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29.3.15

HERBERTO HELDER (1930 - 2015)

queria fechar-se inteiro num poema
lavrado em língua ao mesmo tempo plana e plena
poema enfim onde coubessem os dez dedos
desde a roca ao fuso
para lá dentro ficar escrito direito e esquerdo
quero eu dizer: todo
vivo moribundo morto
a sombra dos elementos por cima

HERBERTO HELDER - RETRATO EM MOVIMENTO

Morreu esta semana um dos maiores poetas contemporâneos de língua portuguesa. Morreu como viveu, recusando homenagens e tributos. Agora, depois de morto, vai ser divulgado e em breve estará ao lado de Pessoa, nesse mundo imortal da poesia intemporal. Descobri cá por casa esse precioso livrinho editado em 1967. Uma peça de colecção absoluta. Deixo-vos o texto introdutório. Não tenham preguiça de ler. Nem tudo é instantâneo:
Quando se caminha para a frente ou para trás, ao longo dos dicionários, vai-se desembocar na palavre Terror. É um sítio fechado, eriçado, anfractuoso - extremamente difícil para os pés e mãos. O vocábulo. O vocábulo, entretanto, é apenas uma compressão violenta, síntese à entrada de um texto que se multiplica por dentro, sem crescer, cruzado insensatamente por túneis, corredores e caminhos de pronúncia áspera. Está sobrecarregado de máquinas inteligentes - relegadas, por intencional inclinação de sentido, para uma malícia próxima dos ramos de cores, dos animais sumptuosos e das estrelas que não andam. Os motores fervem. Não há riquezas: petróleo, trigo, topázios. É difícil viver aqui, respirar, mexer os dedos ao pé da respiração, olhar junto ao movimento do corpo, ter uma corpo no meio da sombra, um nome com a sua luz própria na dilatação obscura dos nomes. Contudo é preciso viver, tem de se andar para trás ou para a frente, porque há o fermento no corpo, o sangue, a irradiação dita pernas e braços, é-se bípede, quadrúpede, miriápode - vem-se dar sempre a este sítio que devorou a rosa cardeal.

3.9.13

POEMÍNIMOS - EDUARDO LUNARDELLI

Receber um livro de um amigo, mais que um prazer é uma expectativa. "Poemínimos" tem o mínimo de palavras para o máximo de poesia. Um livro de emoções em que a rima acontece sem querer. Sensual, sexual, pessoal, irónico. Desabafos e ânsias. Desejos e angústias. Sarcasmos e verdades. Um livro exclusivo. São flashes que o autor se apressa a  passar ao papel. Uma escrita quase automática sem revisão. E, se num caso ou noutro, uma segunda leitura poderia aperfeiçoar a ideia, na maioria dos casos é precisamente a espontaneidade que lhe dá força. Eduardo procura nos seus três últimos livros líricos uma forma nova de dissertação poética. E cada vez resulta mais comprimido. Mais minimalista. Mais absorvente, como se fosse a busca de um mantra ainda por inventar. Neste terceiro livro, Eduardo Lunardelli está à beira de o conseguir. Descreve o que pensa sem compromissos com o leitor. E o leitor, ao ler, compromete-se consigo próprio. Nada mais se exige. A forma é cada vez mais despojada. E se a mensagem penetra é porque tem mesmo de penetrar. É um livro esteticamente perfeito e inovador. Fácil de transportar. Um livro de bolso, no melhor sentido de intimidade literária. Talvez por isso Eduardo confesse:

Agora quero um livro leve
não precisa ser grosso e pesado
não precisa parar de pé
Deve ficar deitado
ao lado da cabeceira da cama
...
Agora quero um livro breve
para ser lido e anotado
páginas marcadas e texto grifado
Deve ficar deitado
anotado
grifado
Um livro simples
mas desejado

Encomendas: 011 30794433 ( Maria ) ou epl.escrit@gmail.com - R$12,00 com frete incluso para todo Brasil.

11.2.12

FERNANDO PESSOA - PLURAL COMO O UNIVERSO (FUNDAÇÃO GULBENKIAN)

De 10 Fev 2012 a 30 Abr 2012
Das 10:00 às 18:00
Encerra Segunda-feira e domingo de Páscoa
Edifício Sede

Exposição dedicada a Fernando Pessoa e aos seus heterónimos, que pretende mostrar toda a multiplicidade da obra do grande poeta de língua portuguesa, conduzindo o visitante numa viagem sensorial pelo universo de Pessoa, para que leia, veja, sinta e ouça a materialidade das suas palavras.
Nascida de uma colaboração entre a Fundação Roberto Marinho (Brasil) e o Museu da Língua Portuguesa de São Paulo, com o apoio da Fundação Gulbenkian, esta exposição foi inaugurada em São Paulo, em 2010, e apresentada no Rio de Janeiro em 2011. Em Lisboa, na Fundação Gulbenkian, a exposição assinala o Ano do Brasil em Portugal.

3.2.12

ADIAMENTO

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada será; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado.
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos só para apanhar um eléctrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas hoje não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária
para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Tenho sono como frio
de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras,
ou depois de amanhã...

Sim, talvez só depois de amanhã...
O porvir...
Sim, o porvir...

Álvaro de Campos, Adiamento.

3.4.07

GRIFO PLANANTE

Sou um grifo planante. Voo na corrente inconsciente na espiral do prazer. Deslizo na voragem do destino... Atravesso o vento contra o tempo nas asas do desejo. Subo alto na emoção. Caio na vertigem. Percorro o infinito sem fronteiras. Pairo no horizonte sem fim. Sou ágil, sou leve, sou livre, sou etéreo, sou o quiser. Domino o ar. Sou dono do vento. Sou um grifo vibrante. Vivo na angústia planante nas arribas do Douro.



jp