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5.2.14

OPERAÇÃO CAÇÃO - XXXX (FIM)

 
                                      

Valdemar tinha engendrado um plano simples. Durante a tarde compraria uma faca de ponta em mola no mercado ilegal. Comprar armas era a sua especialidade, não haveria de ter problemas. Depois do jantar dariam um passeio pela beira da água. Talvez com o pretexto de lhe contar umas confidências sobre o que ele tinha vindo fazer a Macau, Valdemar aproximar-se-ia e apunhalaria Moema. O corpo seria empurrado para o rio. Quando encontrassem o cadáver, se o encontrassem, já ele estaria no ar. O voo de regresso a São Paulo estava marcado para sete da manhã do dia seguinte. Moema, porém, previra tudo isto. Por trinta mil patacas tinha já comprado uma “baby gun” no Bairro da Areia Preta, ali perto das Portas do Cerco. A Baby Glock era uma arma que cabia na palma da mão e de uma eficácia espantosa. Escondia-se facilmente. Pesava pouco e era de manuseio muito simples. Moema desconfiava que ele iria tentar esfaqueá-la. Era o processo mais silencioso. Para isso precisava de se aproximar. Não o faria durante o jantar. Só poderia ser depois. Talvez a convidasse para um passeio à beira-rio. Durante o jantar falaram de banalidades. Coisas sem relevância. Provavelmente tudo mentiras. Enquanto Valdemar pagava a conta, Moema foi ao “toilette”. Mudou a pistola da pequena carteira para o bolso direito das calças. Cá fora fazia um calor húmido. Uma neblina intensa tornava a paisagem opaca. Valdemar conduziu Moema para longe da zona de restaurantes. Moema deixou-se conduzir. Valdemar foi-se aproximando. Moema agarrou a pistola dentro do bolso. Valdemar fez deslizar a lâmina da faca. Moema destravou a arma. Valdemar aproximou-se ainda mais. Moema estava totalmente alerta. Valdemar, praticamente encostado a Moema, segredou-lhe: “É pena, porque você faz o meu género”. Desferiu uma violenta punhalada direita ao coração, ao mesmo tempo que recebia o impacto de uma bala na cabeça. Os dois corpos caíram como fuzilados por um raio. Ficaram ali no chão, retorcidos, despojados de vida, admirados da morte. Foram encontrados pelas duas da manhã. As autoridades policiais de Macau, numa avaliação muito preliminar, atribuíram o caso a um desentendimento passional. Só depois de perceberem que o passaporte de Valdemar era falso e que Moema era da polícia brasileira, começaram a explorar outras pistas.
Em Lagos, “o Gordo” culpava-se da morte de Moema. Em Bruxelas, a acusação contra a “Irmandade Branca” sofria um importante revês. Em Marselha, um ex-etarra levantava uma encomenda clandestina no porto e seguia para um discreto abrigo na Camargue. Daí sairia para Espanha pela fronteira de Portbou. No dia 27 de Setembro estaria em Granada, em visita à Capela Real
FIM

4.2.14

OPERAÇÃO CAÇÃO - XXXIX


Moema estava com um problema. O pedido de ajuda que tinha feito às autoridades de Macau não tinha tido ainda resposta. E isso, naquelas paragens, significava que estava por conta própria. Talvez se tivesse precipitado. Um excesso de voluntarismo que já lhe tinha valido a alcunha de “Furacão”. Mesmo assim, Moema decidira avançar. Tinha jogado tudo na confrontação de Valdemar com uma série de meras suposições. Mas ela sabia que acertara em cheio. A expressão de Valdemar durante o pequeno-almoço dizia tudo. Ele sabia que ela sabia, mas não sabia exactamente o que ela sabia. O próximo passo seria dele. Moema esperava agora uma tentativa de assassinato. Era nisso que ela jogava. Uma jogada de risco. Esperava conseguir prender Valdemar no acto de a tentar assassinar. Assim, as autoridades de Macau não poderiam deixar de intervir. Não estranhou, por isso, que quando Valdemar chegou à mesa com os dois croissants com queijo, a sua fisionomia estivesse completamente recomposta. Menos estranhou que, minutos depois, a convidasse para jantar naquela noite.  O jantar foi no restaurante “Camões”, na Doca dos Pescadores, uma zona de bares e restaurantes no estuário do rio das Pérolas.
Fotografia de Roberto Barbosa
(Continua)

