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23.12.15

O PERIGO DO NATAL

Mais do que qualquer época festiva, o Natal comporta perigos diabólicos. Não se pode estar doente, não se pode ter uma emergência, não se pode ter um ataque. Os médicos estão de férias, os enfermeiros fazem ponte, os socorristas têm consoada. Mas pior do que isso é morrer nesta época. Não só estragamos o as "festas" a muita boa gente, como teremos uma afluência muito reduzida no velório. Por isso, aconteça o que acontecer, aguentem-se até ao Ano Novo.

18.12.15

EFICÁCIA DO NATAL

Como se mede a eficácia do Natal? Pelo número de pessoas à mesa? Pelos presentes recebidos? Pelos presentes distribuídos? Pelo volume de comida confeccionada? Devia haver indicadores de Natal. Gráficos de satisfação do utente natalício. Qualquer coisa que nos desse um histórico comparativo e nos fizesse ambicionar fazer mais e melhor para o ano que vem. Alguém tem uma sugestão? 

22.12.14

BOAS FESTAS PARA TODOS

Corrida ao Centro Comercial. Estaciono onde não posso. Saio por onde não devo. Entro por qualquer sítio. Agarro um par de peúgas. São azuis ou pretas? Tanto faz? Empurrão pelas costas. Sou atirado à secção de pijamas. Vai um para o pai. Sei lá se é Large. Depois trocam? OK. Fixe. Lista, lista… Falta o bâton para a mãe. Irra, não tem desta cor. Então pode ser mais escuro. Esse, esse serve. Bip…SMS. “Para a família e tal, pois que o Natal, também para ti, o mundo melhor”. Não vem assinado. Sei lá quem é. Olha, “Igualmente”. Segue! Lista, lista… Agora é a secção infantil. “Não. Não quero embrulho”. E, a bem dizer também não quero pagar! Gente e mais gente escorre pelas escadas rolantes. Sempre à última hora! É pá, desisto. O resto fica para depois do Natal. Vou dar uns cupões em crédito para compras. O melhor é mesmo dar dinheiro… Porque não me lembrei desta antes!!! Alto… E o Bolo-Rei e as rabanadas! Volto a sair.  Bip… Entra mais um SMS. “Família que se cuidem p’ra pior já basta assim e 2009 também Santo para vocês”. Mais “Igualmente”. Fiquei sem dinheiro. Multibanco. Filas. Telemóvel em modo insistente. “Olá, estão bons?” Zás… Código. Carteira. Tudo no chão. “Só um minuto!”. “Quem fala?”. Máquina engole cartão. Fila impaciente. “Está”. “Bom Natal”. Pois…! Que se lixe o cartão. Não percebi quem era. Tarde passada em visitas sucessivas na correria acelerada. “Boas Festas… Para todos… Sim… Igualmente… Pois a crise… É a vida... Claro… A família… Tem de ser… É preciso é saúde…”. Consoada pontual no bacalhau cozido com couves e alho. A lampreia de ovos. Rabanadas. Bolo-Rei. Mesa em dourado. Prendas a despachar. Filhos da Fernanda. Os meus filhos ficaram com a minha ex-mulher. Vem também a ex-sogra da minha actual mulher. Os meus ex-sogros não vieram. Mas também porque haviam de vir? O neto da Fernanda pode vir hoje. Amanhã está com a ex-mâe, perdão, com a ex-mulher do filho que não é meu. O meu pai está no hospital. O meu futuro sogro também. A minha mãe não quer consoada. A madrasta da Fernanda também ficou por lá. Depois do jantar vamos lá a correr… Não sei fazer o quê! Dia 25, almoço com os futuros ex-sogros. Já não sei! Jantar com os meus pais e com os pais dos meus futuros netos. Enfim, filhos dos outros filhos que também são meus filhos. Ah, mas a namorada do meu filho não vai. Tem de ir à mãe que ao almoço esteve com o pai. Prendas despejadas à pressa, na pressa que o tempo passe… Onde fica o Natal no meio disto tudo? Boas festas para todos.
(Texto incluído no meu livro Post It).

27.12.13

SACA-ROLHAS

Há muito tempo que ambicionava um bom saca-rolhas. Abrir uma garrafa não é fácil. Pode mesmo provocar hérnias e outros luxações espinais. Finalmente o Pai Natal recebeu o meu pedido. Tive que comprovar a sacralização da L5 com um RX e uma TAC lombar. Fui atendido. Agora tudo é eléctrico. Basta carregar nos botões. In and out. Tudo automático. Beber é agora mais fácil.

