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24.4.14

25 DE ABRIL - 40 ANOS


As novas gerações querem é saber como se renova a economia, como se param os tubarões financeiros, como se luta contra os colossos bancários, como se cria um mundo mais verde, quais as novas fontes energéticas, como se criam condições para Portugal voltar a crescer demograficamente, como se aprofunda a integração europeia, como se afasta o fantasma neo-nazi e ultra-nacionalista. Em vez disso andam uns velhotes a discutir o sexo dos anjos: onde se deve discursar, quem deve discursar, quem é quem, quem foi o quê, se este é o “espírito de abril”, se não será preciso outra vez sair em armas... Isto é dito por ex-Presidentes da República que se acham pais da Pátria, há velhos capitães de Abril que teimam em continuar a existir e a moça-presidenta do Parlamento diz disparates nas entreportas da Assembleia. Uma fogueira de vaidades em que todos se querem incensar antes que a morte os leve de vez e passem a ser também motivo de comemorações em estátua de bronze numa qualquer rotunda do país acidental. Há nesta gente um saudosismo amuado, feito de nostalgia pessoal e de juventude perdida. O momento em que foram importantes. É essencial remeter esta gente para trás dos microfones. Afastá-los da ribalta, antes que a ribalta se afaste deles. É essencial largar o passado e pensar o futuro. E há tanto para pensar...

25.4.13

COMPLEXOS DE ESQUERDA

Uma coisa é a revolução do 25 de Abril, outra é democracia e outra coisa, ainda, é orientação económica. Sempre me fez confusão a identificação de democracia com esquerda ou com orientação estatizante da economia. É certo que há razões históricas para a revolução do 25 de Abril estar a associado à esquerda. Mas a revolução foi "apenas" o momento do derrube de um regime. Trinta e nove anos depois é com profunda perplexidade que vejo continuar a associar-se "democratas" com esquerda.  As pessoas acham vergonhoso e retrógado ser de direita. As pessoas defendem novamente nacionalizações e estatização económica, sem se lembrarem que estivémos às portas de ser uma Coreia do Norte, sem bomba. Defender a democracia não é previlégio de ninguém. É um valor universal. Outra coisa são as orientações ideológicas que se propõe ao eleitorado e que se votam nas eleições. Isso é democracia. O resto são complexos de esquerda.

26.4.12

MENA - O FIM DA CENSURA



Lembro-me de estar na paragem de autocarro a caminho do Liceu de Portimão. Da 1ª aula do dia: Matemática e o professor numa pilha de nervos. Lembro-me que já não tive Francês. Lembro-me dos jardins desertos e de um rapaz solitário caminhar lentamente até ao recreio das meninas. Depois mistura-mo-nos todos, na certeza de que já não era proibido. O meu 1º acto de liberdade talvez tenha sido despir a bata branca. Tinha acabado de fazer 15. Na total anarquia dos 2 anos seguintes quase não fui a uma aula. Mas devorava livros.Todos os que até ali me tinham sido proibidos. Imagine-se que não se podia ler Jorge Amado!!! 
Mais tarde, "Gabriela Cravo e Canela" seria a 1ª telenovela a passar na TV portuguesa. :)


Todos nós sabíamos que havia liberdade, mas não sabíamos bem onde ficava. Naquele dia deram-nos as liberdades todas de uma vez. Tivemos de aprender a ser livres, a saber estar fora da gaiola.

XUNANDINHA - POSTO DE COMANDO

Tinha 14 anos os meus pais trabalhavam de noite e eu como sempre liguei a telefonia, achei que o programa do costume não estava a dar,ouvi o aviso do posto de comando "a pedir à população para manter a calma e ficar em casa" achei esquisito e pensei há isto não é cá e saí para a escola,ainda começou a primeira aula mas a meio mandaram-nos para casa, só mais tarde o meu papá contou o que se estava a passar.

Tudo foi esquisito naquele dia. Um dia que parecia não acabar. E quando acabou, ficou a sensação que outro ia começar. Um dia para o resto das nossas vidas. 

SILVARES - RENASCER

Eu tinha 11 anos e estudava na Escola Preparatória Doutor Oliveira Salazar, em Viseu. Não compreendi bem o que se passava. Em minha casa, na minha família, havia quem estivesse feliz, quem estivesse triste, quem não estivesse nada. Eu fiquei assim-assim pois a escola fechou e, quando voltei, as letras de ferro cravadas na parede com o nome do Doutor haviam sido arrancadas. A partir daí (re)comecei a crescer.