3.2.14

OPERAÇÃO CAÇÃO - XXXVIII


Eram seis da manhã quando a polícia de Bruxelas invadiu o apartamento de Michel. Ao mesmo tempo, os restantes líderes belgas da “Irmandade Branca” eram detidos nas suas casas. Jean-Baptiste Lefèvre era preso num hotel de Bordéus. A identificação do número de telefone de Michel, depois da mensagem de Macau recebida de Valdemar, mais as provas circunstanciais recolhidas pela equipa do inspector Joaquim Ribeiro, foram suficientes para lançar um mandado internacional. A “Irmandade Branca” há muito que era considerada perigosa e estava vigiada. No entanto, talvez por cumplicidades e simpatias dentro da polícia e da magistratura, sempre saía ilibada das acusações que lhe imputavam. Aliás, a ideia de uma “nova cruzada” contra a crescente influência islâmica na Europa, em especial na França, tinha cada vez mais adeptos. Mas, agora, a questão era mais séria. Um atentado. Mortos. Feridos. Destruição... Nem as simpatias políticas ou policiais mais poderosas os podiam salvar. Curiosamente, ao serem descobertas as intenções da “Irmandade”, todo este esforço para desacreditar o Islão acabava por funcionar completamente ao contrário. Lamentavelmente, os grupos de poder islâmicos sediados na Europa podiam comemorar. Paradoxalmente, a Al-Qaeda saía a ganhar sem ter mexido uma palha. Faltava, no entanto, uma prova concludente para acusar a “Irmandade Branca”. Ou a confissão dos arguidos, ou a ligação ao autor directo do atentado, ou a ligação à compra de explosivos. Com Melzek morto e não se acreditando na possibilidade de confissão dos arguidos, restava a ligação à compra dos explosivos. E essa ligação chamava-se Valdemar.
(Continua)

2.2.14

OPERAÇÃO CAÇÃO - XXXVII


Valdemar levantou-se tarde. Eram quase dez horas da manhã. Estava vagamente de ressaca, depois de uma noite de sexo e champanhe. O jet leg ainda lhe baralhava os fusos horários. Tropeçou até à sala de refeições. Numa mesa isolada a um canto da sala estava Moema, acabando o pequeno-almoço. Valdemar tinha a sensação de já a ter visto em qualquer lado. Teria vindo no avião? Seria actriz de cinema? Era uma mulheraça. Grande. Imponente. Vistosa. Valdemar adorava aquele ar decidido, quase militar. A boca expressiva. O cabelo arruivado. Peitos sólidos. Tudo na mulher era atraente. Valdemar sentia-se com sorte. Resolveu arriscar. Dirigiu-se à mesa dela e perguntou em inglês: “Posso-me sentar?”. Estranhou a resposta vir em português. E ainda mais estranhou o convite ser aceite com tanta prontidão: “Claro, dois conterrâneos devem confraternizar”, disse-lhe Moema. Ela era de São Paulo. Bióloga. Tinha vindo a Macau para uma conferência sobre a poluição nas grandes metrópoles. Ele inventou ser empresário e estar ali para fechar um negócio, o que não deixava de ser verdade. Moema fingiu acreditar e foi conduzindo a conversa para a geografia do Brasil. Confessou-lhe estar farta de São Paulo e estar a pensar estabelecer-se num sítio mais calmo. Como detestava o nordeste, estava a pensar ir para sul. Santa Catarina podia ser uma boa hipótese. Havia uma zona de que ela gostava particularmente, ali para os lados da Lagoa de Ibiraquera. A Praia do Rosa. A Praia da Barra. Garopaba... Nesta altura, Valdemar estava em estado de sítio. Ia acenando com a cabeça, mas tudo nele era tensão. Moema observava Valdemar e sabia que o tinha atingido. Ele estava alerta e desconfiado. Estava onde ela o queria. De repente, e a vida tem destes repentes, saiu-lhe quase sem querer: “Você conhecia um tal Octávio que foi assassinado em São Paulo no mês passado?”. Valdemar não queria acreditar. Balbuciou uma negativa e levantou-se para ir buscar mais dois croissants com queijo. Quem raio era aquela mulher? Começava a perceber que se metera na boca do lobo. Ela sabia tudo. Que ele mandara assassinar Octávio. Que vivia refugiado na Lagoa de Ibiraquera. Tinha-o seguido até Macau. O mais certo era saber do negócio dos explosivos. Era da polícia, com certeza absoluta. O que mais saberia ela? Sentiu-se vigiado e, pela primeira vez na vida, sentiu-se indefeso. Não tinha apoios em Macau. Não podia telefonar a Tsé-Lao e pedir-lhe ajuda. Era a confissão da sua incompetência. Tentou raciocinar. Tudo levava a crer que a mulher estava sozinha. Ela não podia ter qualquer apoio das autoridades de Macau. Tsé-Lao tinha as suas protecções no território. E as autoridades chinesas não eram conhecidas pela cooperação. Aquilo era China, que diabo! A mulher estava a “pescar” por conta própria. Só havia uma coisa a fazer.
Fotografia de Roberto Barbosa
(Continua)