26.12.13

ESTE FOI UM NATAL FELIZ

 
A tradição lisboeta manda que se coma bacalhau cozido com batatas e couves na consoada. É uma tradição que remonta àqueles tempos náuticos de comunhão com os marítimos vindos da Terra Nova. Terá sido na corte e D. Manuel I que pela primeira vez se inaugurou a tradição. Estas são postas do alto, compradas no Rei do Bacalhau, ali à Rua do Arsenal. Essencial para se ter o melhor bacalhau de Lisboa e o resto é conversa.
 
Depois de cozido, as lascas brancas soltam-se inteiras, sem brilho ou excesso de sal. Depois depende como se gosta. Muito azeite, alho cortado miudinho. Há quem ponha vinagre. Há quem ponha colorau pimentão (esta coisa encarnada na foto). É um costume bárbaro que herdei dos meus antecedentes. Um costume de Bragança, mal compreendido pelo pessoal aqui da "linha".
 
Para quem julga que o Caldo Verde é meter a couve galega migada para dentro de água com umas batatas e deixar ferver, desengane-se. Há todo um refogado prévio e, acima de tudo, chouriço do bom liquefeito na Bimbi e acrescentado na fase de fervura. Depois é azeite cru, para ficar com aqueles olhos de gordura que só o Mediterrâneo consente.
 
Já as rabanadas (conhecidas jocosamente por "enrabanadas") exigem pão branco e grosso e muito leite. Gastam-se litros de óleo a fritar para não saberem a frito. Um frito que não pode saber a frito... Fritam-se com o açúcar. Depois levam canela e nunca mais se conseguem deixar de comer.
 
E ficam com este aspecto fabuloso. Espero que ainda lá estejam escondidas umas duas ou três que consegui iludir à vigilância apertada sobre o controlo alimentar. É que uma rabanada no dia seguinte vale por três no próprio dia.
 
Ao fim de três horas à mesa a coisa torna-se confusa, quase caótica: mais Tabasco no abacaxi? Onde está o Moscatel? Querem mais disto? O telefoneeee... olha o telefone! A coisa reconduz-se a encher o bandulho para lá do economicamente sustentável.
                                                                                                       

20.12.13

RESSURREIÇÃO

A Ressurreição começa no Natal. Não vem  com o perú, nem sequer com o bacalhau. É um sorteio do Espírito Santo. Um totoloto celestial. Só para quem tem sorte. Renascer é uma reciclagem. Voltamos sem pilhas. Ecologicamente sustentáveis. Não comemos, não cagamos. Somos espírito sem matéria, idiotas sem vontade, alma sem ideias. Ficamos para sempre por obra e graça do quer que seja. Uma autópsia perfumada no elixir ginecológico da Virgem Maria. Todos queremos. Alguns conseguem. Poucos alcançam. A humanidade regurgita na ressurreição decomposta da ambição eterna, vomitando bondade hipócrita na esperança da Páscoa antecipada. Um bom Natal para todos... e portem-se bem.

19.12.13

PRENDAS DE NATAL










Pintei-os expressamente para os meus leitores. Podem levar quantos quiserem. Ficam bem em qualquer sala. 

18.12.13

O BACALHAU JÁ ESTÁ DE MOLHO

A maior descoberta da epopeia portuguesa não foi o "achamento" do Brasil. Nem sequer a chegada à Austrália ou a tomada de Ormuz. Esse evento obscuro ocorreu nesse bafejado ano de 1500. Gaspar Corte Real atinge a Terra dos Bacalhaus (actualmente, Terra Nova e Labrador). O que seria de nós sem esta descoberta? A Índia foi-se. O Brasil também. Até a África se perdeu. Mas o bacalhau é nosso! O bacalhau é o que resta do Império Colonial. O último sopro do "Quinto Império".

