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18.4.12

25 DE ABRIL - VIII (FIM)

Tudo estava preparado para que as eleições de Abril de 1975 fossem a ratificação popular do PREC. Só que o povo votou. Ao fim de 40 anos, finalmente, o povo podia votar em liberdade. O recenseamento foi obrigatório. Foram recenseados 6 milhões de eleitores, contra os 1,8 milhões de 1973. A participação dos eleitores foi maciça: 91,7% dos eleitores votaram. E a votação foi surpreendente. O PS elegeu 116 deputados; o PSD, 81 deputados; o Partido Comunista, apenas 30. A 19 de Julho, quase 100 mil pessoas estiveram com Mário Soares na Alameda Afonso Henriques. Depois das urnas, o PCP começava a perder nas ruas. O povo não queria o comunismo. Ninguém queria o comunismo, excepto os comunistas. E nem todos os que se diziam comunistas o eram. Sucediam-se boatos desencontrados. Manifestações diárias. Comícios transmitidos em directo pela televisão. Os SUV (Soldados Unidos Vencerão) cercavam a Assembleia Constituinte. O Governo foge para o Porto. Tentativas de tomadas de quartéis pela força. O COPCOM e a arrogância tresloucada de Otelo Saraiva de Carvalho. Uma instabilidade que redundava em caos social e numa acentuada deterioração da economia. A esquerda foi-se desgastando, cada vez mais circunscrita aos quadros e simpatizantes dos partidos. A 10 de Dezembro, o Major Ramalho Eanes, novo chefe de Estado-Maior, suspende todos órgãos e assembleias do MFA. O povo venceu o comunismo e deixou como horizonte a democracia pluralista e a integração europeia. A 2 de Abril de 1976 Portugal passa a ter uma Constituição pluripartidária. A 12 de Junho de 1985, Portugal adere à CEE.

25 DE ABRIL - FOTOS





17.4.12

25 DE ABRIL - VII

Em Setembro Spínola convenceu-se que o povo era basicamente conservador. Convocou uma manifestação. Queria ser aclamado Presidente pela multidão. O MFA impediu. Os reaccionários são presos. Spínola demite-se. Costa Gomes sucede-lhe. A revolução dá um “salto em frente”. O 25 de Abril foi reescrito, para consolidar a “aliança Povo-MFA”. A revolução passaria ser uma “revolução de capitães”, logo uma “revolução popular”. A confusão política era total. O MFA liderava, divido em múltiplos órgãos, formais e informais. Ao mesmo tempo surgiram cerca de 50 partidos. O processo de democratização transformou-se em processo revolucionário, acompanhado da tentativa de tomada de poder antes das eleições para a Assembleia Constituinte, marcadas para Abril de 1975. Spínola, sempre ele, resolve, de novo intervir. É o “11 de Março”. Uma tentativa de golpe militar a partir de Tancos. Os militares golpistas e os militares revolucionários acabam a parlamentar no meio da rua, em directo para a televisão. Concluem estarem todos a ser enganados pelos respectivos chefes. A revolução deu novo “salto em frente”. Surge o PREC (Processo Revolucionário Em Curso). Nesse “Verão Quente” de 1975, Portugal esteve à beira do comunismo. Foram nacionalizadas 244 empresas. Todos os bancos. As seguradoras. Empresas de transportes, de energia, de cimentos, de celulose. A “reforma agrária” estabeleceu a “Zona de Intervenção”. Foram ocupadas 3111 herdades, equivalentes a 19% da área cultivada nacional. Muita gente fugiu para Espanha e Brasil.