28.1.14

OPERAÇÃO CAÇÃO - XXXVI


 Finalmente Idalécia saiu de coma. As suas memórias eram confusas. Tanto se via no alto da ravina, como a planar no ar. Sabia que tinha estado com alguém, mas não se lembrava de quem. Tinha muita sede e não sabia onde estava. Dois dias depois ainda não se lembrava como caíra. Ao terceiro dia o “Gordo” pode, finalmente falar com Idalécia. A muito custo conseguiu reconstituir parte daquela noite. Idalécia começava a lembrar-se de forma fragmentada. Que tinha acontecido a Melzek? Melzek estava morto por tiros de pistola. Ela lembrava-se vagamente de um corpo retorcido cair ao lado dela. Mas porque não tinha sido ela atingida por qualquer tiro? Teria sido arrastada por Melzek aquando da queda? Aquilo era estranho. Mesmo que não fosse ela o alvo, como é que o atirador podia garantir que ela não o tinha visto? Mas Idalécia não se lembrava de ver mais ninguém e muito menos uma pistola a disparar. “O Gordo” interrogou-a de todas as formas e feitios. Será que Melzek a tinha protegido dos disparos? Será que ela tinha caído depois e não se lembrava? Mas ela era peremptória: não se lembrava de ter visto outro homem e não viu ou ouviu quaisquer disparos. Mas, a verdade é que não se lembrava como tinha caído. Apenas que vira, depois, cair Melzek. “O Gordo” fez um raciocínio básico. Das duas uma: ou a moça mentia com quantos dentes tinha ou já estava lá em baixo, na ravina, quando Melzek fora atingido. Será que a queda de Idalécia nada tinha a ver com o assassinato de Melzek?
(Continua)

25.1.14

OPERAÇÃO CAÇÃO - XXXV


 
Moema não conseguira acompanhar Valdemar. Vira-o chegar ao lobby do hotel, eram umas sete da tarde. Vira-o ser abordado por dois chinas. Ainda tentou apanhar um táxi para o seguir, mas perdeu-lhe o rasto. Estranhou, por isso, quando ele voltou, duas horas depois, acompanhado de duas prostitutas em direcção ao bar. Viu-o mandar uma mensagem por telemóvel e pensou que aquela mensagem poderia ser a chave de tudo. As comunicações de Valdemar estavam sujeitas a intercepção, desde que Moema iniciara a vigilância lá em Imbituba. Por volta da meia-noite, enquanto Valdemar comemorava no quarto acompanhado das duas beldades chinesas, Moema recebia no seu portátil um e-mail do NTCT com a indicação da comunicação, do número e do local destino. Apressou-se a reenviar o e-mail para “o Gordo”, com uma nota de humor: “Joguei na sorte e a sorte jogou em mim”. Eram quinze horas em Lagos. “O Gordo” acabava de se alambazar com dúzia e meia de sardinhas assadas, bem regadas com uma garrafa de tinto alentejano, no restaurante “Barrigana”. Nem queria acreditar quando o iPhone apitou uma mensagem urgente. O cerco apertava-se. Bruxelas parecia ser onde todos os caminhos iam dar.
(Continua)