Deus, Pátria e Família foram, de repente, substituídos pelo Programa das Forças Armadas e os famosos "3 D's" - democracia, desenvolvimento e descolonização. A escola fechou e a vida mudou.

ANÓNIMO - EM ANGOLA OS CRAVOS NÃO FORAM VERMELHOS

No dia 25 de abril de 74, em Luanda, não havia guerra civil. Havia a guerrilha na mata, como já acontecia há mais de uma década, mas Luanda vivia em paz. Guerra civil, recolher obrigatório e tudo o mais que a uma guerra civil é inerente, veio depois. Nesse dia glorioso rejubilei. Não só pelos angolanos como também pelos portugueses. Estariam livres de uma ditadura severa e de uma guerra que não era deles. Por nós, angolanos, tudo estava por vir ... Passou o tempo e no cano das armas não houve cravos vermelhos. Houve fogo. Todo esse processo trouxe-nos mais guerra, mais fome, mais dúvidas, mais incertezas quanto ao futuro. Também mais sonhos e mais esperança. Para mim, particularmente, trouxe-me o peso de um exílio que carrego há mais de 30. Ainda assim, tenho o dia 11 de novembro de 75, em Luanda, como um dos dias mais felizes de minha vida. Jamais culparei Portugal por tudo o que de mau aconteceu, muito menos seu povo. Ardam nos infernos, esses sim, os seus indignos e tiranos governantes. 25 de abril, sempre. Minha gratidão eterna aos Capitães de Abril. Quanto a Angola, ainda está sendo escrita o resto dessa História. Mas valeu. E muito!

Angola é a história por contar. Um país que Portugal deixou adiado e que ficou nas entremalhas da Guerra Fria. Um país que emerge e que só espera por democracia a sério. Quem lá esteve jamais esquecerá. Este é um relato de quem perdeu a Pátria, mas que aceita por uma causa maior.

MARIA DE FÁTIMA - LARGO DO CARMO

Tava na caminha
a minha companheira de quarto (uma MRPP convicta) acordou-me: um golpe de estado, e eu de direita ou de esquerda? muito atinadinha já: Faculdade de Ciências com a cantina fechada pelos pides faz a cabecinha mesmo das meninas do papá, e depois foi a manhã em casa que a minha companheira tinha a mãe alentejana de visita e ela a dona da casa rezavam para que não saíssemos pregados em frentes da televisão que de pronto respondeu á questão que eu tinha colocado...
pelas duas da tarde fomos para a rua, eu e a Nita a contrariar os rogos lá em casa para que não saíssemos: fomos avenida de roma praça de londres, arco do cego: não nos deixaram passar, ou aconselharam-nos, sei que compramos um jornal, não sei qual e ainda hoje tenho pena de não ter estado no largo do carmo estando em lisboa

Momentos que marcarão para sempre a nossa geração. Quem saiu à rua nunca mais esquecerá... quem não saiu nunca terá outro momento igual. Esta foi a revolução mais pacífica de que há memória.

FATYLY - 25 DE ABRIL SEMPRE


Não estava em Portugal, nasci e cresci em Luanda. Já no meio de uma guerra civil, com recolher obrigatório ainda trabalhava, ir e vir era uma aventura e na hora do almoço, (numa pequena cantina perto, que ainda servia refeições, comemos arroz de cabidela) soubemos "entre-dentes, não fosse a PIDE estar por perto", que tinha havido golpe de estado na metrópole. Imagens zero e à noite ligamos a rádio clandestina e ficámos a saber um pouco mais.
Cada dia após, começou tudo a piorar, eram mais os dias que não podíamos ir trabalhar devido ao tiroteio nas ruas, intensificou-se o "martelar de pregos em caixotes de quem trouxe alguma coisa via marítima", o dia-a-dia passou a ser "sobrevive, sobrevive" no meio do caos nasceu a minha filha a 4 de Abril de 75 e saí em Novembro. Fome, muita fome...e fico-me por aqui!
O que mais me estranha é que ainda hoje permanece o sentimento angustiante de quando aterrei em Portugal e comecei do zero: estar dentro de uma caixa de fósforos.
Porque será?
Hoje ao olhar certas fotos com os cravos, apetecia-me enfiar um molho de cardos nuns quantos indivíduos que destruíram + outros que continuam a destruir tudo, gamaram o que não deviam, meteram-nos numa panela de pressão marca UE, cujo pipo (euro) é o que todos e estamos a sentir na pele!
Apesar dos pesares...25 de Abril SEMPRE, mas hoje deveria ocorrer outro liderado por um povo novamente oprimido e em filas de espera para terem algo para comer!



