importantes, mas para as quais nos estávamos completamente nas tintas.
PS: na foto, eu a minha mãe e o cão Nero ainda bebé.

2 comments:

João Menéres said...

Que original maneira, Jorge :
O Nero era lançado à minha procura com a trela encarnada engatada na coleira. !

Eduardo P.L. said...

Bons tempos esses...