16.4.12

25 DE ABRIL - VI

 Os tanques tinham um ar gigantesco nas ruas da Baixa de Lisboa. Ninguém percebia bem o que se passava. “O que queriam eles?”. Retrospectivamente falou-se da “revolução popular”. Mas, no dia 25 de Abril não foi o povo que determinou os acontecimentos, mas o fracasso do regime. No primeiro momento Spínola apareceu ao leme. Presidente de uma Junta de Salvação Nacional, feita exclusivamente de militares. Acabara o Estado Novo. Liberdade. Partidos políticos. Mário Soares. Álvaro Cunhal. Sá Carneiro. Mas, a verdade é que os generais comandavam. Logo em Maio de 1974, 42 dos 85 oficiais-generais passam à reserva. A hierarquia militar fica na mão de Spínola. Em breve seria ultrapassado pelos acontecimentos. Greves, manifestações, agitação permanente. A extrema-esquerda toma conta das ruas. Golpes. Contra-golpes. Tentativas “bonapartistas”. Spínola perde terreno. O Movimento das Forças Armadas ressurge pela mão de Vasco Gonçalves e Melo Antunes. A necessidade de acabar com a guerra de África é uma prioridade. A descolonização foi uma trapalhada. Uma entrega. Uma demissão. Ausência de estratégia. Falta de comando político. Ninguém sabia o que queria. Todos queriam voltar a página. As colónias foram entregues ao desbarato. Os Movimentos de Libertação tomaram posse dos territórios. Com excepção de Cabo Verde, não houve eleições. A debandada dos colonos começou de imediato. No Verão de 1975 montou-se a maior operação de evacuação da História. Meio milhão de portugueses residentes no Ultramar, regressou a Portugal. Muitos “retornados” vieram em situação precária. Verdadeiros refugiados dentro do seu próprio país. A sua integração, porém, correu melhor do que o previsto. Das colónias restou Macau, que a China não quis receber imediatamente, e Timor, entretanto ocupada pela Indonésia. Uma causa diplomática que só se resolveria em 2002, com a independência.

14.4.12

25 DE ABRIL - V

O golpe do 25 de Abril de 1974 foi planeado como uma pura operação militar, sem ramificações civis e diplomáticas. Em Lisboa as tropas ocupariam a rádio, a televisão, o aeroporto, o quartel-general, os ministérios do Terreiro do Paço. No Norte seria ocupado o Quartel-General da Região Militar do Porto. Os generais não seguiriam à frente. Optou-se por um “movimento das Forças Armadas”. Os generais seriam chamados no final, como De Gaulle na França, em 1958. Ainda hoje se especula como teve êxito um plano tão básico. Como foi possível que triunfasse sem violência. A verdade é que 80% dos efectivos militares estavam no Ultramar. A verdade é que a marinha e a aviação não intervieram. Os efectivos disponíveis eram, na sua maioria, instruendos, aguardando partida para a guerra de África. Tropas sem experiência e que não estavam destinadas à defesa do governo. O regime estava num impasse. Um impasse que se arrastava penosamente. Uma situação apodrecida, em que já ninguém acreditava. Ninguém quis combater do lado do governo. Ninguém se quis comprometer com um regime em crise. O regime estava à espera de um general salvador. O protagonismo de Spínola cresceu, até ser nomeado Presidente da República. Sem ele o golpe não teria sido possível. Mas Spínola era apenas um militar. Um militar conservador. Um militar que não estava preparado para uma revolução. Spínola só queria tomar o poder. Um golpista. A revolução apanhou-o desprevenido.
In "Há Biscoitos no Armário"

13.4.12

25 DE ABRIL - IV

O “movimento” assentava numa relação de camaradagem e no zelo corporativo das Forças Armadas. Foi eleita uma “Comissão Coordenadora”. Mas não havia propriamente um projecto político, nem sequer unanimidade quanto a um golpe militar. Essa indefinição determinou a manipulação pelos três generais. Caetano ficou refém da situação, ora dando um passo em frente, ora dois atrás. A 22 de Fevereiro, Spínola publica o seu “Portugal e o Futuro”. Ficou claro para todos o que era uma evidência: o Ultramar não se ganharia pelas armas. A 14 de Março, Caetano convoca todos os generais para uma manifestação de fidelidade. Spínola e Costa Gomes não comparecem. Não resta a Caetano outra hipótese senão demiti-los. Foi uma jogada falhada. Caetano subiu a parada e perdeu. Ficou isolado. Logo no dia seguinte há um pronunciamento militar a partir do Regimento de Infantaria das Caldas da Rainha. Rendem-se à entrada em Lisboa. Seria um ensaio? Seria para despistar? Só os oficiais sediciosos são presos. Os restantes membros do “movimento” continuam a conspirar. O petróleo sobe a níveis nunca imaginados. Os USA abandonam o Vietname. A administração estava tolhida pelo escândalo “Watergate”. Os ecos do “Maio de 68” fazem-se ouvir de novo. Caetano autoriza contactos com a guerrilha africana. O descrédito e o desânimo invadiam os membros do governo e o aparelho de Estado. Os generais continuam a conspirar… cada um para seu lado.

