23.12.16

COMIGO MESMO - XVII


A casa da Rua Ferreira Lapa, em Lisboa, era enorme, mas toda a gente se acumulava numa salinha mínima, onde se almoçava, se jantava e se passava a noite. Não sei bem a fazer o quê, porque ainda não havia televisão. Mesa, quatro cadeiras (ainda retenho duas delas, no anexo lá detrás), um sofá cama, um armário de apoio e um frigorífico Frigidaire que está hoje no “Barracão” da casa de Nova Oeiras, ainda em pleno funcionamento.
Naquela sala eu voava. Tudo começava com um misterioso cheiro a borracha queimada vindo não sei de onde. Os meus pés levantavam do chão e eu subia devagar enquanto pedalava no vazio para dar propulsão à ascensão. Lá de cima via o candeeiro de ferro forjado (que está hoje no Casal de Santana, perto da Sertã), a mesa e as quatro cadeiras muito pequenas cá em baixo e o sofá-cama grená com flores bordadas a várias cores. Voava sempre que queria. Nunca tive a consciência de que fosse uma coisa exótica. Inspeccionava os cantos da sala bem lá em cima, colado ao tecto. Era uma coisa que eu achava perfeitamente normal, mas só acontecia naquela sala e quando eu estava sozinho. Deve ter sido assim até aos meus seis anos ou sete anos. Depois, subitamente, deixei de voar. Durante anos, talvez até aos meus dezasseis anos, sentia o mesmo cheiro de borracha queimada, que quase me hipnotizava, mas já não conseguia levantar voo. Toda a vida fiquei carente dos voos que me libertavam daquele rés-do-chão cinzento. Sei hoje que tudo isto tem uma explicação psicológica, mas eu tenho a certeza que voava… e o resto é conversa.

3 comments:

Eduardo P.L. said...

Acredito que essa história de casa grande onde todos acabam s reunindo num canto menor é regra. Na casa do meu avô paterno também.

João Menéres said...

O Jorge pode não levitar, mas os seus escritos fazem-nos levitar nesta carruagem tão esecial do EXPRESSO DA LINHA !

Li Ferreira Nhan said...

Acredito que a memória olfativa é a mais marcante!

A despeito de qualquer explicação psicológica, tenho a mais absoluta certeza que voce voava.