23.1.14

OPERAÇÃO CAÇÃO - XXXIV




Moema não conseguira acompanhar Valdemar. Vira-o chegar ao lobby do hotel, eram umas sete da tarde. Vira-o ser abordado por dois chinas. Ainda tentou apanhar um táxi para o seguir, mas perdeu-lhe o rasto. Estranhou, por isso, quando ele voltou, duas horas depois, acompanhado de duas prostitutas em direcção ao bar. Viu-o mandar uma mensagem por telemóvel e pensou que aquela mensagem poderia ser a chave de tudo. As comunicações de Valdemar estavam sujeitas a intercepção, desde que Moema iniciara a vigilância lá em Imbituba. Por volta da meia-noite, enquanto Valdemar comemorava no quarto acompanhado das duas beldades chinesas, Moema recebia no seu portátil um e-mail do NTCT com a indicação da comunicação, do número e do local destino. Apressou-se a reenviar o e-mail para “o Gordo”, com uma nota de humor: “Joguei na sorte e a sorte jogou em mim”. Eram quinze horas em Lagos. “O Gordo” acabava de se alambazar com dúzia e meia de sardinhas assadas, bem regadas com uma garrafa de tinto alentejano, no restaurante “Barrigana”. Nem queria acreditar quando o iPhone apitou uma mensagem urgente. O cerco apertava-se. Bruxelas parecia ser onde todos os caminhos iam dar.
Fotografia de Roberto Barbosa
(Continua)

22.1.14

OPERAÇÃO CAÇÃO - XXXIII

 Quinze minutos depois estavam no iate “Pérola do Oriente”, ancorado ao largo, a meio caminho entre Macau e Hong Kong. Tsé-Lao era um homem elegante. Gostava do modo de vida ocidental, mas preservava muito as hierarquias e tradições chinesas. Era um homem poderoso e cheio de si. Por ele passava todo o comércio ilegal de armas convencionais, explosivos e de armas bio-químicas provenientes das fábricas e laboratórios da República Popular da China. Cumprimentou Valdemar com um inclinar de cabeça e foi direito ao assunto, em tom desafiador: “Sempre negociámos com um homem chamado Octávio. Agora dizes que és tu o chefe. Que razão temos para acreditar em ti? E não nos achavas suficientemente dignos de falar directamente com o chefe?”. Valdemar limitou-se a dizer: “Fui eu que mandei executar Octávio. Se ele estivesse vivo, provavelmente a vossa organização estava em perigo. Ele estava em risco eminente de ser descoberto. Posso fazer de imediato a transferência bancária dos dois milhões de dólares para fechar o negócio, desde que me garantam a chegada da encomenda a Marselha nos próximos oito dias”. O dinheiro era sempre um bom argumento. Tsé-Lao mandou vir chá. O acordo ficou estabelecido. Valdemar fez a transferência através do iPad. O explosivo seguiria para Marselha no dia seguinte. Quando regressou ao Hotel Lisboa, Valdemar mandou uma mensagem para um número de Bruxelas. A mensagem era clara: “A festa pode continuar. Os foguetes vão a caminho”. 
Fotografia de Roberto Barbosa.
(Continua)

16.1.14

OPERAÇÃO CAÇÃO - XXXII

Em Macau, Valdemar instalara-se no Gran-Hotel Lisboa. Os casinos e o jogo dominavam a economia de Macau. Casinos que não fecham nunca. Um jogo que atrai mais de dois milhões de turistas por mês. Um bulício permanente. Cá fora, prostitutas aguardam clientes para comemorar a vitória ou para fazer esquecer a derrota. Ao fim da tarde Valdemar desceu do quarto e dirigiu-se ao iluminado lobby do hotel, esperando um contacto, conforme fora combinado. Sentiu uma mão nas costas e dois homens com cara de kung-fu disseram-lhe para os seguir. Cá fora, um carro levou-os a alta velocidade até ao Porto Interior. Uma lancha rápida aguardava. Quinze minutos depois estavam no iate “Pérola do Oriente”, ancorado ao largo, a meio caminho entre Macau e Hong Kong.
Fotografia de Roberto Barbosa
(Continua)

4.1.14

OPERAÇÃO CAÇÃO - XXX



Valdemar embarcou no aeroporto de Guarulhos, São Paulo. Viajava num avião da Air China, com escala em Frankfurt e Pequim. Chegaria a Macau quarenta e seis horas depois. Saiu a uma 3ª feira, chegaria na 5ª feira. Embarcou sozinho e apenas com uma pequena mala de mão. Combinara um encontro com Tsé-Lao, o homem que lhe fornecia os explosivos. Era importante esclarecer os equívocos que se geraram após a execução de Octávio. Era fundamental reganhar-lhe a confiança e reatar o contrato. Valdemar sentou-se num discreto lugar em classe económica. Não reparou que, quatro filas atrás, uma mulher de porte atlético e olhar penetrante não o perdia de vista. Moema decidira seguir Valdemar. Algo lhe dizia que aquele homem estava envolvido em negócios ilegais, muito ilegais. Seguiu o seu instinto.
(Continua)