25 DE ABRIL - III

O descontentamento nas Forças Armadas era generalizado. A guerra proporcionara promoções rápidas e melhorias de vencimento. Mas a inflação tudo devorava. Em 1973 o poder de compra dos oficiais era 45% do de 1960. Em 1966, tinha havido 559 concorrentes para 265 vagas na Academia Militar. Em 1972, houve 155 concorrentes para 495 vagas. No quadro permanente havia metade dos oficiais necessários, sujeitos a sucessivas missões no Ultramar, no limiar da exaustão psicológica. Em 1973, um decreto proporcionou aos oficiais milicianos, vindos da mobilização geral, acesso ao quadro permanente. Os capitães e majores indignaram-se. Começaram os protestos e as reuniões mais ou menos secretas. O “movimento” alastrou, com forte quebra de disciplina e sem que as chefias militares tivessem vontade de o contrariar.

12.4.12

25 DE ABRIL - II


Foi com os generais que tudo começou. Costa Gomes, em Angola. Kaúlza de Arriaga, em Moçambique. Spínola, na Guiné. Em 1970, Marcelo Caetano conferiu-lhes poderes que até aí nenhum comandante militar tinha tido. Salazar tinha reduzido a guerra a uma rotina barata, que se arrastava sem consequências de maior. Caetano precisava de obter resultados. Precisava de uma posição de força na frente militar para poder implementar as reformas de reconversão do regime. Para isso deu maiores poderes aos comandantes militares, na expectativa que a guerra se resolvesse. Um erro crasso. A rivalidade entre os três generais vinha de longe. As suas ambições políticas focavam-se nas eleições de Julho de 1972. Marcelo Caetano, porém, acabou por apoiar a reeleição de Américo Tomás. Caetano não quis arriscar equilíbrios entre os duros do regime e, porventura, desconfiava já dos “senhores da guerra”. As ambições e rivalidades dos generais transformaram a guerra de uma rotina relativamente consensual, numa matéria polémica, objecto de crescente guerrilha política e de sucessivas conspirações. Mas, como nenhum dos três generais reunia consenso na hierarquia militar para tomar o poder por dentro, acabaram por dar cobertura a movimentos de contestação entre as patentes mais baixas, visando aumentar a pressão sobre o governo.
In "Há Biscoitos no Armário"

11.4.12

25 DE ABRIL - I


O 25 de Abril foi uma verdadeira revolução. Não houve transição negociada, como na Grécia ou na Espanha. O 25 de Abril iniciou dois anos de profunda agitação. Dois presidentes da República e seis governos provisórios. Em apenas um dia caiu um regime que durava há mais de 40 anos. A Guerra de África esteve no centro do vulcão. Foi ela que desencadeou a revolução, num ambiente internacional marcado pelo “declínio” do Ocidente, atingido por uma forte inflação e pela retracção do poder americano.
In "Há Biscoitos no Armário".

27.2.12

HISTÓRIA DE MACAU - XXIV (FIM)

Em Macau não houve Guerra Colonial. Com o regime democrático instaurado em Portugal pela Revolução dos Cravos, em 1974, Portugal iniciou conversações com os movimentos de libertação das colónias portuguesas. Essas negociações conduziram ao Acordo do Alvor. Nasciam assim, em 1975, os novos países africanos de língua oficial portuguesa (PALOP): Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. A China rejeitou a transferência imediata da soberania de Macau, tendo apelado para o estabelecimento de negociações que permitissem uma transferência harmoniosa. Com o decorrer das negociações, o estatuto de Macau redefiniu-se para território chinês sob administração portuguesa e a transferência de soberania de Macau para a República Popular da China foi agendada para a data de 20 de Dezembro de 1999, através da Declaração Conjunta Sino-Portuguesa sobre a Questão de Macau. Este documento bilateral e internacional, assinado no dia 13 de Abril de 1987, estabelecia ainda uma série de compromissos e garantias feitas entre Portugal e a China que permitiam a Macau um considerável grau de autonomia e a conservação das suas especificidades, incluindo o seu modo de vida e o seu sistema económico de carácter capitalista, até 2049. Hoje, Macau é uma Região Administrativa Especial da China. Um dia hei-de lá ir...

