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13.1.12



O MAR OCEANO

O mar não é horizonte. O mar é profundidade. Um ruído surdo que nos hipnotiza. Um turbilhão que nos inquieta. Vivo rodeado pelo mar. Sou um continente à deriva. O mar percorre o meu dia. Sempre diferente. Ora azul, ora cinzento, umas vezes quase negro, outras cor de prata. Vejo o rasto de espuma. As pegadas soltas no areal. Traços que a maré nos deixa para decifrar. O mar aproxima e afasta. Mata e dá vida. Sempre que vejo o mar emociono-me. Apetece-me entrar por ali dentro. Para aquele magna divino. Para aquele "caldo inicial". Ainda hei-de aprender a nadar.

11.1.12

REBENTAÇÃO





SINTOMATOLOGIA

Há um planeta ao pé de nós. Olhamos sem ver. Fartos do horizonte queremos o infinito. Perdemos a noção. Viajamos no turismo de pacote. Excursões por atacado. Uma rotina feita de lugares comuns. Fotos desfocadas. Postais de circunstância. Divertimento a crédito... Ao nosso lado a natureza continua barata. Viajamos sem crise.

22.3.10

LINHA DE CASCAIS - QUINTA REAL DE CAXIAS


Pode parecer Angkor, na longínqua Birmânia. Mas não. É já aqui em Caxias, na Linha de Cascais. Quando ficou terminado o Palácio de Caxias, pertencente ao Infantado (dos filhos da casa real), o princípe D. Pedro III, princípe consorte, casado com a rainha D. Maria I, sua sobrinha, manda enobrecer o espaço com jardins de buxo à la française, enriquecido com esculturas míticas e lagos simbólicos, numa autêntica fábula, baseada nas Metamorforses, de Ovídio, reinterpretando a iconografia do Banho de de Diana. É dele também a iniciativa da construção da Quinta Real de Queluz, num émulo de Versalhes, convertendo-se, D.Pedro III, num dos maiores mecenas nacionais. Depois do regresso dos calores do Brasil, é aqui, em Caxias, que as filhas de D. João VI passam os Verões, perto do mar, mas longe do calor tropical que lhes fazia suar as partes mais sublimes da real anatomia. A construção da Cascata e dos Jardins é do início do século XVIII e fica a cargo de Joaquim Machado de Castro, o mesmo da escultura de D. José I, na Praça do Comércio.
A sensação que temos naquele espaço, hoje jardim público, é de narciso entre ninfas. Que assim seja, para bem de todo o infantado que temos dentro da cabeça e que não cessa de gritar por Ceres e Proserpina, essas semi-deusas de eterna sensualidade e permanente desejo.

LINHA DE CASCAIS - UM ESTADO DE ESPÍRITO


Não é da Linha quem quer. Não é da Linha quem cá mora. Ser da Linha é um estado de espírito. Há requisitos essenciais. Por exemplo, quem não nasceu nesta zona ou pelo menos quem não passou cá a adolescência, dificilmente pode integrar esse estado de espírito. Gente que para cá veio com trinta ou mais anos, que trabalha, chega à casa para dormir, ver televisão e aos fins-de-semana procura descansar, nada sabe desse espírito. Limita-se a existir aqui. Aliás cada vez há menos “gente da Linha”. A expansão demográfica e a massificação urbanística converteram a Linha num arrabalde de Lisboa com Sol e praias. A vida própria e característica da zona perde-se no afã dos engarrafamentos permanentes. E afinal o que é esse espírito? O que caracteriza um verdadeiro habitante da Linha de Cascais? Ser da Linha é ter conduzido contra mão na quarta faixa da Marginal; é ter apanhado o comboio das 4,20 da manhã em Cascais, depois de um glorioso pifo no “John’s Bull”; é conhecer os cantos mais recônditas praias da Parede ou de S. Pedro do Estoril; é ter namorado no Alto do Lagoal com vista para o Cabo Espichel; é ter desafiado os poderes, sem nunca ter querido nada; diletância inconsistente de total irreverência. Ser da Linha é ter uma liberdade física e mental. Exigir dos pais mais do que de nós próprios. Ter uma sensação de superioridade sem qualquer fundamento intelectual. Sermos diferentes e não querermos ser iguais sem qualquer razão evidente. Como qualquer sub-cultura, ser da Linha é inexplicável. Mas cada vez deixa mais saudades…

17.3.10

LINHA DE CASCAIS - O TERRITÓRIO


Vamos hoje começar uma série sobre a Linha e Cascais. Falaremos do território, da história, das pessoas, da mentalidade, dos locais. Quem quiser contribuir com fotografias antigas é bem vindo. Assim poderemos fazer o contraste.
Mas afinal o que é a Linha? Não haverá uma definição consensual do território da Linha. Para mim é a estreita de terra e praias que vai de Caxias a Cascais, passando por Paço D’Arcos. Oeiras, Carcavelos, Parede e os Estoris, numa extensão de vinte quilómetros. Para trás, vai do mar até à A5 (auto-estrada), talvez uns cinco quilómetros de largura, em média. Abarca duas vias de comunicação para Lisboa absolutamente marcantes, dois ícones imperativos: a linha de comboio do Estoril (que lhe dá o nome) e a Marginal, uma das estradas mais bonitas e perigosas do mundo. Ambas bordejam a foz do Tejo que levam de Lisboa a Cascais, sempre com mar à vista. Mas, mais que um território, a Linha é um estado de espírito…