7.1.13

ACABOU O NATAL

Acabou o Natal. Abre-se a sala de jantar, só usada para eventos especiais. A mesa continua presidida pelos três turcos fumando narguilé, um tapete muito antigo que herdei dos meus avós. Não que eu ligue muito ao Natal. É uma época de sentimentos contraditórios. De muita caridadezinha e de amor de circunstância. De presentes quase inúteis, cuja única vantagem é animar a economia caduca. Uma época que, simultaneamente, reúne a família. E isso é importante. É um pretexto, uma tradição, uma liturgia. E nós somos isso mesmo. Uma contradição de liturgias. Acabou o Natal e não tenho pena. Já estava farto de tanto presépio. Mas a verdade é que quero estar cá para ver o próximo. 

25.12.12

EMBUSTES DE NATAL


Em várias culturas ancestrais o solstício de Inverno era festejado. Comemorava-se a fertilidade e a fecundidade. A partir do solstício os dias começam a crescer, simbolizando-se, nesses festejos, a vitória da luz sobre a escuridão... Isto no hemisfério norte. No sul é exactamente ao contrário. A bem dizer, o Natal que nós comemoramos a 25 de Dezembro é o solstício.
Embora objecto de intermináveis disputas teológico-astrológicas, Cristo terá nascido, segundo os melhores cálculos bíblicos, entre Agosto e Setembro do ano 7 antes dele próprio. Porém, a partir do Concílio de Niceia (325d.C.), toda a história do cristianismo e, de certa forma, da nossa cultura, foi reescrita. O Imperador Constantino converteu-se, por razões políticas, e criou a religião Católica Apostólica Romana como veículo unificador do seu império e das suas ambições. O livro sagrado foi então escrito, misturando e manipulando muitas informações e mitos.
No mundo pré-cristão era muito popular o culto da deusa Mitra, com origem provável na Índia ou Pérsia. Chamavam-na "Sol Vencedor". O nascimento de Mitra celebrava-se a 25 de Dezembro, data que os romanos consideravam, erroneamente, coincidir com o solstício. Na madrugada de 24 para 25 comemorava-se o Nascimento do Invicto (o alvorecer de um novo Sol), com o nascimento do Menino Mitra.
Em Niceia mais não se fez do que manipular e integrar este culto pagão no ritual cristão. Cristo representa a vida, a luz e a esperança. Então, em vez de festejar o Sol como antigamente, passar-se-ia a celebrar o nascimentode Cristo, absorvendo a festa pagã. Constantino, inteligentemente, viu a forma de consolidar o império e reconverteu o dia do Menino Mitra no dia do Menino Jesus.
Esclarecidos os embustes natalícios, falta dizer que a coisa funciona no hemisfério norte, mas para o sul... Os povos sul-americanos não festejavam o solstício de Inverno em Dezembro, mas em Junho. Logo, o Natal Americano deveria ser em Junho por aplicação linear do raciocínio de Constantino. As comemorações natalícias foram exportadas à força para as Américas aquando da catequização. É mais do que um embuste. É o símbolo vivo do colonialismo evangélico que ainda não vi suficientemente combatido pelo inefável Hugo Chavéz.
Mesmo carregado de equívocos, aqui fica uma mensagem de Bom Solstício para todos... o mesmo é dizer de Bom Natal!
 
Post editado no Expresso da Linha de Dezembro de 2007.