Uma descrição vivida que impressiona pela franqueza e pela certeza de que a conquista da liberdade implica sacrifícios brutais. A intolerável sensação de perder a Pátria e a alegria de alcançar a Liberdade. 

LUÍSA - OS CRAVOS MURCHOS DA INJUSTIÇA

Tinha 2 anos e meio, 4 irmãos e um pai a trabalhar para o agregado familiar.
A versão que tenho do 25 de abril é a que a Fatyly nos trouxe. A visão do cravo é pervertida por aqueles que usaram e usaram-se do poder encostados à politica. Um caso de liberdade transformado em libertinagem sem valores nem princípios.
Era tão pequenita no 25 de abril...mas sou tão grande no meio das injustiças que daí vieram!
Muitos militares de abril devem estar espantados com as voltas que tudo isto deu!!!


A vida mudou, mudou muito. Não é possível imaginar como era. A questão é que as ambições cresceram. E todos queremos mais. Uns querem poder e dinheiro, outros continuam a querer apenas liberdade e justiça.

25.4.12

AONDE ESTAVAS NO 25 DE ABRIL?


Não me lembro de quase nada. Estava sozinho em casa. Tenho ideia que estava numa crise matrimonial do meu primeiro casamento. O meu pai estava em Bruxelas numa reunião da NATO. A minha mãe tinha ido com ele. Levantei-me cedo, pelo meio-dia, e soube que tinha havido golpe de estado ao som de "Grândola Vila Morena". Estava de ressaca e ainda fiquei com mais dor de cabeça sem conseguir atingir a profundidade da coisa, perdido em aspirinas de ocasião. Fui ouvindo notícias surrealistas: povo na rua; cravos nas espingardas; calças à boca de sino penduradas no Largo do Carmo; tanques em cada esquina; ministros em fuga desesperada; o Império definitivamente a decair... Não me apeteceu nada ir para o meio do povo. À noite, na televisão, apareceu um bando de generais com ar absolutamente sinistro: a Junta de Salvação Nacional... Naquele ano de 1974 acabei o curso de Direito. Escapei ao MRPP e também não fui à tropa. Passei directamente à reserva territorial de onde, aliás, nunca tinha saído.

Quem quiser pode aqui deixar os seus testemunhos. Serão publicados amanhã. Interrompemos as Crónicas do Hospital devido à solenidade do dia.

18.4.12

25 DE ABRIL - VIII (FIM)

Tudo estava preparado para que as eleições de Abril de 1975 fossem a ratificação popular do PREC. Só que o povo votou. Ao fim de 40 anos, finalmente, o povo podia votar em liberdade. O recenseamento foi obrigatório. Foram recenseados 6 milhões de eleitores, contra os 1,8 milhões de 1973. A participação dos eleitores foi maciça: 91,7% dos eleitores votaram. E a votação foi surpreendente. O PS elegeu 116 deputados; o PSD, 81 deputados; o Partido Comunista, apenas 30. A 19 de Julho, quase 100 mil pessoas estiveram com Mário Soares na Alameda Afonso Henriques. Depois das urnas, o PCP começava a perder nas ruas. O povo não queria o comunismo. Ninguém queria o comunismo, excepto os comunistas. E nem todos os que se diziam comunistas o eram. Sucediam-se boatos desencontrados. Manifestações diárias. Comícios transmitidos em directo pela televisão. Os SUV (Soldados Unidos Vencerão) cercavam a Assembleia Constituinte. O Governo foge para o Porto. Tentativas de tomadas de quartéis pela força. O COPCOM e a arrogância tresloucada de Otelo Saraiva de Carvalho. Uma instabilidade que redundava em caos social e numa acentuada deterioração da economia. A esquerda foi-se desgastando, cada vez mais circunscrita aos quadros e simpatizantes dos partidos. A 10 de Dezembro, o Major Ramalho Eanes, novo chefe de Estado-Maior, suspende todos órgãos e assembleias do MFA. O povo venceu o comunismo e deixou como horizonte a democracia pluralista e a integração europeia. A 2 de Abril de 1976 Portugal passa a ter uma Constituição pluripartidária. A 12 de Junho de 1985, Portugal adere à CEE.

