23.9.09

SEXO NO CONVENTO


A vocação não era a principal razão para as mulheres irem para freiras. As visitas aos conventos faziam parte da etiqueta social da nobreza. Era de bom tom um nobre "ter" a "sua" freira, com discrição mas com muita intenção. Era chique trocar correspondência. Fazer visitas. Trocar prendas, talvez poemas por doces conventuais. No Convento de Odivelas ainda hoje são famosas a marmelada de Odivelas e o pudim da Madre Paula. Com tanta marmelada, rapidamente as celas viravam alcovas. O Convento de Odivelas, hoje perdido num mar de casas sub-urbanas da região de Lisboa, ficava outrora "fora de portas". Local de quintas e saloios, era lá que D. Dinis (1261-1325) buscava carne fresca e benzida com o beneplácito da esposa, a Rainha Santa Isabel, que na angústia de ter de enfretar o real marzápio, recomendava ao rei "Ide vê-las, ide vê-las", referindo-se às freiras de Odivelas. Dizem que o nome veio dessa santa frase. Não sabemos. O que sabemos é que a tradição se manteve.

D. João V (1689-1750), o rei Magnanímo, era um freirático incorrigível. A sua obsessão pelo sexo levou-o ao uso e abuso de afrodisíacos, designadamente de cantáridas, que lhe abalaram a saúde e apressaram a morte. Era para Odivelas que ele corria a lançar-se nos braços de Madre Paula. Dela teve três filhos: D. António, D. Gaspar e D. José, conhecidos pelos "Meninos de Palhavã", do nome do palácio onde moraram, hoje Embaixada de Espanha. Madre Paula sobreviveu 35 anos à morte do amante, sempre tratada com toda a consideração. O Convento de Odivelas foi, posteriormente, transformado em colégio para as filhas dos oficiais das Forças Armadas. A marmelada manteve-se. É branca e pura e só elas sabem porquê.

8 comments:

Anonymous said...

Porque são puras :)

Anonymous said...

A Ellen tem razão!

Francisco Castelo Branco said...

grande filme :)))

Jorge Pinheiro said...

Francisco: podes crer. Isto filmado pelo Manuel de Oliveira eram 5 horas de orgasmo.
Ellen: posso garantir que sim. Tenho cá uma em casa.
Sandra: foi um prazer. Amigos são para todas as ocasiões.

Selena Sartorelo said...

Olá Jorge,

Entender as convenções de épocas tão especiais Com toda essa sutil e delicado olhar,apenas um ou outro é capaz. Arrancar com tanto cuidado receitas seculares, doação humanitária por hábitos sagrados e que até hoje estão em tantas leitos..ops!! desculpe..em nossas mesas..e para o nosso deleite, só por um ser sem apego algum pode ser feito.
Relembrar costumes tão nobres, gestos tão puros e abençoados. Amém!
Para fazer isso, precisa mesmo ser muito especial esse alguém.

Histórias reais com toques pessoais.
Excelente texto.

beijos,

EXPRESSO said...

Selena: de facto estão nas mesas e nos leitos.

Lina Faria said...

Jorge, isso me lembra da Soror Mariana de Alcoforado, e suas cartas de amor. Um convento é, com certeza, um barril de polvoras hormonais. Céus!

Jorge Pinheiro said...

As "Cartas Portuguesas" escritas ao futuro marechal de França. Lina, hoje em dia põe-se em causa a autoria. Mas isso é ao menos. Elas retratam exactamente este ambiente.