21.12.16

COMIGO MESMO - XVI

A avó Teresa quase não bebia líquidos. Comia a sopa e, muito raramente pedia um copito de água. Era uma mulher seca de palavras e de físico a quem se deixou de pôr copo à mesa por manifesta desnecessidade. Uma mulher insegura, pouco assertiva e muito teimosa. Recordo-me também das suas frequentes enxaquecas que a faziam vomitar e que eram debeladas a Saridon e descanso no quarto completamente às escuras durante três dias. Deve ser daí que as herdei, às enxaquecas.
Seria mais uma presença feminina em toda a minha adolescência, complementando as ausências diárias dos meus pais e as frequentes saídas para o estrangeiro. Ficou cá em casa até finais dos anos 80. Depois foi para um lar, ali perto das Palmeiras, na Rua D. José I, onde viria a morrer em 1995.
A decisão de a internar num lar foi tudo menos pacífica. A verdade é que não havia condições cá em casa e seria necessário apoio especializado durante todo o dia. Os meus pais trabalhavam e o ónus recairia, exclusivamente, sobre eles. Penso (mas não estou seguro) que não havia consenso com os meus tios (Emídio e Natália). Fazia-me confusão ir ao lar levar-lhe pães-de-leite com fiambre, mas sempre sem manteiga, coisa que ela detestava. Aos meus filhos também sempre fez muita confusão. São visitas sem prazer, com cheiro encardido de corpos depositados à espera que a morte os liberte. Decididamente, não quero aquele fim para mim.

11 comments:

Eduardo P.L. said...

Ao final, de pílulas em pílulas terá um livro com sua biografia. Ou história da família. Parabéns. E de leitura magnífica.

João Menéres said...

Não sei de me perdi.
Mas a sua avó Teresa era a Mãe do seu Pai ?

Li Ferreira Nhan said...

Chega a uma certa altura, se lá chegarmos, que não mandamos mais em nada, nem na nossa própria vontade.

Jorge Pinheiro said...

Li: perdemos o comando de tudo.
João: é mãe do meu pai.
Eduardo: é um texto longo que fiz para eu próprio não me esquecer. Uma espécie de biografia retroactiva.

Eduardo P.L. said...

E para que não se perca o correto é no fim virar um livro de papel. E tenho até sugestão para o título: O menino que voava.

Li Ferreira Nhan said...

Tá uma delícia ler tuas lembranças.

João Menéres said...

Realmente noto muita semelhança fisionómica com o seu Pai !

Jorge Pinheiro said...

João: estou cada vez mais parecido.

Jorge Pinheiro said...

Eduardo: não vai haver livro de certeza, mas o seu nome é bom (tb gosto de Comigo Mesmo)

João Menéres said...

Mas o COMIGO MESMO, Jorge, só poderá ser editado à posteriori !

Jorge Pinheiro said...

Como assim?