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14.12.13

FREE TO STAY - O LANÇAMENTO

Os livros chegam. Chegam excitados. Desejam o lançamento. Anseiam a oportunidade. Finalmente ficarão livres. Vão ser lidos. Folheados. Manuseados. Ambicionam prateleiras confortáveis. Conviver com  gente célebre. Talvez Camões, Lobo Antunes, o próprio Saramago... Foi um ano de espera. De revisões e correcções. Gente chata sempre a meter vírgulas e pontos. A alterar frases, a meter capítulos, a enxertar parágrafos. Agora acabou. Nunca mais serão violados. Existem independentemente do autor. São por si mesmos. Valem por si próprios.
Abrem-se portas que dão para claustros. Claustros que dão para corredores. Corredores que dão para salas. Infinitas geometrias na quadratura do círculo. O Instituto de Odivelas tem o alto patrocínio de el-rei D. Dinis e a presença simbólica da sedutora Rainha Santinha, essa que transformava a matéria no quer que fosse e que fez das rosas um mistério hermenêutico.
São claustros de abóbadas manuelinas, nos azulejos renascentistas de azul revestidos. Os livros ainda agora chegaram e já sentem o peso da história. Uma história que não é deles. As páginas estavam brancas antes de alguém as escrever. Os livros não têm culpa. Não sentem responsabilidade. Falam porque os mandaram falar.

As meninas de Odivelas estão por todo o lado. Andam em formatura, fazem paradas, param formadas. Uma estranha sensação de colégio interno que nos inibe de pensamentos acrílicos e degustações impressionistas.

Algumas meninas estão um pouco passadas demais. Mesmo assim conservam dignidade e continuam com ambição de chegar a uma licenciatura, mesmo que seja por influência do Altíssimo.
Finalmente o autor é chamado à responsabilidade. O frio era intenso. Não deu para tirar o sobretudo. Mesmo assim consegui dizer umas frases moderadamente compreensíveis e sintomaticamente verdadeiras.
É preciso coragem para entregar nas mãos de um escritor as confidências mais íntimas e esperar que ele saiba dar-lhes boa sequência. Quero, por isso, agradecer à Joaquina e ao Douglas a confiança em mim depositada e esperar que, através da narrativa, os leitores possam vivenciar a complexidade das personagens que estão para lá das letras e acreditar que a vida vale sempre a pena.

Da esquerda para a direita: Douglas Phillimore e Joaquina Cadete Phillimore (os biografados); o director do Instituto de Odivelas; Maria do Céu Roldão (que fez a apresentação do livro); e eu.

13.12.13

INSTITUTO DE ODIVELAS - SEPULTURA DE D.DINIS

 
Na capela absidial está o túmulo de D. Dinis (1261 - 1325). Foi o sexto rei na Lista de reis de Portugal, com o cognome o Lavrador pelo grande impulso que deu à agricultura e ampliação do pinhal de Leiria ou o Rei-Poeta devido à sua obra literária. Em 1282 desposou Isabel de Aragão, que ficaria conhecida como Rainha Santa.
Ao longo de 46 anos a governar os Reinos Portugal e dos Algarves foi um dos principais responsáveis pela criação da identidade nacional e o alvor da consciência de Portugal enquanto estado-nação. Em 1297, após a conclusão da Reconquista pelo seu pai, definiu as fronteiras de Portugal no Tratado de Alcanizes, prosseguiu relevantes reformas judiciais, instituiu a língua Portuguesa como língua oficial da corte, criou a primeira Universidade portuguesa, libertou as Ordens Militares no território nacional de influências estrangeiras e prosseguiu um sistemático acréscimo do centralismo régio e de fomento económico. Em 1312 fundou a marinha Portuguesa, nomeando 1ºAlmirante de Portugal, o genovês Manuel Pessanha, e ordenando a construção de várias docas.
Nota pessoal: se ainda hoje muitos suspiram por D. Sebastião (esse rei-menino que nada fez para além de se matar em África), o que não se haveria de suspirar por este enorme rei).

INSTITUTO DE ODIVELAS - MOSTEIRO DE D. DINIS

 

O Mosteiro de São Dinis e São Bernardo de Odivelas fica localizado na freguesia de Odivelas no largo de D. Dinis. Construído a mando de D. Dinis, cujos arquitectos foram os mestres Antão e Afonso Martins, serviu para abrigar religiosos da Ordem de Cister, no século XIII. Apresenta estilos arquitectónicos góticos, manuelinos e barrocos. Ao longo dos tempos foi sendo alterado, de acordo com as obras e com os gostos de cada época. Da construção inicial, resta apenas a cabeceira gótica com abóbadas de nervuras chanfradas (na foto).
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7.12.13

FINALMENTE O LIVRO


Uma história de vida não é uma mera narrativa de factos que se sucedem no tempo ou uma simples pesquisa da árvore geneológica dos nossos antepassados. Uma história de vida é uma psicanálise entre os biografados e o autor. Uma história com testemunhas e confissões. Com reservas e bloqueios. Com dúvidas e incertezas. Coisas que se querem esquecer. Coisas que precisamos obrigatoriamente de recordar. Momentos bons e maus. Tristes e alegres. Sofrimento e felicidade. Angústia e esperança. Coisas que julgávamos passadas e que, afinal, sempre estiveram tão presentes... Mais um livro que se edita. Mais um filho que nasce. Na 5ª feira é o lançamento no Instituto de Odivelas.

