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13.5.09

BODAS DE AFONSO - A CHEGADA A SANTARÉM



D. MANUEL I - A VENTUROSA TRAGÉDIA

Para quem já não se lembra, Afonso, princípe de Portugal e Isabel, infanta de Castela, acabavam de se casar com grande fausto em Évora. Vinham de lua-de-mel para Santarém, acompanhados pelo rei D. João II e por toda a corte...
A viagem das pessoas reais foi super divertida. Pelo caminho iam acampando em tendas, como vulgares campistas. Pelo caminho iam folgando muito, caçando e dormindo o mais que podiam. Era o paraíso! Uma semana depois chegam a Santarém (ver fotos supra). Uma turba esperava as pessoas reais e logo a farra começa. Durou 27 dias. As ressacas eram enormes. Os reis estavam felizes. O país estava feliz. D. João II exultava. Os "descobrimentos" iam a bom ritmo. Em breve chegariam à Índia. Disso o rei já não tinha dúvidas. Em breve o filho Afonso ocuparia o trono de Portugal e de Castela. Era a União Ibérica sob a hegemonia lusitana.
Subitamente tudo mudou! E veja-se como tudo estava destinado a mudar. O destino impôs-se, tragicamente, a 11 de Julho de 1491. Afonso cansado das ressacas sucessivas e da caçada da véspera, resolve passar o dia com a amada Isabel para a compensar... O rei, seu pai, porém, veio desinquietá-lo. Que viesse com ele nadar lá em baixo, no Tejo, ao fim da tarde. O princípe que não. O rei que sim. D. João, cansado de esperar, vai sozinho. O moço, porém, reconsidera e manda aparelhar a real mula. Eis que passa o estribeiro-mor com um soberbo cavalo. Afonso apodera-se do cavalo e vai em veloz correria no encalço do pai. O cavalo era um verdadeiro "Ferrari". O princípe deslumbrado, resolve galopar pelas margens do rio. Já se preparava para voltar, quando lhe aparece D. João de Meneses, fidalgo seu amigo. O princípe tanto insistiu que o pobre fidalgo, que não queria, acabou por aceitar o despique. Deram-se as mãos e lá foram os dois em correria ao longo da margem. A noite caia rapidamente. De repente João de Meneses sentiu que a mão do princípe lhe fugia. Ouviu um baque surdo e alguma coisa a ser arrastada pelo solo. Quando voltou para trás, o cavalo esperneava sobre o cavaleiro inerte, no chão. O princípe, politraumatizado, morria no dia seguinte, 12 de Julho de 1491. A sorte de D. Manuel, duque de Beja, começara a mudar... (continua).
jp

9.5.09

BODAS DE AFONSO - AS FOTOS




D.MANUEL I - AS BODAS DE AFONSO

O banquete real só veio a realizar-se dois dias depois da entrada da princesas Isabel em Évora. Mas a espera valeu a pena. Cada prato a ser servido era antecedido de enorme cerimonial, fazendo os olhos comer antes que a boca provasse. Primeiro vieram bobos e malabaristas, músicos e dançarinos. A atmosfera vibra de estranhos aromas derramados pelos acepipes, misturados com a música infernal dos pífaros, dos sacabuxos, e o troar dos tambores. Mãos hábeis de menestréis dedilham alaúdes, confundindo-se na vozearia distante das conversas das damas de decotes profundos e nas gargalhadas alarves das matronas excitadas. Os perfumes intensos e as emanações dos vinhos aumentam o contentamento geral.. Chega um grande carro de ouro puxado por uma junta de bois, completamente assados, de pontas e cascos também dourados. O carro vem cheio de borregos igualmente assados por inteiro, com chifres dourados e retorcidos. Devidamente aplaudido, o carro é entregue à multidão que lá fora se acumula e que pouco demora a admirar a obra, atirando-se a ela com tremenda voracidade. Na mesas real são servidos pavões assados inteiros, de pé nas travessas, com a vistosa cauda aberta em leque; coxas de veado em largas fatias; gordas perdizes e lépidas lebres; frutas e doces em grande abundância e perfeição. De dois em dois pratos aparecem, em entremez para abrir o apetite, reis da Guiné, gigantes vestidos de veludo, bailarinos pintados de preto... Não havia memória de uma festa assim!
No dia seguinte vieram as "justas", os torneios medievais. Constituíram-se várias "equipas". D. Manuel, duque de Beja, o futuro "Venturoso", vem à cabeça de um deslumbrante rancho de Aventureiros. Os torneios duram quatro dias. No fim o júri, perfeitamente imparcial, declara vencedor... o rei D. João II que, magnânimo, cede os prémios aos seus campeões.
Os festejos acabam com a ameaça da peste, essa temível intrusa que percorre a Idade Média sem ser convidada. Os princípes refugiam-se no Convento do Espinheiro. Algumns dias depois sairão para Santarém em merecido gozo de lua-de-mel. A tragédia, porém, aproximava-se... (continua).
No post de cima algumas fotos do evento. O fotógrafo estava lá!
jp

