Os livros chegam. Chegam excitados. Desejam o lançamento. Anseiam a oportunidade. Finalmente ficarão livres. Vão ser lidos. Folheados. Manuseados. Ambicionam prateleiras confortáveis. Conviver com gente célebre. Talvez Camões, Lobo Antunes, o próprio Saramago... Foi um ano de espera. De revisões e correcções. Gente chata sempre a meter vírgulas e pontos. A alterar frases, a meter capítulos, a enxertar parágrafos. Agora acabou. Nunca mais serão violados. Existem independentemente do autor. São por si mesmos. Valem por si próprios.
Abrem-se portas que dão para claustros. Claustros que dão para corredores. Corredores que dão para salas. Infinitas geometrias na quadratura do círculo. O Instituto de Odivelas tem o alto patrocínio de el-rei D. Dinis e a presença simbólica da sedutora Rainha Santinha, essa que transformava a matéria no quer que fosse e que fez das rosas um mistério hermenêutico.
São claustros de abóbadas manuelinas, nos azulejos renascentistas de azul revestidos. Os livros ainda agora chegaram e já sentem o peso da história. Uma história que não é deles. As páginas estavam brancas antes de alguém as escrever. Os livros não têm culpa. Não sentem responsabilidade. Falam porque os mandaram falar.
As meninas de Odivelas estão por todo o lado. Andam em formatura, fazem paradas, param formadas. Uma estranha sensação de colégio interno que nos inibe de pensamentos acrílicos e degustações impressionistas.
Algumas meninas estão um pouco passadas demais. Mesmo assim conservam dignidade e continuam com ambição de chegar a uma licenciatura, mesmo que seja por influência do Altíssimo.
Finalmente o autor é chamado à responsabilidade. O frio era intenso. Não deu para tirar o sobretudo. Mesmo assim consegui dizer umas frases moderadamente compreensíveis e sintomaticamente verdadeiras.
Da esquerda para a direita: Douglas Phillimore e Joaquina Cadete Phillimore (os biografados); o director do Instituto de Odivelas; Maria do Céu Roldão (que fez a apresentação do livro); e eu.