20.2.12

HISTÓRIA DE MACAU - XXIII

Finalmente, a 29 de Janeiro de 1967, o Governo de Macau e as autoridades da República Popular da China, chegaram a um acordo, assinado na sede da Associação Comercial. Tudo foi humilhante naquele acordo. O local, o conteúdo, a forma. O Governo pediu desculpas à comunidade chinesa, renunciou à ocupação perpétua sobre Macau, reconhecendo o poder e controlo de facto dos chineses sobre Macau. Nos termos do acordo, foi ainda proibido dar apoio ou asilo político aos nacionalistas do Kuomintang. Foram entregues à China cinco guerrilheiros nacionalistas, que foram imediatamente fuzilados. Procedeu-se à indemnização das famílias das vítimas. Ficou claramente marcada a posição da China. Portugal apenas estaria em Macau enquanto a China quisesse. A autoridade da elite chinesa pró-Pequim, saiu altamente reforçada. Nobre de Carvalho, o Governador, arriscou muito. Ele cortou o “nó górdio” ao assinar o Acordo. Lisboa nunca aceitou o texto. Salazar limitou-se a condescender, num “faça o que entender”, que deixava antever o pior, se as coisas corressem mal. Foi um acto de coragem. Assinar o Acordo era a única saída para conservar o território. Os chineses não podiam perder a face. A verdade é que nunca mais houve uma sublevação em Macau. Foi como se, de repente, todos respirassem de alívio. A Revolução Cultural demorou ainda quase dez anos. Mas, em Macau, a vida voltou ao normal. As manifestações prosseguiram, é certo, mas eram agora “formais”. Tudo era previamente acordado com as autoridades portuguesas. Não havia problemas. Os chineses tinham marcado o seu ponto. O bambu vergou, mas não quebrou. O Governo de Macau aprendeu a lição.

17.2.12

HISTÓRIA DE MACAU - XXII

No dia 16 de Janeiro, a comunidade chinesa adoptou a política dos três nãos: não entregar impostos; não prestar serviços ao Governo (incluindo abastecimento de água e electricidade); não vender produtos portugueses. Entretanto, emergiram figuras que, até aí, se tinham mantido na sombra. Ho Yin, o líder da comunidade chinesa, é relegado para segundo plano. Emergem dirigentes comunistas. Entre eles, Ho Cheng Peng, administrador da sociedade comercial “Nam Kwong”. Uma sociedade que tutelava os interesses chineses em Macau, controlada pelo Comité de Trabalho de Hong Kong e Macau, do Partido Comunista Chinês. Em Macau, o Conselho de Defesa estava reunido quase em permanência, sob a presidência de Nobre de Carvalho. Eram reuniões contínuas até altas horas da noite. Alinhavam-se argumentos. Definiam-se estratégias. Tudo em vão. As tentativas de chegar a um texto de acordo aceitável pelas duas partes sucediam-se. As negociações eram conduzidas pelo Dr. Assumpção, advogado macaense e representante de Macau junto da Câmara Corporativa, em Lisboa; por Roque Choi, secretário e braço direito de Ho Yin; e por Mesquita Borges, chefe de gabinete do Governador. Entretanto, por imperativa exigência chinesa, tinham sido demitidos o Mota Cerveira, Galvão de Figueiredo e Vaz Antunes. O Comando da Polícia passou a ser exercido, interinamente, pelo capitão Lages Ribeiro.

16.2.12

HISTÓRIA DE MACAU - XXI

A violência acabou. A repressão amainou. Começou, então, a pressão política. Uma pressão que assumiu proporções inenarráveis. As exigências não se fizeram esperar. Eram pesadas e inegociáveis. Os mortos de 3 e 4 de Dezembro mantinham-se nas urnas, por enterrar. E assim ficaram até à assinatura do acordo, a 29 de Janeiro de 1967. Todos os dias os chineses lembravam os mortos. Publicavam fotografias dos cadáveres. Uma pressão total. Em 25 de Novembro de 1966, chegou a Macau o novo Governador, Nobre de Carvalho. Apenas ao aterrar em Hong Kong, o Governador toma conhecimento da situação em Macau. Até aí nada lhe tinha sido dito. Absolutamente extraordinário. Mal chega a Macau, Nobre de Carvalho tem de iniciar a complexa negociação com os chineses e com Lisboa. O Governo de Lisboa mantinha-se irredutível. Salazar escreve um telegrama, em que resumia a sua posição: “Confirmar que, em caso de necessidade, todos cumprirão o seu dever, mesmo com os maiores sacrifícios”. Um telegrama em tudo semelhante ao enviado para a Índia Portuguesa, imediatamente antes da invasão das tropas de Nehru.

