A vocação não era a principal razão para as mulheres irem para freiras. As visitas aos conventos faziam parte da etiqueta social da nobreza. Era de bom tom um nobre "ter" a "sua" freira, com discrição mas com muita intenção. Era chique trocar correspondência. Fazer visitas. Trocar prendas, talvez poemas por doces conventuais. No Convento de Odivelas ainda hoje são famosas a marmelada de Odivelas e o pudim da Madre Paula. Com tanta marmelada, rapidamente as celas viravam alcovas. O Convento de Odivelas, hoje perdido num mar de casas sub-urbanas da região de Lisboa, ficava outrora "fora de portas". Local de quintas e saloios, era lá que D. Dinis (1261-1325) buscava carne fresca e benzida com o beneplácito da esposa, a Rainha Santa Isabel, que na angústia de ter de enfretar o real marzápio, recomendava ao rei "Ide vê-las, ide vê-las", referindo-se às freiras de Odivelas. Dizem que o nome veio dessa santa frase. Não sabemos. O que sabemos é que a tradição se manteve.
D. João V (1689-1750), o rei Magnanímo, era um freirático incorrigível. A sua obsessão pelo sexo levou-o ao uso e abuso de afrodisíacos, designadamente de cantáridas, que lhe abalaram a saúde e apressaram a morte. Era para Odivelas que ele corria a lançar-se nos braços de Madre Paula. Dela teve três filhos: D. António, D. Gaspar e D. José, conhecidos pelos "Meninos de Palhavã", do nome do palácio onde moraram, hoje Embaixada de Espanha. Madre Paula sobreviveu 35 anos à morte do amante, sempre tratada com toda a consideração. O Convento de Odivelas foi, posteriormente, transformado em colégio para as filhas dos oficiais das Forças Armadas. A marmelada manteve-se. É branca e pura e só elas sabem porquê.
8 comments:
Porque são puras :)
A Ellen tem razão!
grande filme :)))
Francisco: podes crer. Isto filmado pelo Manuel de Oliveira eram 5 horas de orgasmo.
Ellen: posso garantir que sim. Tenho cá uma em casa.
Sandra: foi um prazer. Amigos são para todas as ocasiões.
Olá Jorge,
Entender as convenções de épocas tão especiais Com toda essa sutil e delicado olhar,apenas um ou outro é capaz. Arrancar com tanto cuidado receitas seculares, doação humanitária por hábitos sagrados e que até hoje estão em tantas leitos..ops!! desculpe..em nossas mesas..e para o nosso deleite, só por um ser sem apego algum pode ser feito.
Relembrar costumes tão nobres, gestos tão puros e abençoados. Amém!
Para fazer isso, precisa mesmo ser muito especial esse alguém.
Histórias reais com toques pessoais.
Excelente texto.
beijos,
Selena: de facto estão nas mesas e nos leitos.
Jorge, isso me lembra da Soror Mariana de Alcoforado, e suas cartas de amor. Um convento é, com certeza, um barril de polvoras hormonais. Céus!
As "Cartas Portuguesas" escritas ao futuro marechal de França. Lina, hoje em dia põe-se em causa a autoria. Mas isso é ao menos. Elas retratam exactamente este ambiente.
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