11.4.11

A MARÉ

No Algarve estamos no estrangeiro. Falta-nos a pronúncia árabe das gentes locais. Uma pronúncia fechada e cantada. Fechada como as amêijoas. Só depois de bem abertos os algarvios tem sabor. E então é uma profusão de odores. Coentros, alho, alfarroba, azeite, orégãos… Quem nunca comeu batatas “malcriadas” nunca entenderá esta gente. Lagos é terra de vento. Muito vento. Um vento que nos empurrou pelo Atlântico. Descobrimos os Descobrimentos. E os Descobrimentos descobriram-nos a nós. Somos filhos do mar. Vítimas da maré. Náufragos da história. Um azar que não cessa de nos perseguir. Ficámos aqui a vender escravos. Vendemos até o mercado fechar. Vendemos até à exaustão. Foi preciso a estúpida abolição para nos lixar o negócio. Por mais que a Europa queira, nunca tivemos jeito para trabalhar. Nem sequer sabemos. Temos um ego invertido. Achamo-nos o máximo. Mas temos vergonha de o dizer. A verdade é que somos mesmo o máximo. Mas se formos o mínimo também não interessa nada. Todas as sondagens. Todos os inquéritos falham. Ninguém entende que um país de falhados, se ache falhado e, no entanto, se esteja borrifando, embora ele próprio ache que não se devia estar borrifando… mas, tanto faz. No Algarve trabalha-se com o Sol. Um astro difícil de dominar. Um astro difícil de gerir. As amêijoas abrem-se com o calor. Um calor que vem dos afectos. No Algarve navega-se à bolina. O vento sopra de todos os quadrantes. Aprendemos os pontos cardiais. Aprendemos a ser filhos do Sol. Aprendemos a ser filhos do Sul. E tanto faz… É a maré.
ET: dedicado à Mena que faz anos daqui a dez minutos.

QUAL CRISE? ELES QUEREM É COMER O NOSSO PEIXE





ALGARVE - FIGURAS




PORTIMÃO

Antiga Vila Nova de Portimão, a vilória foi elevada a cidade graças aos bons ofícios de um homem da terra, Teixeira Gomes, que pelos idos de 1924 subiu a Presidente da República, no meio da confusão posterior a Sidónio Pais e anterior a Gomes da Costa. Um intervalo útil, aproveitado com rara oportunidade. Desde aí, esta terra de anarquistas e pescadores, não parou de crescer. E cresceu tanto que hoje é difícil dar com ela. Perdida entre os arranha-céus da Praia da Rocha e da beatiful people do Vau, a vila antiga esconde-se envergonhada por detrás da Casa Inglesa. Ruelas porcas e casas em ruínas. Gente duvidosa pelos cantos. Portimão não precisa crescer mais. Precisa de demolição urgente.

PORTIMÃO - JANELAS