3.1.14

OPERAÇÃO CAÇÃO - XXIX

Passearam de mãos dadas com o luar a bater-lhes no rosto. Chegaram a um promontório isolado. Melzek beijou Idalécia com intensidade. Beijou-a repetida e apaixonadamente. Idalécia deixou-se arrastar até à beira do precipício. Num movimento súbito, Melzek empurrou-a. Idalécia caiu. Ele viu-a cair em câmara lenta. Matava ali a sua esperança. A esperança numa vida diferente. Percebeu que não era um homem normal. Nunca poderia ser um homem normal. O passado perseguia-o. O futuro não existia. Viu-a cair sabendo que nunca mais teria paz. Matava-se a si próprio. Um ruído surdo e o corpo imóvel jazia no fundo da ravina. Melzek virou-se desesperado e recebeu duas balas no peito. Recuou surpreendido. Um homem vestido de preto, encostou-lhe o cano da pistola com silenciador à cabeça e disparou sem piedade. O corpo de Melzek caiu do penhasco e ficou ao lado de Idalécia. Idalécia ainda gemia quando viu o corpo do alemão estraçalhar-se ao seu lado. A “Irmandade Branca” não perdoava.
(Continua)

2.1.14

OPERAÇÃO CAÇÃO - XXVIII

Idalécia encontrou-se com Melzek no “Café do Mar”, em cima das arribas, a caminho da Praia do Pinhão. Tinham combinado beber um copo depois do jantar. Estava Lua cheia. Um luar romântico que se espelhava nas águas mansas da baía de Lagos. Idalécia, porém, não conseguia tirar da cabeça as dúvidas quanto a Melzek. Seria ele o bombista? A certa altura não resistiu e disse-lhe: “Sabes, parece que encontraram o cartão de telemóvel do bombista”. Melzek deu um salto. E disse-lhe, com calma aparente: “Ah sim? Uhm... e como sabes isso?”. “Foi o meu irmão que encontrou dentro de um peixe”, informou Idalécia. Melzek estava confuso. Peixe, cartão, irmão!... “Mas como sabem que é do bombista?”, indagou Melzek. “Foi o inspector que disse”, retorquiu Idalécia. Melzek deu três saltos e ficou calado. “Sabes, dizem que era um alemão”, continuou Idalécia em tom provocatório. Melzek teve um estremeção e percebeu que tinha de actuar imediatamente. Pagou a conta, com ar indiferente, e convidou Idalécia para uma volta pelas arribas.

30.12.13

OPERAÇÃO CAÇÃO - XXVII

Jean-Baptiste estava tudo menos descansado. E começou a pensar se não seria mais prudente ver-se livre daquele trio de belgas. Deu-lhes três dias para resolverem tudo. Agora estava preocupado com a reunião. No dia seguinte iria começar a pregar a “nova cruzada”. O Islão era o culpado de tudo. O Islão tinha de ser atacado nos seus redutos mais sensíveis, Meca e Medina. A Europa tinha de se defender atacando. A emigração do Magreb tinha de parar de imediato. Os muçulmanos residentes na Europa deviam ser todos, mas todos sem excepção, expulsos. O desemprego e a miséria das classes trabalhadoras europeias deviam-se exclusivamente ao poder islâmico tolerado por Estados fracos e políticos corruptos. A crise europeia era culpa dos muçulmanos. Os valores cristãos europeus tinham de ser restabelecidos... Jean-Baptiste tinha a certeza que este discurso, juntamente com os atentados que estavam projectados e cuja autoria seria sempre imputada a grupos islamitas, faria a opinião pública europeia pender para o seu lado. Esperava conquistar o eleitorado pelo medo e pelo desejo de vingança.
(Continua)

