14.12.10

MYRA LANDAU - XXXIII

Em 1979 conhece Maria Luísa Puga que Myra considera a melhor escritora mexicana da nova geração. Faz com ela uma amizade artística e pessoal. É dela que recebe um apontamento designado “Do Movimento”. São de Maria Luísa as palavras que, provavelmente, descrevem melhor a pintura de Myra e a ligação intrínseca com a sua própria personalidade: “Conhecendo Myra Landau nada diria que ela produz o efeito de uma praia Uma praia que com o seu ir e vir monótono e permanente chega a acalmar, a levar-nos uma atenção imperiosa pela envolvente. Nada o diria, porque dizê-lo não só parece um lugar-comum, como porque à primeira vista ela não o quereria impor. De facto, nela tudo é ruído; linhas desordenadas; cores; palavras que brotam desenfreadamente… Myra ao contar não conta. E ao fazê-lo vai-se infiltrando na consciência de quem a escuta. Um movimento iniludível, hipnotizante que quando está quase a tornar-se cansativo, se transforma em ritmo, coerência, quietude. Algo muito parecido com a paz. A princípio negava-me a olhá-la de frente. Colocava-me obliquamente. Fazia o mesmo com a sua pintura. Espiava com o canto do olho para evitar a vertigem. A sua ousada utilização das cores, do ritmo, do movimento, correspondia a uma impudica utilização do tempo: um tempo que se tornava frontal e desconcertante. Parecia-me excessivo e, no entanto, não deixava de observá-la. Ouvi-la falar do Brasil, com pinceladas rápidas e aparentemente desordenadas; ouvir falar Myra de Myra e lentamente aperceber a sua ausência na busca de efeitos narrativos. Aceitar imperceptivelmente a unidade total na sua forma de entrega; um deixar fluir a própria força sem chegar a dar-se conta da sua naturalidade e frescura. Um dia vi-me diante dela. Entendi, porventura, a energia do ritmo. Entendi, talvez, uma forma de viver. Uma maneira de ser. E perante a coerência, o controle, a direcção e a liberdade, senti-me em paz. A inocência de Myra é a de alguém vai avançando, partindo sempre de um mesmo ponto: é ela que vai em busca do outro. Que deseja ir sem hesitações. Que avança e recua só para voltar com mais firmeza. Nada diria ao vê-la que tem a mesma calma profunda de uma praia”.
Na imagem, a escritora Maria Luísa Puga.
(continua)

2 comments:

jugioli said...

Que beleza de relato!!!
esses amigos espelhos de nós mesmos são sempre bem-vindos!!!

bjs

Li Ferreira Nhan said...

Ju,
vc disse tudo!
bjs