A chuva cai. Cai sempre. Cai sobre tudo e sobretudo cai. Cai num dilúvio permanente, arrasando diques, alagando vidas, afogando esperanças.A chuva cai. Cai há meses, entornando rios na maré-alta do nosso descontentamento.
Dia da Imaculada. Salvé Rainha, mãe do feriado... 140 no "cruise control"da encharcada alentejana. Alcácer do Sal flutua lá em baixo no verde escorregadio dos arrozais flutuantes.
Grândola é um desvio no mapa. Segue. Vira à esquerda. Direcção Beja..
Santa Margarida do Sado. Casas em estilo inócuo. Lusalite bolorenta agasalhando charruas enferrujadas.Redes de pesca esburacadas. Lenha húmida que ninguém quer comprar.
Paragem frente ao café onde homens de pança exposta engolem rojões de "rissol" fritos na gordura do colesterol, empurrados a poder de minis.
Este ano o Sado saltou as margens inundando casas ribeirinhas, destruindo vidas, soterrando almas.
Paisagem à beira da catástrofe.
Esperamos o jipe que nos levará aos pantanais de Algeda.
e com as cheias o motor do poço partiu. Também não há água!
O jipe avança penosamente na picada enlameada, em solavancos brutais com direito a fractura exposta,
ladeada por arame farpado, protegendo garanhões de raça lusitana ansiosos por criar descendência.
Cigarrilha nos lábios, ele guia com a
descontrcção de quem já enfrentou
muitos caminhos, penetrou muitos
buracos, deslizou muitas dunas e
renasceu em oásis de liberdade.

1 comment:
Também não conheço os locais de que fala, mas adorei o texto e a minha imaginação cria as imagens.
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