23.12.13

OPERAÇÃO CAÇÃO - XXVI

Michel fez o ponto de situação a Jean-Baptiste. “O atentado de Lagos correu muito bem. Atingimos todos os objectivos. O medo está lançado. Estamos, porém, com alguns problemas. Pensamos que Melzek não abandonou ainda Portugal, desobedecendo a todas as ordens que lhe demos. As nossas fontes internas da polícia dizem-nos que conseguiram apanhar o cartão de telemóvel que ele usou. Também parece que o explosivo para o próximo atentado a Granada ainda não saiu da China”. Jean-Baptiste, que se irritava com facilidade, quase ia agredindo Michel de raiva: “E dizes que correu bem. Olha se tivesse corrido mal. Porra! Merda! E que estás a fazer para resolver os assuntos?”. Michel encolheu-se um pouco, mas replicou em voz decidida: “Já temos um homem no terreno para liquidar Melzek. O cartão de telefone, mesmo que consigam recuperar os números, nunca nos vai identificar e sempre andam entretidos. Quanto ao atraso na entrega dos explosivos, o vendedor, o tal brasileiro, o Valdemar, garantiu-nos que serão entregues a tempo. Ele partiu para a China para resolver o assunto. Podes estar descansado”.
(Continua)

22.12.13

OPERAÇÃO CAÇÃO - XXV

Em Bruxelas era o grande dia. A reunião magna da “Irmandade Branca”. Vinha gente de Itália, da Alemanha, da Inglaterra. De toda a Europa. De França, vinha o líder carismático. Jean-Baptiste Lefèvre era um homem de discurso fácil e inflamado. A reunião era semiclandestina. Não podia ser formalmente autorizada, dada a ideologia neo-nazi da “Irmandade”, mas era abertamente tolerada pelas autoridades policiais. Tinha sido alugado um pavilhão desportivo nos arredores da cidade. Na véspera da reunião, o núcleo duro da “Irmandade Branca” tinha-se reunido na cave de um café da Grand-Place.
(Continua)

20.12.13

OPERAÇÃO CAÇÃO - XXIV

O pedido de ajuda era informal e pessoal. Mas Moema, rapidamente, assumiu a investigação como oficial. Resolveu considerar como verdadeiras todas as suposições e especulações do “Gordo”. E a ser assim, só havia uma ilacção a retirar: o alemão era o bombista; o francês o mandante; o brasileiro o vendedor do explosivo. Moema chegou a Imbituba no dia seguinte. Na delegacia local, um polícia velho e indolente insistia que ali era tudo boa gente. Acabou por lhe dar uma lista de moradores, avisando logo que muitos estrangeiros tinham vindo para ali nos últimos anos. Estrangeiros, para o polícia, eram os brasileiros de outros Estados do Brasil. Não os conhecia todos, mas desconfiava deles por definição. Deram uma volta de jipe pela região e duas ou três casas chamaram a atenção de Moema. Particularmente uma delas, pela impenetrabilidade, ficou na retina de Moema. A lancha rápida estacionada no porto, com dois motores de 500 cavalos cada, também chamou a atenção da inspectora. Com a ajuda dos serviços centrais em São Paulo, rapidamente soube que quer o imóvel, quer a lancha, estavam em nome de sociedades off-shore e cada um dos bens em sociedades diferentes. E isso contribuiu, ainda mais, para lhe aumentar as suspeitas. A casa e o barco passaram a ficar sob vigilância discreta. E foi essa vigilância que surpreendeu Moema. Um carro cinzento saiu da propriedade a grande velocidade. Moema apontou os binóculos e pode ainda distinguir o condutor, um mulato grande com aspecto de pugilista e, ao lado, uma figura inegavelmente conhecida: Valdemar. Aquela silhueta pequena e frágil, não mais lhe saíra da memória desde o interrogatório no caso Silvinha Arantes, a que ela assistira atrás do vidro. Ele acabara por ser libertado por falta de provas, mas ela nunca deixara de suspeitar dele. E, agora, ali estava ele. Estranho, muito estranho.
(Continua)

14.12.13

OPERAÇÃO CAÇÃO - XXIII

 
A investigação entrou num impasse. A “pista marroquina” não dava em nada. A identificação da origem do explosivo era lenta e de resultados duvidosos. No imediato, a pista do inspector Ribeiro acabava por ser o único ponto a explorar. A “Operação Cação”, como jocosamente lhe começaram a chamar, implicava acreditar numa hipótese perfeitamente mirífica. À falta de melhor, porém, a investigação avançou na análise das comunicações dos dois números de telemóvel que cruzaram comunicações. Curiosamente, o telemóvel de Bruxelas, tinha uma comunicação de voz efectuada para um telefone móvel brasileiro, feita para o Estado de Santa Catarina, mais concretamente para a zona de Imbituba. E foi aí que “o Gordo” teve um golpe de asa. Telefonou à sua colega Moema, inspectora da polícia em São Paulo. Tinham-se conhecido numa conferência internacional sobre “O Instinto na Investigação Criminal”. “O Gordo” ficara sempre com fraquinho por aquela mulher de porte atlético e ar decidido. Esta era uma boa oportunidade para voltarem a falar.