25 DE ABRIL - FOTOS





17.4.12

25 DE ABRIL - VII

Em Setembro Spínola convenceu-se que o povo era basicamente conservador. Convocou uma manifestação. Queria ser aclamado Presidente pela multidão. O MFA impediu. Os reaccionários são presos. Spínola demite-se. Costa Gomes sucede-lhe. A revolução dá um “salto em frente”. O 25 de Abril foi reescrito, para consolidar a “aliança Povo-MFA”. A revolução passaria ser uma “revolução de capitães”, logo uma “revolução popular”. A confusão política era total. O MFA liderava, divido em múltiplos órgãos, formais e informais. Ao mesmo tempo surgiram cerca de 50 partidos. O processo de democratização transformou-se em processo revolucionário, acompanhado da tentativa de tomada de poder antes das eleições para a Assembleia Constituinte, marcadas para Abril de 1975. Spínola, sempre ele, resolve, de novo intervir. É o “11 de Março”. Uma tentativa de golpe militar a partir de Tancos. Os militares golpistas e os militares revolucionários acabam a parlamentar no meio da rua, em directo para a televisão. Concluem estarem todos a ser enganados pelos respectivos chefes. A revolução deu novo “salto em frente”. Surge o PREC (Processo Revolucionário Em Curso). Nesse “Verão Quente” de 1975, Portugal esteve à beira do comunismo. Foram nacionalizadas 244 empresas. Todos os bancos. As seguradoras. Empresas de transportes, de energia, de cimentos, de celulose. A “reforma agrária” estabeleceu a “Zona de Intervenção”. Foram ocupadas 3111 herdades, equivalentes a 19% da área cultivada nacional. Muita gente fugiu para Espanha e Brasil.

16.4.12

25 DE ABRIL - VI

 Os tanques tinham um ar gigantesco nas ruas da Baixa de Lisboa. Ninguém percebia bem o que se passava. “O que queriam eles?”. Retrospectivamente falou-se da “revolução popular”. Mas, no dia 25 de Abril não foi o povo que determinou os acontecimentos, mas o fracasso do regime. No primeiro momento Spínola apareceu ao leme. Presidente de uma Junta de Salvação Nacional, feita exclusivamente de militares. Acabara o Estado Novo. Liberdade. Partidos políticos. Mário Soares. Álvaro Cunhal. Sá Carneiro. Mas, a verdade é que os generais comandavam. Logo em Maio de 1974, 42 dos 85 oficiais-generais passam à reserva. A hierarquia militar fica na mão de Spínola. Em breve seria ultrapassado pelos acontecimentos. Greves, manifestações, agitação permanente. A extrema-esquerda toma conta das ruas. Golpes. Contra-golpes. Tentativas “bonapartistas”. Spínola perde terreno. O Movimento das Forças Armadas ressurge pela mão de Vasco Gonçalves e Melo Antunes. A necessidade de acabar com a guerra de África é uma prioridade. A descolonização foi uma trapalhada. Uma entrega. Uma demissão. Ausência de estratégia. Falta de comando político. Ninguém sabia o que queria. Todos queriam voltar a página. As colónias foram entregues ao desbarato. Os Movimentos de Libertação tomaram posse dos territórios. Com excepção de Cabo Verde, não houve eleições. A debandada dos colonos começou de imediato. No Verão de 1975 montou-se a maior operação de evacuação da História. Meio milhão de portugueses residentes no Ultramar, regressou a Portugal. Muitos “retornados” vieram em situação precária. Verdadeiros refugiados dentro do seu próprio país. A sua integração, porém, correu melhor do que o previsto. Das colónias restou Macau, que a China não quis receber imediatamente, e Timor, entretanto ocupada pela Indonésia. Uma causa diplomática que só se resolveria em 2002, com a independência.

