12.12.12

A BÉLGICA EXISTE?

A Bélgica está na fronteira cultural entre a Europa germânica e a Europa latina. Um governo central; três parlamentos regionais; um rei simbólico; o holandês, o francês e o alemão como línguas oficiais; valões e flamengos, duas comunidades de costas uma para a outra; Bruxelas, uma capital francófona em território flamengo... Tudo isto em apenas 30 000 quilómetros quadrados (1/3 de Portugal). Júlio César chegou aqui em 50 a.C. Carlos Magno veio com naturalidade, no séc. IX. Depois, o neto Lotário I construíu uma fortaleza. Bruxelas começa a ter expressão. Vem Lamberto de Lovaina, mais tarde Ducado de Brabante, depois Casa de Valois. Em breve seria Países Baixos, juntamente com Holanda e Luxemburgo. Com Carlos V ficou espanhola. Luis XIV bombardeou a cidade. A Grand-Place ficou em cacos. A guerra dos 30 Anos não ajudou. Depois ainda vieram os Habsburgos austríacos, em 1744. A guerra entre a Aústria e a França revolucionária acabou com  a cedência do território à França. Napoleão perdeu os sonhos imperiais em Waterloo (território belga). Estamos em 1815, a Bélgica e a Holanda uniram-se no reino dos Países Baixos. A coisa não correu bem. A nomeação de um rei protestante, Guilherme I, gerou a revolta de 1830 e a independência do território belga. Depois vieram as Guerras Mundiais e a Bélgica ficou conhecida como "campo de batalha da Europa". Aqui se travaram as mais sangrentas batalhas, aqui morreram centenas de milhares de homens. Hoje, a União Europeia tem em Bruxelas a sua "capital de facto". Um factor de união num estado que não é uma nação. Num país que quer ser dois. Talvez por isso os "belgas" não sejam especialmente simpáticos, revelando complexos de arrogância, mal disfarçando a dificuldade em coexistir com esta nova invasão de europeus. No fundo, serão aldeões de uma grande cidade. Cosmopolitas à força, mantêm tiques de indisfarçável tacanhez. E, no entanto, a eles devemos os mexilhões com batatas fritas, os chocolates trufados, o Tim Tim e o Manneken Pis.



9 comments:

Luis Bento said...

Excelente texto! Nunca tinha visto a Bélgica desta perspectiva...agora percebo como é que eles conseguem governar-se sem governo...

Anonymous said...

Mas q história tão bem contadinha!
Mas q foto tão perfeita que até consegui ver que falta ali um bocado por cima dum arco...
A.R.E.

Li Ferreira Nhan said...

É, a Bélgica nos deu os melhores chocolates do mundo, o praline, a melhor cerveja, os tomates aux crevettes, as batatas fritas, os waffles, Tintim, Audrey Hepburn, Jan van Eyck, Antoon van Dyck, Magritte.
E os meus queridos primos também!

myra said...

sim, Li, e o Jacques Brel, e Bruges, mas quem sabe pqe os belgas nao me sao simpaticos...

Eduardo P.L said...

Fica comprovado que a Bélgica existe.

Maria de Fátima said...

delícia saber das "coisas" assim contado :)
e sabendo embora que a amostra é tudo numa análise, conheço um belga e sim, sim, sim assenta que nem luva :"Cosmopolitas à força, mantêm tiques de indisfarçável tacanhez."

Silvares said...

Viver no centro do "mundo" é complicadíssimo, como se pode constatar. Nós, portugueses, aqui atirados para a cauda da Europa(ou o nariz, depende da perspectiva)não sonhamos o que é ter vizinhos no rés-do-chão, no 2º andar e nos apartamentos ao lado. Para nós é só a espanholada, na quinta do outro lado do rio. Um sossego.

daga said...

Muito interessante toda esta história da Bélgica, complicada realmente!
não gosto muito deles... só do Tim Tim évidemment ;)

expressodalinha said...

Moi aussi.