1.12.13

O MONO

São pontos e vírgulas inconvenientes. Concordâncias indesejáveis. Plurais enganadores. Gralhas atrás de gralhas que se instalam nas palavras deslizantes dos parágrafos escorregadios. Bactérias resistentes. Micróbios que alastram na ortografia cansada da escrita exaurida.  Maiúsculas em vez de minúsculas. Caixa alta, caixa baixa. Espaços que não deviam existir. Letras à solta num mundo incontrolável. Lemos e relemos sempre a corrigir. Como se o livro tivesse vida própria. Já passamos por ali e nada vimos. A gralha ora salta, ora se esconde, num jogo viciado que atraiçoa o autor. Infidelidade sem género. Género sem adjectivo. Finalmente vem o Mono. A prova física da nossa culpa. A exibição derradeira dos nossos erros. O Mono é uma espécie de juízo final. Depois dele só a ressurreição. Já não temos tempo para nos redimir. Olhamos desesperados tentando a última confissão. Deixamos na margem as últimas vontades. Já mais nada podemos fazer. Entregamos a alma ao Criador. Amanhã vai para as máquinas e seja o que Deus quiser.

14.5.13

FREE TO STAY - A NOVA BIOGRAFIA

Esta é uma parte da herdade Monte da Ribeira, no concelho de Cuba, Alentejo. Andei por lá dois dias a fazer entrevitas para a biografia que estou a fazer. Esta herdade foi ocupada pela Cooperativa "Otelo Saraiva de Carvalho", em Setembro de 1975, no contexto da Reforma Agrária. Ela é uma peça central da história que estou a escrever. A ocupação, a desocupação, o momento politíco, as peripécias judiciais, os sentimentos, os perigos... Tomar conhecimento com locais e pessoas que estiveram directamente implicados e ouvir as suas versões dos acontecimentos, é sair da abstracção e passar à realidade. Fiz sete entrevistas. Trabalho insano. Algumas ao ar livre. Outra numa tasca, bebericando copos de tinto. As mais extraordinárias foram com um "camarada" de uma dessas heróicas Cooperativas. Em pé num corredor cheio de passadeiras sobrepostas, sobrepujados por um tapete tipo peluche com a ascenção da Virgem embutida a cores, a televisão aos gritos lá no fundo da casa e ele de boca cheia, merendando um pão com chouriço. A boa vontade do homem era mínima. Outra foi com a mulher do pastor já falecido. Uma mulher expansiva que se foi arranjar para me receber. E recebeu-me na sala do cabeleiro que explora, bem no Largo Central do Alvito, no meio de secadores e escovas, com um cheiro a brushing de cabelo entranhado. Aprendi que a Reforma Agrária, decorridos estes anos todos, ainda está bem presente na população. Tão presente que falam a custo. Há muitos traumas e desilusões. Muita gente que ganhou e muita mais gente que perdeu. Quem perdeu tem raiva dos "chico-espertos". Os "chico-espertos" não querem falar disso. Agora é transformar as transcrições em história e a história em literatura.

2.3.13

UMA CASA NO CAMPO - II

Esta será a quarta biografia que faço. Vou aprendendo e tentando melhorar. É um trabalho hercúleo. São horas de entrevistas e de transcrições. Selecção de factos relevantes. Pesquisa. Deslocações a locais. Contextualização histórica, política e económica... Numa biografia são afectos e sentimentos que se contam. Uma construção narrativa factual, mas devidamente romanceada. Temos de entrar bem dentro da intimidade das pessoas biografadas. Fazer as perguntas certas. Insistir. Persistir. Fazer dizer o que elas não querem. Um jogo quase psicológico. Um divã freudiano. Temos de ser discretos. Temos de saber contar e não contar. Uma biografia é um retrato escrito. Um retrato do tempo. Um tempo que é uma vida. É uma escrita muito exigente, muito disciplinada e de grande responsabilidade. Aqui não há lugar a inventar ou fantasiar. Perguntarão porque me interessa esse estilo? Porque me permite viver outras vidas, porque me permite penetrar histórias reais, porque me permite investigar assuntos que desconheço e, acima de tudo, porque me permite eternizar essas vidas. Amanhã netos que hoje estão no berço terão dos avós uma imagem que ultrapassa a sépia de um álbum de retratos. Verão a substância e não apenas a forma.

1.3.13

UMA CASA NO CAMPO

Estou a começar um novo trabalho. Mais uma biografia, agora com novos contextos: Inglaterra; Reforma Agrária no Alentejo, em pleno "Verão Quente"; protecção de menores... Enfim, um mundo novo que se abre à minha ignorância. Adoro ter de investigar. As entrevistas começaram esta semana, neste ambiente fantástico. Uma casa no campo aqui perto de Lisboa e uns fabulosos scones no chá das cinco.