19.7.09

TEMPLÁRIOS REVISITADOS - BREVE ENQUADRAMENTO DA ORDEM

D. SEBASTIÃO
Depois de D. Dinis, o arquétipo nacional permanece vivo. A Ordem de Cristo, no entanto, não é a Ordem do Templo: perde-se o contacto iniciático com o Oriente (a demanda de Prestes João das Índias terá sido uma busca ligada a essa perda?).
Aos poucos, os mestres deixam de ser eleitos pelo capítulo, ficando a sua eleição sujeita aos desígnios da coroa. Mas, dentro dela, mantém-se muito do espírito e dos conhecimentos dos Templários e esse factor será decisivo para o lançamento da epopeia dos Descobrimentos.
No séc. XVI, o fantástico surto da arte manuelina fechava o ciclo do Portugal telúrico, ficando gravada na pedra a tradição que remonta às origens da nacionalidade e que esteve na vanguarda dos motores internos que levaram ao êxito dos Descobrimentos.
O ciclo que se iniciou na batalha de S. Mamede encerra-se com a chegada de Vasco da Gama à Índia. A partir desta data, ainda se realizam inúmeros feitos, mas começava a decadência.
D. Manuel I, o Venturoso, ainda leva até ao fim o projecto marítimo da Índia. Mas, ao ilegalizar os judeus e ao solicitar ao papa, em 1515, a entrada da Inquisição, estava a dar a machadada fatal numa tradição de tolerância, que vigorara nos primeiros quatro séculos da história de Portugal.
D. João III reforça a intervenção da Inquisição que, a partir de 1539, “entra a matar”, e rompe definitivamente com a tradição portuguesa. Portugal rendeu-se à Europa dogmática. A Europa telúrica perdia a liberdade em Portugal.
A Ordem de Cristo é neutralizada, passando a ser apenas monástica. Esta tendência começa já com D. Manuel, que inicia obras no Castelo de Tomar, descaracterizando-o e transformando-o no Convento de Cristo. É também nesta fase que a população “civil”, que residia intra-muros, é definitivamente transferida para a Corredoura, arrabalde de Tomar, onde hoje se situa a cidade.
Mas é de facto com D. João III que se perde o que poderia ainda restar do carácter iniciático da Ordem.
O rei nomeia, para prior perpétuo da Ordem, Frei António de Lisboa, da Ordem de S. Jerónimo. Este, mal chega a Tomar, queima inúmeros documentos da Ordem de Cristo e dos Templários (entre eles, provavelmente, a célebre “Bezerra”, o diário da Ordem, que desapareceu misteriosamente) e profana o panteão templário de Santa Maria do Olival, onde se encontravam mais de vinte túmulos de mestres do Templo…

Diga-se o que se disser de D. Sebastião, este jovem visionário ter-se-á apercebido da tragédia, mesmo que de uma forma insconsciente.
Renegou a sua educação jesuítica e tentou reabilitar a Ordem de Cristo e “…restituir os antigos costumes a que sou afeiçoado…”, conforme escreve em carta ao seu povo, em 1569. Que costumes seriam esses?
D. Sebastião parece também ter desenvolvido pesquisas para a descoberta do “tesouro dos Templários”, que, no todo ou em parte, poderia estar escondido na zona de Tomar. Tê-lo-ia descoberto?
Há quem defenda que seria na qualidade de Gão-Mestre da Ordem de Cristo que D. Sebastião teria tomado conhecimento do local onde se encontrava o tesouro.
Podemos especular sobre se terá sido essa descoberta que ditou o destino do jovem e sonhador rei de Portugal, ao promover e financiar a batalha de Alcácer Quibir (ou batalha dos Três Reis, como lhe chamam em Marrocos, por nela terem morrido, para além de D. Sebastião, dois reis marroquinos).
Teria assim feito recair sobre si e sobre Portugal uma maldição, ao utilizar o ouro dos Templários para fins alheios ao objectivo a que se destinavam…

Segundo Gilbert Durand[1], D. Sebastião desaparece, com o seu exército, a 4 de Agosto de 1578. Tinha vinte e quatro anos e entra para a zona mítica dos “reis escondidos”, dos “superiores desconhecidos”, dos “invisíveis”, das “autoridades escondidas” (os “Alumbrados”, tema tão caro aos rosacrucianos, no séc. XVII). A lista contém nomes como Seth, Enoch e Elias, todos “escondidos” e esperando pelo fim dos tempos.
Entre os sebastianistas, importa reter o nome do Padre António Vieira que, nas suas obras “História do Futuro” e “Clavis Prophetarum”, transporta o mito do “rei encoberto” para um joanismo renovado, elevando-o ao nível de uma filosofia geral do cristianismo: Portugal é o reino que deve assumir a vinda do Reino de Deus. O “soberano escondido” será, então, o Imperador do Mundo.
Assim, o “sebastianismo”, de raiz fortemente política e anti-espanhola, ganha, com António Vieira, uma amplificação messiânica.
O "sebastianismo” é a certeza de haver uma garantia, mesmo que momentaneamente escondida, de ordem, de justiça e de legitimidade. É a recordação do espírito telúrico dos quatro primeiros séculos da nossa história; do espírito das cruzadas e da reconquista do ideal da expansão universal, da busca do reino de Prestes João.
Como diz Fernando Pessoa:
“Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço de terra
Que é Portugal a entristecer,
Brilho sem luz e sem ardor
Como o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro…
É a Hora!
[1] Em conferência realizada em 1983, no âmbito dos “Encontros Internacionais de Tomar”.
jp

4 comments:

Anonymous said...

Jorge, essa história não tem fim....srsr

Bom final de Domingo!

EXPRESSO said...

EDUARDO: AMANHÃ É O ÚLTIMO EPISÓDIO. AINDA BEM QUE GOSTA...

Maria Augusta said...

Jorge, o fim da liberdade de culto e opinião é o começo da decadência...que pena! Sempre me perguntei porque Portugal que teve um poderio tão importante na época dos descobrimentos teve que se subjugar a potências como a Inglaterra, séculos depois.
E que pena que tua série vai acabar, eu "redescobri" Portugal através dela, sem falar em tudo que aprendi sobre os Templários.

EXPRESSO said...

Obrigado Maria Augusta, a minhamais fiel leitora. Depois do Verão começo uma série sobre o Brasil.