22.2.11

IRACEMA - LENDA DO CEARÁ

Muitos coqueiros e areia. Papagaios e araras. Sapos aos berros. Serpentes quanto baste. Iracema entra em cena. Lábios de mel. As vergonhas à vista. Boa como o milho. Iracema era Tabajara. Martim era português. Estava ali não sei porquê. Ficara amigo dos Potyguaras. Um branco perdido em nenhures. Os Potyguaras eram inimigos dos Tabajaras. E estes inimigos daqueles. Durante uma caçada, Martim perdeu-se dos companheiros Potyguaras. Caminhou durante três dias. Entrou pela mata dos Tabajaras. De repente, Iracema, surge. Assustada disparou o arco. Feriu Martim. Ele não reagiu, pasmado com a beleza dela. Iracema logo se arrependeu. Martim cheirava mal, mas tinha um ar caprichado. Boa perna. Nalgas salientes... Mais que ardor, Martim sentiu a loucura da paixão. Depois de três dias sem comer, Martim comia qualquer coisa. Iracema, arrependida e tremosa, quebrou a flecha. Ofereceu hospitalidade, na oca do pai Araquém, cujo também era pagé. Martim tinha tudo. Tudo menos Iracema. Ela estava sempre atarefada a preparar a poção mágica do pai, o tal que também era pajé. Aparece também Caubi, irmão de Iracema, umas vezes contra, outras a favor de Martim, perturbado por questões freudianas. Naquela noite, os Tabajaros, amigos de Martim, inimigos dos Potyguaras, receberam o grande chefe Irapuã, vindo expressamente para comandar a luta. Martim era branco, mas não era parvo. Apercebendo-se do conflito iminente, fugiu para a mata. Iracema estava lá. Iracema estava sempre na mata, excepto quando não estava lá. Imóvel. Muito séria, perguntou a Martim: "Alguém te fez mal?". Martim balbuciou desculpas esfarrapadas e deixou-se arrastar de volta. No dia seguinte voltam à mata. Sempre a maldita mata... Sem mais, Iracema prepara um poção e dá-lhe umas gotas. Martim alucina e sonha que beija Iracema. Esta não sonha e abraça o português com demasiada profundidade. Do fundo da mesma mata (que começa a ser uma uma auto-estrada) aparece, de supetão, Itapuã (o tal chefe dos Tabajaras que eram amigos de Martim e inimigos dos Potyguaras). Ele era apaixonado de Iracema. Ameaça matar Martim. Este drogado e aparvalhado não reage. Foi a sorte dele. Iracema consegue afugentar Itapuã, como não sabemos, nem interessa para nada. Itapuã sai de cena cada vez mais apaixonado, gritando "que isto não fica assim". Iracema e Martim percebem que têm uma relação difícil. Toda a gente está contra eles: os portugueses; os pajés; os Potyguaras; os Tabajaros; os Itapuãs... Fogem, levando o "segredo de jurema", um poderoso psicotrópico que faz voar os pajés. Talvez esperassem vender bem em Fortaleza. A verdade é ficam pelo litoral a ver passar os coqueiros, felizes e apaixonados. Mas, os portugueses são inconstantes. Martim começa a ausentar-se. Desinteressa-se de sexo. Vai até à venda. Agora é o futebol. Um jogo de cartas. Uma corrida de buggys. Começa a beber... Um dia saiu para comprar cigarros e não mais voltou. Um desgosto profundo se apodera de Iracema. Acresce que tem um filho, Moacir. Martim, arrependido, chega no dia do nascimento, com uma pontulidade invejável. Mas, Iracema morre. É enterrada por Martim e pelo irmão Caubi, ao pé de um coqueiro, à beira de um rio. Este local é chamado Ceará. Martim volta anos depois, carregado de padres e cruzes salvadoras. A redenção do seu pecado inicia a colonização e acaba com a narrativa.
Nota: Alguns acreditam que começou aqui a telenovela brasileira. Estamos em condições de garantir que esta estucha ameríndia foi inventada por José de Alencar ainda antes da televisão. É o mito fundador do Ceará e da cultura mixigenada. Chico Buarque actualiza a lenda com "Iracema Voou", canção de 1998, em que Iracema é apresentada como uma emigrante que vai para a América.

10 comments:

Lis said...

"Iracema" Quem ainda nao leu ,por aqui ?
um romance que faz parte do nosso currículo escolar.
A índia representando a pureza e o colonicador a redenção como voce sugere rs
Bom Jorge .
gosto do seu estilo do contar histórias.
abraços

Mylla Galvão said...

Taí...

Um jeito novo de ler Iracema que nunca havia visto!

Gosto de suas histórias Jorge!

Abraço

peri s.c. said...

Ó-t-i-m-o texto !


" Iracema a virgem dos lábios de mel " deve fazer parte do inconsciente coletivo erótico brasileiro .
Não necessariamente a Iracema, mas a virgem dos lábios de mel.
Senhores psicoanalistas , manifestem-se, por favor.

Li said...

A do rei!
Excelente narrativa Jorge.

Eduardo P.L said...

Mitos tropicais! Todo europeu" DELIRA" nos tórridos trópicos!

expressodalinha said...

Ainda bem que dão isto na escola. Nós é a Padeira de Aljubarrota!

João Menéres said...

O JORGE revela-se para uma nova plateia !

Está a ver como o seu estlo é admirado ?
Quem começa a ler não consegue deter-se.

expressodalinha said...

Antes assim. Obrigado João.

Mena G said...

Vendo bem, foi pela tua forma de escrever que nos conhecemos. Continuas a surpreender-me!Julgo que não posso fazer maior elogio ao que acabei de ler.

expressodalinha said...

Fico sem palavras. Obrigado Mena.