14.4.12

25 DE ABRIL - V

O golpe do 25 de Abril de 1974 foi planeado como uma pura operação militar, sem ramificações civis e diplomáticas. Em Lisboa as tropas ocupariam a rádio, a televisão, o aeroporto, o quartel-general, os ministérios do Terreiro do Paço. No Norte seria ocupado o Quartel-General da Região Militar do Porto. Os generais não seguiriam à frente. Optou-se por um “movimento das Forças Armadas”. Os generais seriam chamados no final, como De Gaulle na França, em 1958. Ainda hoje se especula como teve êxito um plano tão básico. Como foi possível que triunfasse sem violência. A verdade é que 80% dos efectivos militares estavam no Ultramar. A verdade é que a marinha e a aviação não intervieram. Os efectivos disponíveis eram, na sua maioria, instruendos, aguardando partida para a guerra de África. Tropas sem experiência e que não estavam destinadas à defesa do governo. O regime estava num impasse. Um impasse que se arrastava penosamente. Uma situação apodrecida, em que já ninguém acreditava. Ninguém quis combater do lado do governo. Ninguém se quis comprometer com um regime em crise. O regime estava à espera de um general salvador. O protagonismo de Spínola cresceu, até ser nomeado Presidente da República. Sem ele o golpe não teria sido possível. Mas Spínola era apenas um militar. Um militar conservador. Um militar que não estava preparado para uma revolução. Spínola só queria tomar o poder. Um golpista. A revolução apanhou-o desprevenido.
In "Há Biscoitos no Armário"

13.4.12

25 DE ABRIL - IV

O “movimento” assentava numa relação de camaradagem e no zelo corporativo das Forças Armadas. Foi eleita uma “Comissão Coordenadora”. Mas não havia propriamente um projecto político, nem sequer unanimidade quanto a um golpe militar. Essa indefinição determinou a manipulação pelos três generais. Caetano ficou refém da situação, ora dando um passo em frente, ora dois atrás. A 22 de Fevereiro, Spínola publica o seu “Portugal e o Futuro”. Ficou claro para todos o que era uma evidência: o Ultramar não se ganharia pelas armas. A 14 de Março, Caetano convoca todos os generais para uma manifestação de fidelidade. Spínola e Costa Gomes não comparecem. Não resta a Caetano outra hipótese senão demiti-los. Foi uma jogada falhada. Caetano subiu a parada e perdeu. Ficou isolado. Logo no dia seguinte há um pronunciamento militar a partir do Regimento de Infantaria das Caldas da Rainha. Rendem-se à entrada em Lisboa. Seria um ensaio? Seria para despistar? Só os oficiais sediciosos são presos. Os restantes membros do “movimento” continuam a conspirar. O petróleo sobe a níveis nunca imaginados. Os USA abandonam o Vietname. A administração estava tolhida pelo escândalo “Watergate”. Os ecos do “Maio de 68” fazem-se ouvir de novo. Caetano autoriza contactos com a guerrilha africana. O descrédito e o desânimo invadiam os membros do governo e o aparelho de Estado. Os generais continuam a conspirar… cada um para seu lado.

25 DE ABRIL - III

O descontentamento nas Forças Armadas era generalizado. A guerra proporcionara promoções rápidas e melhorias de vencimento. Mas a inflação tudo devorava. Em 1973 o poder de compra dos oficiais era 45% do de 1960. Em 1966, tinha havido 559 concorrentes para 265 vagas na Academia Militar. Em 1972, houve 155 concorrentes para 495 vagas. No quadro permanente havia metade dos oficiais necessários, sujeitos a sucessivas missões no Ultramar, no limiar da exaustão psicológica. Em 1973, um decreto proporcionou aos oficiais milicianos, vindos da mobilização geral, acesso ao quadro permanente. Os capitães e majores indignaram-se. Começaram os protestos e as reuniões mais ou menos secretas. O “movimento” alastrou, com forte quebra de disciplina e sem que as chefias militares tivessem vontade de o contrariar.

