
Dia de sonho. Água azul. Cristalina. Sol brilhante. Areia de madrepérola. Mar de esmeralda. Gaivotas bolinando na deriva do Suão. Sapal dourado incendiado no esplendor do meio-dia. Alfarrobeiras deslizando suavemente na distância desmedida. O barco do Zé António que nos transporta diariamente à ilha afortunada… Sento-me na lancha. Calção, corpo aberto no espaço. Feliz por existir, a caminho do paraíso.
Lá no alto, um pequeno insecto de cerca de 1 cm, zebrado de amarelo e preto, cintura de vespa e antenas proeminentes, resolve associar-se a toda esta felicidade e, subrepticiamente, introduz-se na toalha colorida que, displicentemente, repousa sobre os meus joelhos. Afago involuntariamente a toalha na volúpia do momento. A vespa assume aquilo como um ataque e, aprisionada nas pregas dos calções de banho, inocula todo o veneno em plena glande até esgotar o elixir.
Dor horrível. Gesticulo como um louco. Lágrimas nos olhos. Discretamente investigo os estragos. A minha pila, habitualmente escorreita, estava a entrar numa fase transformista. Quando chego à praia é já um tortomulho infame a querer saltar do fato de banho. Corri para a água na esperança de algum alívio. Asneira. Com a diferença de temperatura o “coiso” começou a ganhar vida própria: grosso em cima, fino em baixo; depois ao contrário; finalmente um balão pronto a rebentar.
Daí para a frente foi uma romaria na praia. Os homens a querer-me levar ao hospital. As mulheres riam de impúdica incredulidade, ante aquele objecto em permanente mutação. Os putos viam naquilo uma escultura na areia que vai mudando com a maré. Eu, só receava a impotência.
Durante os quatro dias seguintes fiquei entre a vida e a morte, temendo pela minha masculinidade. Será que voltaria a funcionar? E se ficasse assim para sempre? Um membro excessivo, desmedido, condenado para toda a vida a fazer sexo com animais de grande porte?
Finalmente tudo voltou ao normal, às devidas proporções. Olhei-me ao espelho e suspirei de alívio. Desde então nunca mais fui o mesmo. A minha vida mudou e muito. Agora olho as vespas com outro respeito e com alguma cumplicidade e, admito, passei a ter uma vontade irreprimível de arremeter a tudo o que mexe!
Contribuição para a blogagem colectiva da Mylla Galvão, do blogue "Vidas Linha".
jp