2.11.12

VAMOS ACABAR A COMER IVA

Passei por Viseu no meu regresso de Vila Real. A cidade é imponente e mantém uma traça medieval, no núcleo central, absolutamente imperdível. Curioso é que sempre que vou a Viseu chove a cântaros. Não foi excepção desta vez. Uma chuva inclemente que nos fez derrapar na calçada escorregadia, na fuga precipitada para o restaurante.

Este era o objectivo: o restaurante "O Cortiço", um ex-libris da gastronomia portuguesa. Um espaço situado na judearia de Viseu. Escuro, no granito pesado das paredes grossas e toscas, "O Cortiço" tem uma culinária regional, com pratos trabalhados e segredos bem guardados. Ainda me lembro de lá ir em vida do fundador do restaurante, D. Zeferino de seu nome. Um"chef" (como agora se diz) que fez da casa um local de peregrinação obrigatória e um negócio super rentável. Eram filas e filas de espera. Marcações cerradas. Almoços até às cinco da tarde. Agora... havia três mesas ocupadas!
Este é o famoso arroz de carqueja do Cortiço. Cozinhado em barro preto, é absolutamente sui generis no tempero. A carqueja é uma erva do mato que dá um gosto envolvente, vagamente adocicado e nos transporta a uma infância perdida nas serras desse Portugal profundo. Os portugueses adoram comer. Têm feiras só para petiscar. Durante a refeição falam de outras refeições. No melhor restaurante falam de outros onde já foram ou onde irão sem falta. Talvez por isso os povos do norte nos sejam estranhos. Comem para se alimentar. Nós fazemos da comida um culto.
 A crise económica está a alterar drasticamente este panorama. Os bons restaurantes estão às moscas. Para manterem alguma clientela tiveram de absorver o IVA que aumentou, estupidamente, para 23%. Os restaurantes começam por restringir custos, começam a perder qualidade e, de seguida, fecham. Os portugueses alteram os hábitos. Comer fora deixa de ser o desporto nacional e passa a ser uma extravagância. As falências nos restaurantes sucedem-se. A cultura portuguesa altera-se. Cada vez mais estamos a comer nos "fast foods" e nas irritantes pizzarias que povoam os nossos "shopings". A obesidade aumenta. A saúde diminui. Os gastos sociais só não aumentam mais porque morrer sai mais barato. Em breve estaremos a comer o IVA (Imposto de Valor Acrescentado)... se ainda houver. A presente crise não é só económica. É uma crise de valores. Uma crise de valores (g)astronómicos.

7 comments:

Eduardo P.L said...

Bem posto. Abaixo o IVA

João Menéres said...

O artigo do Vasco Pulido Valente, no Público de hoje, é muito interessante, mesmo sem abordar directamente a gastronomia.

Não sei se leu um artigo do Paulo Morais. Vou enviá-lo por e-mail.

O Mac regressou a casa do dono.
Impecável ( desta vez sim ) e REVIGORADO ( ainda mais rápido ).
IMBATÍVEL !!!

João Menéres said...

NOTA : Aqui no Porto, os BONS RESTAURANTES ( não necessariamente os mais caros... ) AINDA estão cheios de clientela !

Fatyly said...

Embora eu nunca tivesse tido possibilidade de os frequentar...é tão triste ver que tantos de renome já estão a fechar e outros já fecharam!

Fecha tudo...menos esta maldita direita que só tem uma pala nos olhos tal como os burros (coitados dos verdadeiros que sabem mais do que eles).

Cambada de imbecis...

myra said...

beleza, deve ser tudo lindo e bem gostoso...menos o IVA! logico...

raulluar said...

Adorei as fotos, a escrita com pensamento. os locais e os cheiros. Como não sei fazer o arroz de cortiço, inspirado por este teu passeio por terras nortenhas,vou sair do sofá para cozinhar uma refeição caseira, também com IVA incluído.

expressodalinha said...

Raul: talvez um arroz de IVA. Tem muitas proteínas.