12.4.12

25 DE ABRIL - II


Foi com os generais que tudo começou. Costa Gomes, em Angola. Kaúlza de Arriaga, em Moçambique. Spínola, na Guiné. Em 1970, Marcelo Caetano conferiu-lhes poderes que até aí nenhum comandante militar tinha tido. Salazar tinha reduzido a guerra a uma rotina barata, que se arrastava sem consequências de maior. Caetano precisava de obter resultados. Precisava de uma posição de força na frente militar para poder implementar as reformas de reconversão do regime. Para isso deu maiores poderes aos comandantes militares, na expectativa que a guerra se resolvesse. Um erro crasso. A rivalidade entre os três generais vinha de longe. As suas ambições políticas focavam-se nas eleições de Julho de 1972. Marcelo Caetano, porém, acabou por apoiar a reeleição de Américo Tomás. Caetano não quis arriscar equilíbrios entre os duros do regime e, porventura, desconfiava já dos “senhores da guerra”. As ambições e rivalidades dos generais transformaram a guerra de uma rotina relativamente consensual, numa matéria polémica, objecto de crescente guerrilha política e de sucessivas conspirações. Mas, como nenhum dos três generais reunia consenso na hierarquia militar para tomar o poder por dentro, acabaram por dar cobertura a movimentos de contestação entre as patentes mais baixas, visando aumentar a pressão sobre o governo.
In "Há Biscoitos no Armário"

8 comments:

Silvares said...

Eu era muito jovem em 1974. A recordação que tenho da guerra é dos que partiam lá da aldeia. Eram soldados rasos, não havia generais. Para eles a guerra era uma aflição do caraças, uma rotina aterradora. De vez em quando chegavam cartas a transbordar saudade, perfumadas com medo. No Natal amontoavamo-nos defronte à televisão tentando ver algum dos nossos a enviar uma mensagem. Alguns morreram, a maior parte regressou. Na Páscoa encontro alguns mas raramente falamos dessa época.

Eduardo P.L said...

Eu li "Há Biscoitos no Armário"

Li Ferreira Nhan said...

As cartas...
Quando da época da independência elas foram escassas.
A primeira mudança notada foi o selo.

Recebíamos com receio as notícias dos parentes vindas das praias do Lobito.

Tempos difíceis.

expressodalinha said...

Rui: era uma cena muito complicada. As pessoas que não passaram por isso não conseguem avalira.

expressodalinha said...

Li: Lobito? Família?

Li Ferreira Nhan said...

Sim.

Silvares said...

Chorava-se muito e havia um desespero impotente. O Povo sempre sofreu em nome dos seus "chefes". Dantes não se questionava a supremacia "deles" mas agora...

expressodalinha said...

Agora vale tudo,votamos e agrdimos. Queremos e não queremos. Sintomatimente neo-democrático.