14.2.12

HISTÓRIA DE MACAU - XX


No dia 3 de Dezembro de 1966 as manifestações iniciaram-se pelo meio-dia. As escolas estavam mobilizadas. Estudantes e professores invadiram o Largo do Leal Senado e as ruas circundantes. Uma camioneta carregada de pedregulhos avança pela rua onde se situava o Comando da Polícia. Atrás, protegidos pelo camião, manifestantes entoavam canções revolucionárias e gritavam palavras de ordem, empunhando o Livro Vermelho. Aproximavam-se cada vez mais da esquadra. Lá estavam guardadas armas e munições. Parecia evidente a intenção de tomar a esquadra de assalto. Vaz Antunes, o 2º Comandante, dá ordem de fogo. Não havia outra solução. O condutor da camioneta é a primeira vítima. O carro segue descontrolado, até embater, com violência, no fundo da rua. A confusão é enorme. Debaixo de uma enorme pressão, os polícias, acantonados na esquadra, mantêm, nervosamente, o fogo. A multidão dispersa-se. Seguem-se perseguições na zona da Praia Grande. O recolher obrigatório é decretado às 16 horas. No dia seguinte ainda havia disparos dispersos por toda a cidade. No final dos dois dias, um saldo final de 8 mortos e cerca de 200 feridos, todos chineses. Foi necessária a mobilização de soldados para controlar a situação. A tensão, no entanto, continuou a crescer. Várias famílias portuguesas começaram a preparar-se para abandonar Macau. O “1-2-3” é isso mesmo: mês 12, dia 3. E o futuro de Macau nunca mais seria o mesmo.

12.2.12

HISTÓRIA DE MACAU - XIX

 Os protestos iniciaram-se e foram sempre em crescendo. Na cidade, os taxistas passaram o sinal. Eram, na sua maioria, indonésios, expulsos por Sukarno. Estavam revoltados contra tudo e contra todos. Buzinavam sem parar. Incendiaram o ambiente. As manifestações sucederam-se. Manifestações com mais de 15 000 pessoas, o que era muito, face à dimensão do território. Em Macau havia cerca de 50 000 estudantes chineses, a frequentarem escolas comunistas. Um potencial revolucionário impressionante. Os Guardas Vermelhos surgiram. O governo ficou debaixo de fogo. De crescendo em crescendo, a contestação aumentou e generalizou-se, provocando um sentimento de verdadeira revolta no seio da comunidade chinesa. Macau estava há alguns meses sem Governador. Lopes dos Santos, um homem ponderado e que conhecia bem o Oriente, tinha regressado à Metrópole, em Julho de 1966. Como Encarregado do Governo ficou Mota Cerveira. Um homem arrogante e militarista, que preferia a bravata à diplomacia. A arrogância ao diálogo. O Comandante da Polícia, o Tenente-Coronel Galvão de Figueiredo, pautava-se pelos mesmos valores. Não podia ter sido pior. Os dirigentes políticos e as forças de segurança de Macau actuaram com manifesta inabilidade e total ausência de sentido diplomático. Pior, usaram de arrogância colonialista. As tensões exacerbaram-se. As posições extremaram-se.
Nota: em homenagem a uma leitora devota e dedicada, Mao Tzé-Tung foi retirado da imagem. 

10.2.12

HISTÓRIA DE MACAU - XVIII

Em Novembro de 1966, um grupo de residentes chineses da ilha da Taipa tentou obter uma licença para a construção (ou reconstrução) de uma escola de feição comunista. Na impossibilidade de obter a licença, começaram ilegalmente a edificação. Rui Andrade, o administrador interino das Ilhas saiu de casa. Passou pela escola. Insurgiu-se contra a construção. Resolveu intervir. Apelou à autoridade. E eis como um homem fraco pode fazer história, da pior forma. A 15 de Novembro, a Polícia prendeu, de forma violenta, os responsáveis pela iniciativa, os operários de construção, residentes e jornalistas. Foi, obviamente, uma precipitação. Até porque o pedido de licença estava parado numa qualquer gaveta de um qualquer burocrata. Mais, a brutalidade da intervenção foi, manifestamente, desproporcionada, quando era o diálogo e a diplomacia que se exigiam. O 2º Comandante da PSP, Vaz Antunes, que estava presente durante o incidente, assim não entendeu. A arrogância imperou. A imprensa chinesa, em especial o jornal Ou Mun, e as associações comunistas atacaram em força. De repente, a revolução cultural entrou em Macau. A partir daí, os chineses tiveram necessidade de se manifestar. De provar a Mao Tsé-tung que eram patriotas.

