22.11.13

OPERAÇÃO CAÇÃO - XVI


 


Vivaldo estava há cinco horas a ser interrogado. Eram dois. Aquele homem gordo que lhe tinha pedido o cartão de telemóvel no “KateKero” e outro homem com ar de pugilista que o ameaçava com o olhar. Vivaldo já tinha contado a história algumas trinta vezes. Encontrara o cartão nas tripas do cação. Agora queriam saber de onde vinha o cação, quem o tinha pescado, a que horas... Enfim, aquilo era surrealista! Acabaram por ir buscar o Viegas, o colega do mercado, que confirmou a história toda. “O Gordo” sabia, agora, que o cação fora comprado na lota, no dia 28, às seis horas da manhã, no dia seguinte ao atentado. O cação fora pescado nessa noite e estava fresquíssimo quando chegou à lota. Como o cartão ainda não tinha sido afectado pelos ácidos estomacais, isso significava que teria engolido o cartão talvez duas ou três horas antes. Na impossibilidade de interrogar o próprio cação, “o Gordo” dirigiu-se rapidamente à lota e, através dos registos de venda, conseguiu identificar a tripulação da traineira que que tinha capturado o cação. “Deus Me Valha” era um daqueles barcos pequenos e coloridos de pesca artesanal, com uma tripulação de três elementos e um cão. O mestre, Remualdo, lembrava-se perfeitamente do cação. Já vinham de volta da faina, eram umas quatro da manhã. A noite tinha sido fraca devido à nortada intensa. Perto da entrada, nos pontões de entrada para a Marina, viram uma grande sombra dentro de água. Atiraram isco e apareceu um cação esfaimado. Lançaram a rede e apanharam-no com facilidade. Era raro ver um bicho daqueles tão perto da costa, mas acontecia. Aquela é uma zona de peixe miúdo que surge ali em grande quantidade. O cação devia estar a caçar presas fáceis e acabou caçado. Ou seja, alguém deitara fora um cartão de telemóvel, numa zona de fácil acesso, pois há ali vários pontões. E, esse alguém, fê-lo entre as treze horas de dia 27 e as duas da manhã de dia 28. A investigação entrava agora noutra fase. O interrogatório de todos os habituais frequentadores das pequenas praias circundantes, dos surfistas, dos pescadores e dos empregados dos cafés de praia.

2 comments:

daga said...

espetáculo o nome do barco, os três elementos e o cão, a especificidade da pesca (investigação ou invenção?) e a trama vai-se esclarecendo para o inspetor...

Eduardo P.L. said...

Ótima saga ilustrada.