12.4.12

25 DE ABRIL - II


Foi com os generais que tudo começou. Costa Gomes, em Angola. Kaúlza de Arriaga, em Moçambique. Spínola, na Guiné. Em 1970, Marcelo Caetano conferiu-lhes poderes que até aí nenhum comandante militar tinha tido. Salazar tinha reduzido a guerra a uma rotina barata, que se arrastava sem consequências de maior. Caetano precisava de obter resultados. Precisava de uma posição de força na frente militar para poder implementar as reformas de reconversão do regime. Para isso deu maiores poderes aos comandantes militares, na expectativa que a guerra se resolvesse. Um erro crasso. A rivalidade entre os três generais vinha de longe. As suas ambições políticas focavam-se nas eleições de Julho de 1972. Marcelo Caetano, porém, acabou por apoiar a reeleição de Américo Tomás. Caetano não quis arriscar equilíbrios entre os duros do regime e, porventura, desconfiava já dos “senhores da guerra”. As ambições e rivalidades dos generais transformaram a guerra de uma rotina relativamente consensual, numa matéria polémica, objecto de crescente guerrilha política e de sucessivas conspirações. Mas, como nenhum dos três generais reunia consenso na hierarquia militar para tomar o poder por dentro, acabaram por dar cobertura a movimentos de contestação entre as patentes mais baixas, visando aumentar a pressão sobre o governo.
In "Há Biscoitos no Armário"

11.4.12

25 DE ABRIL - I


O 25 de Abril foi uma verdadeira revolução. Não houve transição negociada, como na Grécia ou na Espanha. O 25 de Abril iniciou dois anos de profunda agitação. Dois presidentes da República e seis governos provisórios. Em apenas um dia caiu um regime que durava há mais de 40 anos. A Guerra de África esteve no centro do vulcão. Foi ela que desencadeou a revolução, num ambiente internacional marcado pelo “declínio” do Ocidente, atingido por uma forte inflação e pela retracção do poder americano.
In "Há Biscoitos no Armário".

RECORDANDO POSTS - 25 DE ABRIL SEMPRE?

Há a ideia de que tudo era muito cinzento antes do “25 de Abril”. Não havia liberdade, não havia expressão, não havia divertimento, a criatividade era controlada. Era deus, pátria e família! Muita ordem e repressão. Tudo muito careta. Há a ideia que antes do “25 de Abril” a infelicidade nacional era completa e o isolamento total. Há a ideia que depois do “25 de Abril” todo mudou. Onde havia cinzento ficou encarnado. Onde havia desespero, virou paixão. A liberdade rebentou por todo o lado. Acabou a repressão. Toda a gente se passou a exprimir como queria e como não queria. A cada um sua expressão. A alegria inundou a rua. As pessoas, de repente, ficaram muito unidas e solidárias. As colónias libertaram-se partindo para os seus exóticos destinos. Penso que são ideias exageradas. A verdade estará algures entre a liberdade, a responsabilidade e cidadania. A democracia é uma conquista. Mas não passa de um regime. Também tem desmandos e perigos. O excesso de representatividade é um deles. Sendo o melhor que conhecemos, não devemos ficar satisfeitos e inertes. O antigo regime foi essencial para controlar a total balbúrdia da I República (1910). A revolução ditatorial de 28 de Maio de 1926 foi querida e desejada pelo povo, farto dos desmandos democráticos. Ser democrata era, então, pejorativo. Só alguns empedernidos maçons se mantiveram na deles. O povo ansiava ditadura, algo que os livrasse da bancarrota e da perda de dignidade nacional. Tudo é, pois, relativo. Só não foi relativo o tempo excessivo em que o antigo regime se manteve. A verdade, porém, é que os portugueses não têm cultura política. Nunca tiveram. Nem na monarquia, nem na república. Tem caciques e gente que segue os caciques. Impera a lei do menor esforço, do emprego público, da preguiça mental. Do receio de contrariar o poder, da falta de cidadania. Por isso a ditadura durou tanto. Poucos queriam deitá-la a baixo. Era cómodo como estava. Tudo certo, direitinho, controlado. As pessoas iam às suas vidinhas, papavam as hóstias e constituíam família. É evidente que com o “25 de Abril” ganhámos muito, independentemente da balbúrdia que se seguiu à revolução. Agora pergunto. Que importa termos imensa liberdade de expressão para nos esgotarmos a dizer mal “deles” sem agirmos no local e tempo certos? Que interessa podermos fazer o que queremos se o que queremos é não fazer nada? Mais, se não fosse a adesão à União Europeia, em 1986, ainda estaríamos neste regime? Duvido!

Post publicado no Expresso da Linha em Abril de 2009.