DEPOIS DE CRISTO“Está fora de dúvida que entre as diferentes ordens de cavalaria, a Ordem dos Templários, mais do que qualquer outra, ultrapassou a dupla limitação representada pelo simples ideal puramente ascético do cristianismo e das suas ordens monásticas, aproximando-se do tipo da cavalaria espiritual do Graal. Ademais, a sua doutrina interna tinha um carácter iniciático" (Julius Evola, in “O Mistério do Graal”).
Com as invasões bárbaras e a queda do Império Romano do Ocidente[1], a civilização clássica (greco-romana) sucumbiu a todos os níveis: os invasores arrancam torneiras em Roma e admiram-se que, ao abri-las nos seus longínquos fiordes, delas não saia água!
Criou-se um vazio de poder e da estrutura organizativa em todo o mundo ocidental, de que a Igreja Cristã se aproveitou, substituindo-se ao Império Romano e passando a exercer um verdadeiro poder temporal.
Por outro lado, e coincidindo com a decadência do Império Romano, a Igreja inicia um processo de “padronização e massificação” da religião, esquecendo deliberadamente os valores iniciáticos subjacentes e combatendo como heresias todas as interpretações “não oficiais”.
Tal é, particularmente, notório a partir do Concílio de Niceia (325 d.C.), o primeiro concílio ecuménico, onde se inicia a estabilização do corpo doutrinário da religião católica apostólica romana. É em Niceia que se adoptam os “verdadeiros Evangelhos” e que se discute qual o sexo dos anjos, qual o tipo de carne angelical e é lá que foi votado se a mulher tinha alma (ganhou por um voto…!). É em Niceia que se condena o arianismo como heresia[2].
Neste Concílio, porém, não foi possível concluir uma das discussões mais interessantes e importantes, a qual cavaria ao longo dos séculos as maiores divisões no seio do cristianismo: Cristo, fora proclamado Deus e homem. Mas como era ele Deus e como era homem e quais as relações entre as suas duas naturezas?
No Concílio de Éfeso (431 d.C.) o patriarca Nestório foi deposto por defender que Cristo era apenas um homem em quem Deus tinha habitado. Não um homem-Deus, mas um porta-Deus. O nestorianismo passa a heresia!
Logo a seguir, no Concílio de Calcedónia, é condenado, por seu turno, o monofisismo, que defendia a unidade de Cristo (homem-Deus) e é assegurada a ortodoxia: Cristo era um único senhor em duas naturezas, igualmente Deus e homem… Os monofisitas refugiaram-se na Pérsia.
Esta discussão inacabada deu origem a inúmeros “movimentos heréticos", que se estenderam ao longo dos séculos.
Sto. Agostinho, antigo zelador da seita maniqueísta (seguidores de Mani) dentro da orientação de Niceia, traçou a via estreita por onde avançarão os grandes clérigos da Europa Medieval: “Fora da Igreja não há salvação”. Os reinos bárbaros que se instalaram sobre as ruínas da romanidade manter-se-ão ou desaparecerão, consoante estiverem na Igreja ou fora dela.
A repressão e o espírito de intolerância que começou no Concílio de Niceia, foi reafirmada de forma categórica no séc. XI, através do “Dictatus Papae” (1075), onde se refere que só “a Igreja romana foi fundada por Deus[3]”.
A coberto desta dita ortodoxia muitos milhões de pessoas discordantes foram, ao longo dos séculos, assassinados pela Igreja Católica Apostólica Romana, entre eles muitos Templários…
Os Templários estão, sem dúvida relacionados com a vertente gnóstica do cristianismo.
Gnosis (a Sophia dos Gregos) significa “conhecimento”, o qual só pode ser alcançado através da iniciação nos “Mistérios”… A Gnose inclui razão e emoção, superando-os, ao contrário da fé cega nos dogmas… A Gnose é o conhecimento dos mundos superiores pela visão da alma…
A “Escola Gnóstica Cristã” (com influência até ao concílio de Niceia – séc. IV) partilhava muitas ideias essénias.
“Os Essénios já possuiam as seus mistérios “maiores” e “menores”, pelo menos dois séculos antes da nossa era. Eles eram “ozarim”, ou iniciados, os descendentes dos hierofantes egípcios, em cujo país haviam estado durante vários séculos antes de terem sido convertidos ao monasticismo budista pelos missionários do Rei Asoka, amalgamando-se, depois, com os cristãos primitivos “(Madame Blavatsky, in “Ísis sem Véu").
E, ainda segundo Madame Blavatsky, os Nazarenos, de quem era originário Jesus Cristo, eram uma confraria gnóstica, um ramo dos Essénios.