9.2.12

HISTÓRIA DE MACAU - XVII

 Em 1966 a Revolução Cultural chegou a Macau. Chegou sem que as autoridades portuguesas se tivessem apercebido. A Revolução Cultural Chinesa era imparável. Até aí ela não era evidente em Macau. Mas, inevitavelmente, tinha de chegar. Mais do que um protesto contra os portugueses, mais do que a intenção de integrar Macau na China (que nunca houve), os incidentes visavam, tão-somente, mostrar a Mao Tsé-tung que Macau também era revolucionário. Pretendiam mostrar o fervor das gentes de Macau, à causa da Revolução Cultural. Claro que o “incidente da Taipa” podia ter sido evitado. Os portugueses, por manifesta inabilidade, caíram na armadilha. Mas se não fosse esse, seria qualquer outro pretexto. Macau tinha de ter os seus Guardas Vermelhos.

7.2.12

HISTÓRIA DE MACAU - XVI

Em 1966 Macau esteve à beira de se perder para a China. A China nunca reconhecera a soberania portuguesa, tal como entendida pelos critérios jurídicos ocidentais. A presença portuguesa era consentida de acordo com os interesses da China. Mesmo depois do Acordo Luso-Chinês de 1887, Macau continuou a ser um território chinês, sob administração portuguesa. Uma avaliação diferente seria um erro político grave. E esse erro foi reiteradamente cometido. Mas, o principal erro político de Portugal foi não ter reconhecido o governo da República Popular da China, após a sua proclamação a 1 de Outubro de 1949. A ausência de uma representação oficial junto do governo chinês potenciou o aparecimento de figuras importantes de Macau, arvorando-se em intermediários. Portugal ficou dependente desses contactos, sem poder confirmar o que se passava de facto. Para agravar esta situação, foram toleradas em Macau actividades de associações e de agentes ligados ao governo nacionalista da Formosa. Um claro desafio ao prestígio e à autoridade chinesa. Era fatal que a paciência de Pequim se esgotasse.

HISTÓRIA DE MACAU - XV

A abertura de casinos sucede-se: o Casino Estoril, inaugurado em 1962. O Hotel e Casino Lisboa, aberto em 1970. A economia de Macau passou, definitivamente, a depender do jogo. A transferência da soberania de Macau entre Portugal e a China aconteceu a 20 de Dezembro de 1999, após anos de negociações pacíficas e cordatas, contrariamente ao que aconteceu em Hong Kong. O jogo foi liberalizado em 2001. Ironicamente, Macau tornou-se ainda mais dependente do jogo. Juntamente com o turismo, o jogo trouxe uma substancial entrada de capitais estrangeiros no território. Hoje, Macau tem 31 casinos, sem contar com as centenas de salas de máquinas. Estima-se que, num só dia, Macau faça mais receitas do que Las Vegas num mês. Em 2010, o jogo atraiu cerca de 25 milhões de pessoas a Macau, a maioria através das Portas do Cerco, vindas da China.

6.2.12

HISTÓRIA DE MACAU - XIV

A economia de Macau ficou, então, altamente dependente do jogo e do turismo associado. O jogo foi legalizado em 1847. Em 1850 existiam já mais de 200 casas de jogo. Os chineses adoram jogar. Adoram desafiar a sorte. Ter sorte é mais do que ganhar. Talvez o façam para se alienarem da vida dura que sempre tiveram. Ganhar é ter a sorte dos deuses. Os impostos provenientes do jogo começaram a ser a principal fonte de receita do governo. Em 1937, o Governo de Macau concedeu, em regime de monopólio, a exploração do jogo legal, à companhia “Tai Heng”, liderada por Fu Tak Yam e Kou Ho Neng. A evolução, em termos de modernização dos casinos, foi impressionante. Foram introduzidos novos jogos, como o bacará, continuando os jogos tradicionais chineses: “fantam”, “p’ai kao” e “cussec”. Em 1961, as autoridades portuguesas declaram Macau uma “região permanente de jogo”. Era governador Jaime Silvério Marques. Terminava nesse ano a concessão da companhia “Tai Heng”. Lançado um concurso público, foi a STDM, de Stanley Ho que ganhou a nova concessão, em regime de exclusivo. A abertura de casinos sucede-se: o Casino Estoril, inaugurado em 1962. O Hotel e Casino Lisboa, aberto em 1970. A economia de Macau passou, definitivamente, a depender do jogo.

Foto: "casino flutuante" de Roberto Barbosa.