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9.4.15

NETOS

Nunca pensei ter netos. É um Ser que é nosso, sem ser exclusivamente nosso. Um Ser partilhado. Netos são os frutos genéticos da nossa colheita. Um apuramento de castas. Um vinho fino. Os netos transformam a nossa idade. Temos de nos por ao nível deles. Voltar a contar histórias, mudar fraldas, aquecer biberons, andar de gatas, jogar às escondidas... Somos outra vez novos de novo. Ser avô foi a melhor coisa que me aconteceu.

26.12.13

ESTE FOI UM NATAL FELIZ

 
A tradição lisboeta manda que se coma bacalhau cozido com batatas e couves na consoada. É uma tradição que remonta àqueles tempos náuticos de comunhão com os marítimos vindos da Terra Nova. Terá sido na corte e D. Manuel I que pela primeira vez se inaugurou a tradição. Estas são postas do alto, compradas no Rei do Bacalhau, ali à Rua do Arsenal. Essencial para se ter o melhor bacalhau de Lisboa e o resto é conversa.
 
Depois de cozido, as lascas brancas soltam-se inteiras, sem brilho ou excesso de sal. Depois depende como se gosta. Muito azeite, alho cortado miudinho. Há quem ponha vinagre. Há quem ponha colorau pimentão (esta coisa encarnada na foto). É um costume bárbaro que herdei dos meus antecedentes. Um costume de Bragança, mal compreendido pelo pessoal aqui da "linha".
 
Para quem julga que o Caldo Verde é meter a couve galega migada para dentro de água com umas batatas e deixar ferver, desengane-se. Há todo um refogado prévio e, acima de tudo, chouriço do bom liquefeito na Bimbi e acrescentado na fase de fervura. Depois é azeite cru, para ficar com aqueles olhos de gordura que só o Mediterrâneo consente.
 
Já as rabanadas (conhecidas jocosamente por "enrabanadas") exigem pão branco e grosso e muito leite. Gastam-se litros de óleo a fritar para não saberem a frito. Um frito que não pode saber a frito... Fritam-se com o açúcar. Depois levam canela e nunca mais se conseguem deixar de comer.
 
E ficam com este aspecto fabuloso. Espero que ainda lá estejam escondidas umas duas ou três que consegui iludir à vigilância apertada sobre o controlo alimentar. É que uma rabanada no dia seguinte vale por três no próprio dia.
 
Ao fim de três horas à mesa a coisa torna-se confusa, quase caótica: mais Tabasco no abacaxi? Onde está o Moscatel? Querem mais disto? O telefoneeee... olha o telefone! A coisa reconduz-se a encher o bandulho para lá do economicamente sustentável.