7.5.09

D. MANUEL I - RUMO AO ESTRELATO

Manuel era de facto venturoso. Primo do rei, lá foi ele buscar carinhosamente a pequenita Isabel para a levar com mil cuidados ao príncipe consorte. Mas mais sorte teve ele. O bocado estava guardado!
Entretanto, Afonso, o príncipe herdeiro, sempre impaciente, quebra o protocolo e decide que há-de ver a noiva. Corre a Estremoz, onde ela descansava, seguido do estremoso pai, o nosso bom João II, que tudo tinha de supervisionar no seu afã centralizador. Os princípes contemplam-se embevecidos. Já não são os petizes que em tempos se conheceram em Moura. Ele, ainda que imberbe, muito agrada a Isabel, na sua tez rosada e cabelos loiros de ascendência britânica. Ajoelham e logo ali se abraçam. Da procuração à paixão. Um caso de sucesso diplomático!
E lá foram todos em cortejo até Évora, onde os esponsais teriam lugar. A entrada solene na cidade foi a 27 de Novembro. A princesa entrou na cidade sob arcos de triunfo, rodeada de fidalgos de capas de cerimónia e colares de ouro ao pescoço, enquanto se representava o Paraíso, com anjos e arcanjos a cantar. O jovem Manuel, sempre discreto, e o bastardo do rei, gentilmente tratado por "senhor D. Jorge", seguravam as rédeas do cavalo da princesa, enfeitado com o colar da Ordem da Jarreteira que o rei, sabe-se lá porquê, mandara lá colocar. Os noivos apearam-se na Sé de Évora para beijar a Vera Cruz que, mais uma vez, todos garantiam ser a autêntica. Antes da ceia houve dança para "as pessoas reais" e cortesãos. A festa continuou pela noite fora, com o povo enfusiante de alegria, dançando pelas ruas, já esquecido dos 200 mil cruzados de contribuição que fora obrigado a confiar aos tesoureiros do rei para fazer a festa... (continua).
A fotografia foi por mim tirada, num momento de rara fortuna em que, acidentalmente, por ali passava.
jp

6.5.09

D. MANUEL I - O VENTUROSO

Pois foi este atraente rei que da varanda do Paço dos Arcos, a 5 minutos de minha casa, assistia à largada das naus para além-mar, a caminho da Índia e do Brasil.. Convivemos com locais históricos quase sem pensar nisso. E, no entanto, ele esteve lá, debruçado do varandim. Acenando solene aos capitães barbudos que de longe lhe pediam vénia. E esteve lá só porque "nasceu com o cu para a lua". O Venturoso!
Corriam os loucos anos 80 do século XV. Andava tudo excitado com o prometido casamento do Princípe Afonso de Portugal, filho de D. João II, com Isabel, a salerosa filha dos Reis Católicos de Espanha. Todos entreviam nas névoas do porvir a mesma rainha para toda a Península e um descendente, único herdeiro de todas as coroas. Uma Espanha unida. Todos estavam cansados de guerra. Finalmente, portugueses e castelhanos sentiam-se irmãos.
Os embaixadores portugueses tinham levado um retrato de Afonso, de corpo inteiro. Nos seus 15 fogosos anitos, o princípe era de apetite. Isabel, pois mais madura, de imediato pensou em brincar aos médicos com o jovem prometido. A cerimónia dos esponsais, por procuração, decorreu em Sevilha, naquele magnífico ano de 1490. Toda a cidade vibrou em festa até ao alvorecer. Em Portugal a notícia apanhou o rei em Évora. Tocaram sinos. Ouviram-se bombardas. O povo saiu à rua a dançar e a cantar. Um matrimónio desejado, quaisquer que fossem as razões políticas ocultas de ambas as partes!
As bodas haveriam de ser em Évora, já que Lisboa estava em epidemias de pestes permanentes, com alerta laranja. Seria o maior casamento de Estado de que havia memória. D. João, em pessoa, instalou-se na cidade para gerir directamente a produção do evento (um rei centralizador, indiscutivelmente). Finalmente, pode mandar chamar a noiva. Isabel chega a Elvas a 19 de Novembro de 1490. Imaginem quem a vai buscar...? O Duque de Viseu, D. Manuel, que nunca poderia pensar que, um dia, seria ele o marido daquela gentil donzela...
Vamos hoje ficar por aqui. Fiquem em suspense a sonhar com princípes e princesas!
jp

PAÇO DOS ARCOS



Desta varanda do Paço dos Arcos, sobranceiro ao Tejo e que deu o nome à vila da Linha de Cascais, via D. Manuel I a passagem das naus que partiam para as Índias. O rei "Venturoso" tudo herdou de D. João II. Até a coroa lhe caiu na cabeça, depois de uma sucessão atribulada, na sequência da morte de Afonso, o princípe herdeiro. Talvez mais logo vos conte alguns detalhes sórdidos deste importante episódio da nossa História. Agora vou ali à praia dar um mergulho e já volto...
jp