4.12.16

COMIGO MESMO - III


Curioso é que a minha mãe, há medida que envelhece, e particularmente depois da morte do meu pai, vai falando da localização da casa num tom dubitativo. Repete sem cessar, nos almoços dominicais, a mesma interrogação que todos já sabemos de cor, Como vim eu parar a Oeiras? Com isto ela quer dizer várias coisas: como uma pessoa de Bragança veio parar aqui; porque não ficou no Porto, onde está quase toda a família; finalmente, já que trabalhava em Lisboa, porque decidiram mudar para Oeiras.
Com o passar do tempo, e há medida que vai repetindo a dúvida, acrescenta um certo tom negativo. Ela acha que foi asneira mudar para tão longe do sítio onde trabalhou anos a fio. Os 20 km para Lisboa e os 20 km de regresso eram estafantes. Os engarrafamentos, uma perda de tempo, enervante e irritante… Podiam ter pedido o empréstimo e comprado um andar em Lisboa. Sente-se responsável, porque acabou por ser ela a forçar a compra em Nova Oeiras. O meu pai estava em Paris e sempre teve pouca iniciativa para negócios familiares. Foi ela que decidiu e avançou.
Às vezes apetece-me dizer-lhe que não há “ses” na vida. Se não tivéssemos vindo para Oeiras, eu não teria conhecido quem conheci, não tinha tido os dois filhos que tenho, não teria a Sofia como neta. E isto sim, seria verdadeiramente um grande “se”.

4 comments:

João Menéres said...

ses impenetráveis.
Se não tivessem ido parar a Nova Oeiras, por certo que a feliz designação do EXPRESSO DA LINHA não teria acontecido.
Como se chamaria, se...

Jorge Pinheiro said...

É bem visto.

Li Ferreira Nhan said...

Há muitos, grandes e verdadeiros "ses" na vida.

Eduardo P.L. said...

As dúvidas sob o passado são tão reais quanto às do futuro. A vantagem é que para o futuro ainda não há remorso.