23.12.16

COMIGO MESMO - XVIII


De 1948 a 1951, o meu pai frequentou o Curso de Estado-Maior que, naquela época, decorria nas instalações contíguas à Quinta Real de Caxias. Tinham casa arrendada na vila. Ali moraram três anos. A minha mãe estava já colocada no Instituto Superior de Higiene – Dr. Ricardo Jorge, no Campo de Santana (Campo dos Mártires da Pátria), e ia todos os dias de comboio para Lisboa. Em Caxias havia mais oficiais. Todos tinham casa em Caxias. Eu não havia meio de nascer. Já iam no quarto ano de casamento. Foi aí que a Benvinda Simeão meteu a alcofinha, com a recém-nascida Graça lá dentro, em cima da cama dos meus pais e passados nove meses, mais coisa menos coisa, nasci eu, para gáudio de pais e padrinhos.
A Benvinda Simeão acabou por ser minha madrinha (testemunha de nascimento). Viria a morrer, com 90 anos, em 2015. Tentou ligar-me do hospital para o telemóvel duas horas antes de morrer. Como eu não pude atender, deixou-me uma mensagem gravada no voice-mail que ainda hoje me arrepia.

5 comments:

João Menéres said...

A sua madrinha adivinhou a morte, portanto estava lúcida...
Compreendo o seu arrepio permanente, mas se não pôde atender, não há que ficar com qq remorso !
Se calhar, até foi melhor assim...
Ficou com as palavras dela gravadas !

Li Ferreira Nhan said...

Que história mais linda.
Alguém com o nome de Benvinda só podia mesmo ser portadora de boa sorte; mesmo não sabendo o que vem a ser "alcofinha", com a Graça dentro, a coisa funcionou.

Eduardo P.L. said...

Memórias são para serem guardadas e rememoradas....

Jorge Pinheiro said...

Li: é uma superstição. Mete-se o bebé em cima da cama e nasce outro :))

Li Ferreira Nhan said...

Ah, adorei!