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23.12.14

SERRA D'OSSA - VII

 
Para os vegetarianos, verdes e outra gente sustentável, o Alentejo é um pesadelo. Não há saladas e até parece mal falar disso. Tudo são assassinatos em série perpetrados por indizíveis montanheiros que depois se desculpam ocultando as provas no meio de barros e tanhos, cozinhadas e disfarçadas com ervas aromáticas. E nós somos cúmplices involuntários dessa maldade  primária que é matar para vender. E até nos viríamos embora enxofrados, não fora o "corpus delicti" estar absolutamente supimpa.
 
 
Entra primeiro o cozidinho de grão, bem apuradinho com carnes deliciosamente gordurosas e hortelã para cortar;  a feijoada de lebre, polvilhada de cenoura, algum coentro e onde pontuavam favocas de sabor intenso, apresenta-se macia e com aquele sabor cinzento adocicado da caça corredora; vem por fim o guisadinho de javali, tenro como um bebé, com a cebola em ponto de pérola e tomate qb. Desengane-se quem pense que ficou caro. Com litros e litros de vinho, queijo e sobremesa, 20 euros por pessoa. Recomendo uma ida aos "Gémeos", em Santiago de Rio de Moinhos, para os lados de Bencatel.
 
O passeio estava terminado. Resta a sonolenta viagem de regresso a casa numa modorra doentia entre o sono e o traque. A fermentação do grão com o feijão e as favocas, laçam-nos para patamares de grande exigência na condução e dificulta a convivência dentro do habitáculo. Resta um passeio forçado por entre as vinhas para aliviar tensões e permitir exaustão dos gases mais nocivos antes do derradeiro esticão até Lisboa.

CONVENTO DE SÃO PAULO - EXTERIORES







22.12.14

CONVENTO DE SÃO PAULO - INTERIORES





SERRA D'OSSA - VI


A seguir à extinção das ordens religiosas, e no vazio de poder que se sucedeu, o saque do Convento de São Paulo durou 36 anos. A talha dourada que revestia a igreja foi queimada para retirar o ouro. Os azulejos, à falta de técnicas apropriadas, eram retirados a escopro e martelo. Partiram-se quase todos. As telhas, portas e janelas foram roubadas. O Convento ficou ao abandono e à intempérie.


Foi há apenas 21 anos que o Convento foi reaberto como hotel, após prolongada recuperação. São 40 quartos, alguns no chamado "núcleo museológico" (que inclui as celas dos monges). A loucura deste projecto deve-se à Fundação Henrique Leote. Sem ele, nunca seria possível ter rentabilidade turística para manter o Convento. O Estado em vez de ajudar, tem, ao que parece desajudado. É uma pena que as várias "capelinhas" do Estado possam dificultar a vida aos conventos, mesmo quando são Monumento Nacional. Continuamos a ser um país desorganizado e burocraticamente cego.

O PARAÍSO DO AZULEJO





19.12.14

SERRA D'OSSA - V



São Paulo "o Eremita" tinha 17 anos quando achou que se devia calar para sempre. Passavam uns 300 anos depois de Cristo. Nunca mais falou. Isolou-se no deserto, ou seja, num espaço sem shoppings nem lojas de chineses. Ficou debaixo da tamareira. Comia tâmaras e vestia-se folhas verdes que lhe cobriam as partes mais obscuras e lhe faziam uma azia divina, aquela que só passa com Omeoprazol concentrado.
 

Paulo tinha já 110 anos sem falar quando apareceu um "chato do deserto". Santo Antão achava que ninguém conseguia ficar calado tanto tempo. Achava que ele, Antão, era o mais mudo de todos no reino do silêncio. Seguindo a mensagem divina encontrou a tamareira e tanto chateou Paulo que o fez falar. Paulo morreu exausto à segunda frase. Hoje tem conventos na Calçada do Combro e na Arrábida. Hoje a vida é um barulho de avenida e todos queremos a ausência de ruído sem conseguir estar calados. Será este o primeiro ecologista?  