Haverá mesmo os “Evangelhos Gnósticos”, recentemente descobertos (1945) no Egipto, escritos em copta, os quais revelam uma outra leitura do cristianismo, a qual terá sido “apagada” depois do Concílio de Niceia.
Os séculos que se seguiram foram caracterizados por um caos político, obscurantismo, ortodoxia religiosa e involução cultural. Criou-se um isolamento europeu e uma clara regressão civilizacional, relativamente ao “período clássico”.
As Cruzadas virão despertar este mundo adormecido, promovendo um contacto com outras civilizações. Ainda existia o Império Romano do Oriente (só extinto em 1453) e no Egipto florescia a Universidade dos Fatímidas. Neste mundo do Oriente, na época com um nível civilizacional e cultural muito superior à Europa, tiveram os Templários acesso a muitas jóias da sabedoria antiga e estabeleceram um contacto profícuo com mestres orientais.
Renascia o velho sonho de unir Oriente e Ocidente, sonho que já tinha inflamado Alexandre Magno até à loucura.
A Ordem de Cristo, herdeira dos Templários portugueses, voltou a alimentar-se desse sonho, rasgando as grandes estradas oceânicas. Porém, a obra não ficou concluída e a verdadeira comunicação de culturas a partir de uma visão tolerante, profunda e universalista ainda está por cumprir (este era, aliás, o sonho de Fernando Pessoa, ao defender o Quinto Império).
Este espírito, o conhecimento de um fundo esotérico comum a todos as religiões e culturas da humanidade, este sincretismo iniciático, distingue a Ordem do Templo de todas as outras Ordens militares e/ou monásticas.
[1] Em 410 d.c. os Visigodos, comandados por Alarico, tomaram Roma e, em 455 os Vândalos de Genserico arrasam a cidade. Finalmente, o visigodo, Odoacro, em 476, recebe o título de Imperador do Ocidente depois de depôr o último imperador romano – Augústulo Rómulo.
[2] Deriva de Ário, nome de um teólogo de Alexandria, para quem Jesus, sem deixar de representar o vértice de Humanidade, foi apenas uma criatura, receptáculo do Verbo. O Arianismo foi, depois, trazido para a Penísula Ibérica pelos Visigodos.
[3] João Paulo II, em 1998, insiste na Carta Apostólica Ad Tuendam Fidem: “Deve acolher-se firmemente tudo o que é proposto em definitivo pelo magistério da Igreja acerca da fé e dos costumes… Aquele que nega uma verdade que por fé divina ou católica deve acreditar ou a põe em dúvida … não se retractar, seja punido como herege ou como apóstata com excomunhão maior…”
(DOMINGO PRÓXIMO CAPÍTULO )
jp
12 comments:
1º comentário
Já imprimi. Deu 3 páginas. Não está mal para um ano que se anuncia de crise...
Meu caro, isto está cheio de imprecisões. Sem entrar em grandes discussões, por motivos óbvios.:
Os Templários estão, sem dúvida relacionados com a vertente gnóstica do cristianismo.
Gnosis (a Sophia dos Gregos) significa “conhecimento”, o qual só pode ser alcançado através da iniciação nos “Mistérios”… A Gnose inclui razão e emoção, superando-os, ao contrário da fé cega nos dogmas… A Gnose é o conhecimento dos mundos superiores pela visão da alma…
A “Escola Gnóstica Cristã” (com influência até ao concílio de Niceia – séc. IV) partilhava muitas ideias essénias.
“Os Essénios já possuiam as seus mistérios “maiores” e “menores”, pelo menos dois séculos antes da nossa era. Eles eram “ozarim”, ou iniciados, os descendentes dos hierofantes egípcios, em cujo país haviam estado durante vários séculos antes de terem sido convertidos ao monasticismo budista pelos missionários do Rei Asoka, amalgamando-se, depois, com os cristãos primitivos “(Madame Blavatsky, in “Ísis sem Véu").
E, ainda segundo Madame Blavatsky, os Nazarenos, de quem era originário Jesus Cristo, eram uma confraria gnóstica, um ramo dos Essénios.
Haverá mesmo os “Evangelhos Gnósticos”, recentemente descobertos (1945) no Egipto, escritos em copta, os quais revelam uma outra leitura do cristianismo, a qual terá sido “apagada” depois do Concílio de Niceia.
Isto é totalmente falso, impreciso e tosco. Os escritos gnósticos sempre foram conhecidos, por exemplo. Ler o Corpus Hermeticum e restante literatura, que é bastante difícil.
Sto. Agostinho, antigo zelador da seita maniqueísta (seguidores de Mani) dentro da orientação de Niceia,
Falso. Ler as Confissões com atenção.
Por outro lado, e coincidindo com a decadência do Império Romano, a Igreja inicia um processo de “padronização e massificação” da religião, esquecendo deliberadamente os valores iniciáticos subjacentes e combatendo como heresias todas as interpretações “não oficiais”.
