23.4.09

TEMPLÁRIOS REVISITADOS - BREVE ENQUADRAMENTO DA ORDEM

OS MISTÉRIOS ESPIRITUAIS DA ORDEM
A recepção na Ordem era um cerimonial fixo de carácter iniciático. Não a conhecemos na integra, mas, do que se sabe, faz lembrar os “mistérios antigos”, nomeadamente da escola pitagórica.
Numa primeira fase, ao candidato eram atribuídas funções desagradáveis para provar a sua vontade e humildade. Tomava consciência de que entrava para a Ordem para servir e não para ter honras.
Quando era considerado apto, marcava-se a reunião do Capítulo para o receber, sempre à noite. Se o Capítulo nada tivesse a opor, o candidato era mandado entrar e interpelado três vezes, por três irmãos, quanto ao seu real desejo de aderir à Ordem.
Se o postulante mantinha firme o seu desejo, mandavam-no sair e o Capítulo deliberava. Em caso positivo, era de novo chamado e o Mestre fazia seis perguntas. O novo irmão respondia com a mão direita sobre o evangelho e, à maneira do antigo ritual egípcio, fazia a “confissão negativa”:
- não era casado, nem comprometido;
- não tinha dívidas;
- não pertencia a nenhuma outra Ordem;
- não estava enfermo;
- não era sacerdote submetido a um bispo;
- não fora excomungado;[1]
Depois de jurar cumprir os três votos da Ordem – pobreza, castidade e obediência – era recebido como irmão. Entoava-se o salmo “Ecce quam bonum” e o Mestre conferia-lhe o “ad vitam”, o Sopro vital, o beijo na boca[2].
Ao novo membro da Ordem era entregue uma corda, que lhe rodeava a cintura por debaixo da veste. O seu sentido esotérico simbolizava o afastamento das energias inferiores do corpo, cristalizadas nos desejos carnais; o seu sentido exotérico era o vínculo à Ordem.

É defendido por muitos que esta cerimónia “oficial” de recepção deveria comportar elementos adicionais de carácter mais iniciático, que, mais tarde, foram usados contra os Templários, como alegado heretismo.
Seria esta regra cujos exemplares Jacques de Molay (o último Grão-Mestre) terá mandado destruir, antes da sua prisão?
A existência de regra(s) secreta(s) parece quase certa. Alguns pensam que eram em número de três: a primeira, a “oficial”, sem rito condenável; a segunda, só para alguns irmãos e, numa fase mais avançada do seu percurso, com a negação de Cristo; a terceira, ainda mais secreta, reservada aos membros do Capítulo Geral.
Com o decorrer dos tempos, a incompreensão de determinados ritos teria feito confundir tudo e os postulantes, quando da sua entrada na Ordem, teriam seguido ritos que não lhe eram destinados e que não sabiam explicar.
Voltaremos a este ponto, quando falarmos do julgamento dos Templários.
[1] Como já vimos, mais tarde a Ordem aceitou excomungados (sempre com o intuito da sua redenção) e também homens casados, desde que com o consentimento expresso das esposas…
[2] O sentido do beijo viria a ser deturpado e usado, entre outras coisas, como motivo de acusação no processo que levou à extinção da Ordem.
jp

1 comment:

Maria Augusta said...

Pois é, parece que o beijo foi interpretado como um sinal de homossexualismo na Ordem, durante o julgamento no reinado de Filipe, o Belo.