18.12.14

SERRA D'OSSA - IV


 

Sobe-se para cima como se desce para baixo. Dominus vobiscum das escadas rolantes. Verbo maior da epifania menor. Ficamos sem saber se fomos ou se existimos. Se subimos ou descemos. Se morremos ou se tanto faz. E entre o ser e o haver, escolhemos qualquer coisa que não faça azia. Ficamos a pensar como seria a vida antes do azul. A vida teria cores antes de Cristo? E Cristo era uma banda desenhada ou já haveria diaporamas ao vivo? Quem era afinal este ser exótico que morreu por querer e ressurrecionou-se sem querer?


17.12.14

SERRA D'OSSA - III

 
 
 
Entramos e mandam-nos logo calar. Um voto de silêncio difícil de manter para as mulheres. Os homens aguentam-se porque, basicamente, nada têm para dizer. O Convento de São Paulo fica na Serra D'Ossa. Hoje é um hotel. Mas quando foi fundado, em 1182, era um Mosteiro. Aqui fica um dos paraísos do azulejo. 
 
 
 
As paredes são uma banda desenhada, com legendas e tudo. Conta-se a azul e branco o Antigo e o Novo Testamento. Os azulejos são do século XVIII. Escaparam à pilhagem porque os monges entaiparam várias alas do Convento. A seguir à extinção das Ordens Religiosas, que começou ainda no período do Marquês de Pombal (Alvará de 1759), os bens foram incorporados na Fazenda Nacional e viriam a financiar os municípios. Mas o  Convento de São Paulo seria disputado entre os municípios do Redondo e de Estremoz durante 36 anos. No vazio de poder, as pilhagens sucederam-se e o que resta é fruto de um enorme esforço privado.
 
 
 
Os corredores sucedem-se. Longos e sóbrios no requinte do azulejo. Nada está a mais. Tudo é simples e, no entanto, nada poderia ser mais complexo. Imaginem-se percorrer um filme. A atravessar a Bíblia. Deslumbramo-nos com a visão ultra-realista dos desenhos cozidos no forno dos mestres e pensamos quantos mãos aqui trabalharam. Quantos planos foram feitos. Quantos esboços foram necessários. Quem eram. Onde estão.
 

E cansados de tanta reflexão, entramos na cela. Um quarto austero e simples. Um quarto sem ruído, onde o silêncio reina. Cá fora não se ouvem passos. Não há gritos de crianças. Não passam carrinhos de limpeza. Tudo é discretamente monástico. Estamos no reino de São Paulo "O Eremita".

11.12.14

PESOS E MEDIDAS - REDONDO


Na foto de cima podem ver a vara e côvado. A vara, utilizada no Império Romano, chamada Pertica, valia 10 pés de comprimento, equivalente a, aproximadamente, 2,96 metros. Em Portugal e no Brasil, até à introdução do sistema métrico, a Vara era a unidade básica de medidas lineares, valendo 5 palmos de craveira, ou seja 1,1 metros. O côvado foi usada por diversas civilizações antigas. Era baseado no comprimento do antebraço, da ponta do dedo médio até o cotovelo. Ninguém sabe quando esta medida entrou em uso. O côvado era usado regularmente por vários povos antigos, entre eles os babilônios, egípcios e hebreus. O côvado real dos antigos egípcios media 53cm. O dos romanos media 44,5cm. O côvado hebreu media 44,7cm.
 Na foto do meio podem ver o ábaco, um antigo instrumento de cálculo, formado por uma moldura com bastões ou arames paralelos, dispostos no sentido vertical, correspondentes cada um a uma posição digital (unidades, dezenas,...) e nos quais estão os elementos de contagem (fichas, bolas, contas,...) que podem fazer-se deslizar livremente. Teve origem provavelmente na China e no Japão, há mais de 5.500 anos. O ábaco pode ser considerado como uma extensão do ato natural de se contar nos dedos. Emprega um processo de cálculo com sistema decimal, atribuindo a cada haste um múltiplo de dez. Ele é utilizado ainda hoje para ensinar às crianças as operações de somar e subtrair.