Falso. Consultar Paulo Osório, Santo Agostinho A Cidade de Deus e restantes da época.
A coberto desta dita ortodoxia muitos milhões de pessoas discordantes foram, ao longo dos séculos, assassinados pela Igreja Católica Apostólica Romana, entre eles muitos Templários…
Falso.
Vá, comecem a comparar aventalinhos...
Pedro: O seu conhecimento parece extravasar o meu nestas matérias e quiçá noutras. Há alguma coisa que seja verdade? Nem é preciso uma Verdade Absoluta que essas são difíceis. Só um pequenina verdade para me animar a continuar...
Embora ache estapafúrdias as teorias teosóficas da M. Blavatsky a querer meter desajeitadamente tudo no mesmo mesmo saco, também não é assim: "Falso! Vá lá ler as Confissões...", "Falso e tosco, a verdade está no Corpus não sei quê, mas é de leitura demasiado difícil para si". O que é isto?! Mas gostei mesmo foi da afirmação peremptória:.."milhões (nº talvez exagerado) de opositores à ortodoxia foram assassinados pela Igreja...." Falso. (?)
É bem feito, para eu aprender. Ortega, lá está, eu não disse nada disso, nem quis ser ofensivo, mas dito assim, e muito bem dito, assim parece. Que eu me lembre, também não disse onde está a Verdade: é muita metafísica para mim. Nem disse que eram textos difíceis por ser o expresso a ler. São textos mesmo complexos, mistícos, e, por vezes, apenas fragmentos. De resto, só um exemplo, que eu não gosto (nem sou adiantado mental) de falar disto: o que eu quis dizer com "Ler as Confissões" não foi mais do que dizer onde se encontra a referência à adesão ao Maniqueísmo. Agora, pode colocar em causa a minha capacidade de leitura do Latim e dizer que, afinal, não é aquilo que eu leio que lá está. Por mim, tudo bem.
Pedro: como imaginará, não sou templário, pseudo-templário ou maçon. Aliás nem gosto de seitas secretas que mexem com a nossa vida armadas em elites e acabam sendo uns "toscos" como quaisquer outros ou piores porque secretamente se ocultam e protegem para obter benefícios, acobertados em rituais e cultos só para disfarçar!. No entanto, que elas existem, existem. E que, em muitos casos, alteraram o rumo dos acontecimentos, também é verdade. Assim, hesitei muito em reproduzir aqui no blog a monografia que fiz em 2000 a propósito de uma visita ao Castelo de Tomar. Só o fiz depois de o blog estar consolidado em termos editoriais e ficar claro que isto é mais uma curiosidade da minha mente irrequieta. De forma alguma quero que este blog seja conotado com os blogues "templários" que pululam pela net, uns mais sérios, outros perfeitamente delirantes. Sendo um assunto complexo, em si mesmo, e objecto de várias leituras, li, na altura mais de 10 livros sobre o tema templários e diversos livros complementares na zona da história e filosofia. Seguraramente que fiz opções e algumas necessariamente menos certas ou incompletas. Por isso aceito críticas e esclarecimentos. Um blogue é isso mesmo. A interactividade. Agradeço a atenção com que leu um texto tão extenso e tenho mesmo uma sugestão, caso esteja interessado. Os posts vão sair ao Domingo. Se quiser às 2ª feiras seguintes, publico também em post a sua crítica/visão sobre o que foi escrito. Não pode é ser nos termos em que fez este comentário, senão ninguém percebe. Seriam "Os Comentários de Pedro". Que me diz?
Ortega: também não sou nada fã da Madame. Só que aqui dava jeito o que ela escreveu. Um dos problemas deste tipo de matérias é precisamente esse. Cada um escreve o que lhe vai nos cornos e os outros agarram-se ao que dá jeito. É muito difícil separar o trigo do joio.
No dia em que eu conseguir levar a Universidade Portuguesa a sério, até fazemos quatro ou cinco blogues, à vez, ora comento eu, ora comentas tu, porque as pessoas gostam muito de comentar. Eu, então, adoro.
Pedro: presumo que a resposta é negativa. Tenho pena e não percebo a relação com a Universidade. Mantemos então o modelo. Os seus comentários são sempre bem vindos.
Abraço.
Como é lógico. Não vejo os blogues como cátedras; isto é para fazer conversa de talho. Na Academia, lá tinha eu de ter trabalho a justificar as minhas posições - aqui não. Certamente que vou continuar a ler e a comentar, porque gosto de o ler. Mais uma vez, peço desculpa se não fui o mais correcto, mas, como disse, isto é um blogue.
Ah, esqueci-me: falei de Universidade, porque você falou de monografia.
Percebido.
Post a Comment