9.12.13

OPERAÇÃO CAÇÃO - XXII


Idalécia ficou a matutar naquilo, “Vais a ver que ainda é o teu alemão”. Quando se encontrou com Melzek naquela noite, ia apreensiva. Claro que aquilo era uma parvoíce, mas não conseguia deixar de pensar na conversa com o irmão. E se fosse ele? Melzek era um homem solitário. Ela sabia isso. Via-o todos os dias sozinho. Sempre enfiado em casa. Sempre na varanda a fumar os seus cigarros. E se fosse ele? E depois começou a lembrar-se. Ele pouco falava de si próprio. Fugia sempre às perguntas. Só falava do presente ou do futuro. Nada do passado. Nunca quis tirar uma fotografia com ela. Nem sequer deixava tirar-lhe uma foto só para recordação. Cada vez que ela tentava, fugia. Dizia que não era fotogénico. Ela já desistira, para evitar conflitos. Era um homem delicado, aparentemente calmo. Mas, ao fim de quase dez dias que andava com ele, era evidente que havia ali muita tensão acumulada. Depois, havia mais coisas estranhas. Não tinha telemóvel. E, no entanto, nos dias que antecederam a explosão, ela lembrava-se bem que ele falava ao telemóvel lá no alto da varanda em frente ao supermercado. Mais estranho, ainda. Não queria falar do atentado. Sempre que ela falava do atentado ele encolhia os ombros. Não comentava. Parecia querer fugir ao assunto. Ela sempre achara que era por alguma insensibilidade que lhe seria inata. Mas agora já não sabia. Idalécia estava confusa. Aquela frase da cunhada ecoava-lhe na cabeça.
(Continua)

6.12.13

OPERAÇÃO CAÇÃO - XXI


O empregado do café-restaurante “O Náufrago”, ali por cima do Cais da Solaria, lembrava-se de ter visto um homem loiro a passear pelo pontão, logo a seguir à explosão. Até achara estranho a calma dele depois da tragédia. Na altura comentara com o colega de serviço que se calhar o homem era surdo. Não, não se lembrava da cara. Só o viu ao longe. E não ligou muito. Era loiro, sim. Não era definitivamente marroquino. Inglês, alemão, dinamarquês, talvez. Tinha óculos escuros e ia a fumar. Nada de especial a salientar. Levava uma toalha de praia. Um turista absolutamente normal... “O Gordo” não encontrou mais ninguém que tivesse visto aquele homem, mas estava seguro que era ele o bombista. O seu instinto dizia-lhe que era ele. E uma coisa era certa: não era de origem magrebina. Tudo se concentrava agora na ligação aos números de telefone recuperados do cartão de telemóvel. Todas as mensagens e comunicações de voz foram trocadas com um mesmo número. E esse número era de Bruxelas.
(Continua)

3.12.13

OPERAÇÃO CAÇÃO - XX


 


Vivaldo fora, finalmente, libertado. Um carro da polícia levou-o até casa, com as desculpas do inspector. Eram sete da tarde. Toda a vizinhança viu. Até a mãe velhota veio à porta. Vivaldo, visivelmente irritado, rosnou algumas palavras incompreensíveis e enfiou-se no quarto. Ao jantar mal abriu a boca. Só ao fim do terceiro copo de tinto começou a descontrair. “O inspector deve ser parvo. Querem lá ver. Se calhar a culpa é minha. Olha que esta!”. Vivaldo desabafava. À medida que bebia ia relatando o interrogatório. “Acham que quem deitou aquilo ao mar foi o bombista. E agora, que descodificaram tudo, já sabem os números para que ele ligou e as mensagens todas. Deviam era agradecer-me por ter comprado o cação”. Idalécia, sentada na ponta da mesa, perguntou-lhe: “Mas, afinal quem era o homem?”. “Sei lá, mana. Parece que escreve com erros. Um dos agentes disse que devia ser alemão”, respondeu Vivaldo. Laura, a mulher de Vivaldo, virou-se para a cunhada e disse-lhe na brincadeira: “Olha, moça, vais a ver que ainda é o teu alemão!”.