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3.8.10

SILLY SEASON - VALE A PENA VIVER?

Em princípio a pergunta parece parva. Mas também o calor dá para tudo. Certo! Mas vejam com mais atenção e, por breves instantes, esqueçam que estão plenamente vivos. Isto de estar vivo não é assim tão evidente. Há a vida biológica; a vida existencial; a vida social; a vida laboral; a vida política; a vida fiscal... Muitas vidas para um só corpo. E o pior é que umas comprometem as outras. Estamos vivos. Que bom! Pois, mas se na zona social, laboral ou fiscal estivermos mortos estaremos totalmente vivos? Reparem, pagamos impostos directos e indirectos e descontamos para montes de coisas sociais, assistenciais e mesmo boçais. Pensamos que já chegava e podíamos ser biologicamente felizes. Quiçá, dar-nos até ao luxo de ter alguma vida espiritual. Eis que temos de pagar portagens, água, luz, pontes, televisão, seguros obrigatórios, taxas moderadoras nos serviços hospitalares, propinas para estudar, multas por estacionar, fotocópias certificadas, requerimentos a preço de notário, escrituras, rendas... A vida é um pagamento permanente. Em breve pagaremos para respirar. As nossas contas bancárias serão devassadas para estorquir migalhas de rendimento fermentado. Até para morrer é preciso pagar. A funerária, a campa, o caixão, mais certidões, as partilhas.... Não sei se há vida para além da morte, mas espero que o Paraíso seja gratuito. Hoje tenho já a certeza que não vale a pena trabalhar. Não gera riqueza. Gera despesa. A dúvida é se vale a pena viver! Silly season...

4.6.10

DIAS SANTOS

Há um corpo de deus, um deus sem corpo, um corpo sem deus e um feriado divino cheio de corpos. Corpos que fogem à crise. Sol e praia. Esgoto a agenda de contactos. Toda a gente foi para fora. Não ficou ninguèm para almoçar, para jantar... Ninguém! Acordei tarde. Bastante tarde. Às quatro entrei para almoçar. Adoro restaurantes que não fecham. Adoro restaurantes fora de horas. Salmão grelhado em cama de espinafres aromatizados. Um ligeiro rosé para espevitar.Começo a telefonar. Quem quer jantar comigo? Detesto jantar sozinho. Toda a gente tem compromissos. Ainda pensei em telefonar para o Brasil, mas achei um pouco em cima da hora. Nada. Ninguém. Triste. Sozinho. Abandonado... De repente entra um mail salvador. A minha namorada italiana ou será romena? Não interessa... Ela! Acabámos a comer um gaspacho espanhol, mini pizzas italianas, damascos secos de Marrocos e champagne francês. Ela pôs a mesa, eu cozinhei. Foi virtual, mas foi bom. Dias Santos!

28.5.10

AS PRIMAS

São as primas. Podem dizer tudo. Fazer tudo. São quase irmãs. A diferença existe apenas na proporção da consaguínidade. Somos uma espécie de namorados sem sexo. Eternos confidentes. Dizemos sempre o que queremos. Nunca teremos destino certo. Navegamos à bolina.

22.4.10

HAIR


No Verão de 1968 fui a Londres. Fui eu e o António. Uma viagem de "prémio" por termos acabado o liceu. No ano seguinte entraríamos para a faculdade de direito. No aeroporto, uma namorada de ocasião (curioso, já não me lembro do nome) deu-me um cachorro. Um pastor alemão que se viria a chamar Bruce, numa homenagem ao vocalista dos "The Cream". Nesse tempo até cachorro entrava no aeroporto. Agora, nem garrafa de água! Eu e o António éramos colegas desde o 2º ano do liceu e continuaríamos assim até ao fim do curso. Estudávamos noite fora até às 6 da manhã, entre cervejas e ping-pong para descontrair. Os volumosos códigos deslizavam entre sebentas policopiadas e manuais da Almedina Editores.
Londres era uma cidade inimaginável. Um mundo de cores num céu cinzento. Aterrámos em plena época hippy. Carnaby Street era a rua onde tudo se passava. Vimos o "Hair", na versão londrina, num velho teatro do Soho. Um happening total. Uma banda rock no palco. Pilhas de colunas de som. Actores que circulavam entre a assistência. Uma semi-nudez que empolgava... Foi há 42 anos! Não me sinto velho ao recordar isto. Sinto-me apenas antigo.
(Dedicado ao meu amigo António).