9.12.14

BARROS DO REDONDO





SERRA D'OSSA - II


A digestão acaba por ser a única coisa que interessa no intervalo entre almoço e jantar. Andar a pé acaba por ser uma solução de recurso, já que não podemos andar sentados. Pelo caminho vemos muitos borregos, algumas ortigas e erva variada, quase toda verde.
 
 
A vila de Redondo fica perto da Serra. Não é plana, nem chata, nem redonda, nem comprida. Tem o Museu do Vinho, o Museu do Barro e a Enoteca Municipal. Os barros do Redondo são conhecidos precisamente por serem redondos e coloridos. Visitem o mestre João Mértola e tentem não partir nada no equilíbrio instável que é a vida a partir dos 14,5º.
 
 
O azul continua português e as sombras alongam-se na tarde caduca do inverno poente. O castelo tem portas. A Porta da Ravessa é hoje vinho engarrafado. Saímos por ali na esperança de algum aconchego.
 
 
E quando tudo parecia perdido nas voltas da Serra, eis que surge na noite o Hotel Convento de São Paulo. o "paraíso do azulejo".
 
 

8.12.14

SERRA D'OSSA - I


Serra d'Ossa. Nome mais que duvidoso. Avançamos com três únicas certezas: parou de chover, a serra fica no Alentejo, vamos comer bem como o caraças. Comecem por ir ao "Chana do Bernardino", na Aldeia da Serra. São 180 km bem medidos, partindo do centro do Império. Não há dieta, nem saladas. O vinho abunda.
 

O Bernardino recita uma introdução em que o menu parece um "mantra-cante" recentemente eleito para património universal da Humanidade. A oração apenas serve para aumentar o suspense do apetite. Indecisos entre pezinhos de coentrada, cogumelos com presunto, pimentos assados, migas de batata, sopa de cação ou sopa de tomate com chouriço e bacalhau, decidimos pedir tudo.
 
 
Os pimentos assados apresentam-se de textura suave, a desfazer-se na boca, temperados a alho e azeite encorpado, com vago toque de vinagre de vinho de acidez neutra. O verde predomina. O encarnado sobrepõe-se. O estômago não distingue cores e viva o Benfica.
 
 
A passagem para a sopa de cação revelou-se opípara. Um tubarão em calda de coentros, muito pão e o ovo escalfado a adocicar de amarelo a paisagem gastronómica da planície alentejana. Nunca percebi porquê, mas o cação predomina no Alentejo vindo sei lá de onde e mergulhando no caldo em profusão vertiginosa no agasalho da sopa quente.
 

Adoro as comidas com cores. É tomate alentejano. Agridoce. Envolvente. Indescritível. A sopa vem com entrecosto, chouriço e bacalhau à aparte. Mistura-se tudo na sopa e a sopa fica a falar connosco como se nos conhecemos há muito tempo. No fim ficamos com pena de a ver partir e lambemos o prato com restos de pão que remanescem na toalha emporcalhada de desperdícios gulosos.
 

Para rebater até podem comer abacaxi... Mas é na ameixa de Elvas que está o segredo. São ameixas Rainhas Cláudias, numa calda devastadoramente doce, em que se vêm as próprias calorias em movimento extenuante tentando fugir ao indicador de diabetes. Procura-se assistência médica nos restos de tinto que possam sobrar das garrafas amontoadas para melhorar o colesterol. Nesta fase, as mulheres começam a queixar-se que têm de andar a pé por causa do pneu e os homens queixam-se da falta de álcool para encher o pneu.
 
 
Os vinhos são todos bons. Acima de tudo bebam muito. Facilita a condução nas estradas curvilíneas que entram pela Serra dentro. As curvas passam melhor e tudo parece mais fácil. O perigo do álcool está nas rectas monótonas que nos fazem adormecer no "cruise control" das autoestradas.