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2.6.14

CRÓNICAS DE ISTANBUL - IV - AS PESSOAS

Empurrados pelos mongóis, certos bandos guerreiros turcos procuravam despojos do que havia sido o Império de Halagu Khan. Um certo Osman ou Othman (que significa "parte pernas") reuniu os otomanos. Gente que se contentava com pouco. Eram frugais (até inventaram o iogurte) e pertinazes, possuíam bons cavalos e misturavam-se pouco. Instalaram-se na Anatólia (Asia), mas em 1453 já estavam em Constantinopla, derrubando um Império (o Romano de Oriente) que durara 1000 anos! Estamos numa zona do mundo extremamente confusa. Os romanos do ocidente, agora travestidos de alanos, godos, germanos de todo o tipo, suevos, francos... Ao lado os sérvios, kosovares, macedónios, russos e ucranianos. Mais para oriente, os persas, os sírios, os arménios. Os venezianos e genoveses, vendendo tudo e todos. No meio, os curdos sempre desejosos de uma nação de uma identidade. Cristãos ortodoxos, cristão apostólicos, muçulmanos sunitas e xiitas, mamelucos no Egipto... No meio desta situação super complexa, os turcos conseguiram manter a sua identidade, especialmente porque não eram permeáveis à velha cultura iraniana, nem se deixaram corromper por Bizâncio. Fundaram obstinadamente um Império e o sultão viria a ser Kalifha, depois da queda dos Mamelucos do Egipto. São povos de origem uralo-altaica e de língua húngaro-fina, um ramo indo-europeu aparentado com os Húngaros e com os Finlandeses.
Feita esta introdução, convém esclarecer que não conseguimos entender nada do que dizem e há uma enorme dificuldade em eles perceberem inglês. Sugiro falar a "língua franca" do Mediterrâneo, um misto de italiano, espanhol e português. São pessoas simpáticas, com espírito empreendedor. As mulheres são vaidosas e mesmo as que vestem chedar ou que apenas cobrem os cabelos, estão muito "produzidas" por baixo. Os próprios anúncios de roupa apontam para um "turco-chique-sexy". Ao lado das mais tradicionais, há jovens de mini-saia ou leggings, com portátil e iphone, como em qualquer sociedade ocidental. Gostei e tenho pena de não ter podido contactar mais gente.

21.5.14

CRÓNICAS DE ISTANBUL - III

Os minaretes querem-se em riste, bem lançados e com erecção divina. Em Istanbul há milhares de minaretes. Pois não vi minaretes murchos ou sequer com impasses psicológicas. Erguem-se em busca da verdade e a verdade não se compadece com tibiezas da vontade ou timidez funcional. Desde o esplêndido minarete até ao minarete sublime, os turcos metem o minarete em todo o lado. Há dois ditados populares bem reveladoras da sabedoria ancestral destes povos milenares: "que nunca te falte o minarete" e "a cada um seu minarete". Confesso que fiquei entusiasmado.

19.5.14

CRÓNICAS DE ISTANBUL - I

O Médio Oriente fica a oriente do ocidente e a ocidente do oriente. Istanbul, cidade dos três nomes. Terra do cisma. Umbigo do Mundo. Istanbul cheira a mofo velho, especiarias doces e suor refogado. Milhões de gente acumulada. Vendedores de tudo. Um bazar global. Alá aos gritos nos minaretes fálicos das rezas pontuais. Homens sombrios de bigode carregado. Mulheres de véu deixando adivinhar delícias turcas. A Praça Taksim a precisar de uma revolução arquitectónica. Um país dividido entre a Europa e o Islão.