24.12.12

VACA ROMPE SILÊNCIO

Remetida a um Convento Carmelita, a vaca tem-se remetido a um profundo e prudente silêncio. Na época a vaca chegou a ser entrevistada pelos doutores da Igreja, Mateus, Marcos, Lucas e João. Mas nenhum dos entrevistadores contou a mesma versão. Esta adulteração da verdade muito incomodou a pacífica vaca que ficou a ruminar na torpe manipulação humana e jurou não mais abrir a boca sobre aquele jubiloso dia. No entanto, e face às afirmações do burro e do camelo, a vaca não pôde deixar de vir a terreiro repor a verdade e afirmá-la bem alto para glória do Senhor.
“O burro é um recalcado e mete-se nos copos. Distorce a verdade para se vingar. É um animal rancoroso. Põe aquele ar pesaroso, mas é um verdadeiro perigo. O camelo é um exibicionista nato. Sonha com califas e haréns, oásis de mel e tâmaras. É um deslumbrado. Não passa de um iludido que vive de fantasia num deserto de ideias. Em verdade vos digo: o burro e o camelo nem sequer lá estavam. O burro tinha ido à reunião semanal dos Alcoólicos Anónimos e o camelo tinha sido detido pela Mossad por suspeita de colaboração com o Hamas. Eu e só eu é que estava presente, como, aliás, demonstra a fotografia junta. Numa coisa o burro tem razão. Era Agosto. Mas isso que interessa! O que interessa é que o Menino nasceu em casa, no meio de palhinhas. José era carpinteiro e a Senhora se não era virgem parecia bastante. O menino era um santo. Fazia montes de milagres e estava sempre pronto a satisfazer qualquer pedido. Bastava pedir. Foi isso que o tramou. Naquela manhã do dia 14 do mês de Primavera de Nissã o procurador da Judeia, Pôncio Pilatos, saiu para a colunata coberto entre as duas alas do palácio de Herodes. O Sol queimava horrivelmente lá no alto, batendo com força nos mosaicos brilhantes. A dor de cabeça era horrível. As fontes latejavam desde manhãzinha. O procurador estava de novo com uma terrível enxaqueca. O réu aguardava vestido com uma túnica azul-clara, rasgada e suja. As mãos estavam amarradas. Um ar vagamente ausente. Tinha fama de milagreiro. Pilatos pediu-lhe uma cura para as dores de cabeça. Essa, porém, não era a especialidade de Yeshua. Tentou, tentou, mas nada. Se fosse uma cura da lepra ou mesmo uma ressurreição, ainda dava. Agora enxaquecas...! Foi isto perdeu o Menino, bendito seja o seu nome. A verdade é que se não fossem as enxaquecas do procurador não haveria Natal.”
A vaca calou-se abrupamente e seguiu a manada em direcção ao convento. Nunca ninguém mais a viu!

Post editado no Expresso da Linha em Dezembro de 2008.

CAMELO DESMENTE

Ao abrigo da Lei de Imprensa passamos a publicar a seguinte nota.
“Senhor Director do Expresso da Linha,
Serve a presente carta para protestar, veementemente, contra as ignóbeis afirmações proferidas pelo burro no pasquim dirigido por Vexa. Falo em nome dos três camelos que transportaram esses nobres Reis do oriente que tão cedo chegaram ao berço do Menino.
O burro não sabe o que diz. Aliás, é burro. A verdade sempre lhe escapou. Incapaz de destrinçar entre subtilezas filosóficas e um par de cenouras. Fala por despeito e raiva. Despeito, porque não lhe deram vestes de brocados e damasco. Raiva, porque nunca na vida transportou alguém importante. Não passa de um elemento decorativo no presépio. Para assumir protagonismo inventa tudo. O Menino nem sequer nasceu em Belém… Tudo de passou em Nazareth, como toda a gente muito bem sabe. Quando passámos a Faixa de Gaza, a estrela de David guiou-nos até àquelas doces palhinhas no meio da gruta, onde a Senhora depositara o fruto do vosso ventre, ámen. Os Reis Magos eram gente séria. Porque diabo se viriam incomodar, deserto fora, desde a longínqua Pérsia? É evidente que aquele era o Messias, “o Desejado”. Ah, e claro que era Natal. Estava um frio de rachar. O burro anda a ver muita televisão. Deve andar a ver os “X Files”. Acho mesmo que ele nunca leu a Bíblia! Então e a vaca, já ouviram a vaca? Sem querer dar lições, há que ouvir todas as partes envolvidas, Sr. Director. Sem mais, reitero que o Natal existe e é para todos!”
Assinado, o Camelo.
 
Post publicado no Expresso da Linha em Dezembro de 2008.

28.12.11

O CIRCO

O circo sempre me provocou uma sensação de ambiguidade. Misto de fascínio e angústia. De tristeza e alegria. Uma certa claustrofobia sentimental. Aquela vida errante. Os trajes de luzes muitas vezes remendados. Uma pobreza disfarçada. Os animais enjaulados. Os bichos amestrados. Os palhaços sem graça que exigiam palminhas aos meninos. Acrobacias banais repetidas à exaustão. O risco da queda. A aflição do desastre. Um suspense de medo. O cheiro a excrementos de camelo. O rugir de leões magros e de tigres ansiosos. O número dos anões. A mulher barbada. O homem-bala... Os circos desciam à cidade em épocas festivas. Onde estariam no resto do ano? Que faria aquela gente no dia a dia? Sempre foi para mim um mistério. Hoje os circos são grandes produções. Espectáculos planeados. Negócios milionários. Mas continua a haver pequenos circos a descer ao povoado. Circos que me continuam a provocar uma angústia nostálgica que não sei explicar.