23.7.09

MORTOS E SCANNADOS

Tendo adiado a minha ida para o Algarve por causa da morte do Xico Zé, resolvi aproveitar o dia de hoje para adiantar mais um pouco a digitalização dos slides do Roberto. Aproveitei e levei uns da minha família. Sentado na cadeira que pertenceu ao falecido Roberto, os slides eram um verdadeiro cemitério de imagens. O Xico aparecia por todo o lado. A Bia, que morreu de cancro há dois anos, também surgiu de repente. O Guito, falecido há três semanas num acidente na Mauritânia, resolveu aparecer inopinadamente. O Zé Maria também lá estava, como se ainda vivesse. Então os slides de família eram uma notícia necrológica de página inteira: avós, bisavós, tios, primos, pai... Slides de mortos. Cada vez mais mortos. Quase todos mortos. Digitalizo mortos que saem vivos das imagens sepultados em caixas escuras no bafio do passado. Imagens vivas de gente morta. Imagens que ficaram à espera da morte para se revelarem. Gente que reconheço vagamente. Gente vinda de muito longe. Vinda das brumas da adolescência. Jovens que não existem mais. Dou-lhes de novo vida. Revivem em Jpeg no "positive film", a 720 dip, nos 24-bit Color. São imagens que vejo com dor e saudade. Com prazer e angústia. Com alegria e raiva. O passado é o "preview" scannado. É uma vida que existe em imagem e não existe já viva. Como se fosse uma imagem morta. Sinto-me traído por todos os que me abandonaram. Todos me deixaram sozinho a tratar das imagens que eles não vão ver. Sinto uma luta contra o tempo. Acabar a digitalização antes que mais alguém morra. Sinto-me enterrado no caixilho de cada slide, numa angústia de morte no fundo de cada imagem.
jp

UMA POR DIA - BEM CONSERVADA

21.7.09

XICO ZÉ (1952-2009)









INTERRUPÇÃO FATAL

Morreu o Xico Zé, vítima de um cabrão de um linfoma que há mais de um ano o incomodava. Uma doença cobarde e intratável. Esta fotografia, da autoria de Carmo Romão, foi a última que lhe foi tirada. Foi no dia 20 de Junho a seguir ao último concerto que deu e em que claramente se quis despedir de todos os amigos. Depois disso ainda estive com ele, mas o desfecho era evidente. Com ele morre muita coisa. Morre o "Ephedra", o grupo onde também toco e que tínhamos ressuscitado com grande esforço. Gravámos um disco e fizémos três excelentes concertos. Ele era o orquestrador e o maestro. O motor da banda. Sem ele não tem interesse. Não tem qualquer piada. Com ele morrem também muitos projectos que tínhamos para realizar, agora que nos tínhamos reencontrado. Com ele morre também uma parte de mim. A vida não obedece a projectos. Tem o seu próprio timing. Um timing que nós não entendemos, mas que não é, seguramente, o dos nossos relógios e calendários. O Xico morreu em sofrimento e revoltado. Nós ficamos a sofrer e em revolta. Nos últimos dois anos morreram três amigos íntimos. E o pior é que outros se seguirão. Um dia destes estou isolado na virtualidade da solidão, a escrever nada para coisa nenhuma, para ninguém ler. Um beijo grande para a mulher e filhos, a quem presto a minha homenagem. O Xico Zé estará na capela de Caxias/Laveiras a partir das 17 horas de hoje. O funeral será amanhã.
jp

UMA POR DIA - ELA

20.7.09

FÉRIAS NO EXPRESSO

A partir de hoje o Expresso vai de férias. Não vou a nenhum local em especial. Vou andar por aí. Até dia 25 de Agosto irei publicar todos os dias uma fotografia de locais e férias já passados. Uma recordação para mim e uma repetição para todos os que me têm seguido. Vou usar o conceito do meu amigo Roberto, "UMA POR DIA"... e já não é mau. Fiquem bem.

TEMPLÁRIOS REVISITADOS - BREVE ENQUADRAMENTO DA ORDEM

PRESTES JOÃO DAS ÍNDIAS[1]
O mito vem do tempo da heresia nestoriana (séc. IV). Nestorius ter-se-ia refugiado para lá da Pérsia, na Arábia, ou na Etiópia… o que, naquele tempo, se designava genericamente “as Índias”.
O aparecimento do Islão e, mais tarde, dos turcos, teria cortado os contactos com um reino cristão, perdido algures nas “Índias”: o reino de Prestes João, “o Rei do Mundo”, que governava no “Centro do Mundo”.
A demanda do “Rei do Mundo” é, simultaneamente, objectiva e espiritual. Uma busca desesperada do Graal, que representava o saber inciático e que se afastava do Ocidente. Encontrar o reino do Prestes João significava restabelecer o contacto com o Templo eterno e salvar o Ocidente da catástrofe da “destruição do Templo”.

Os Templários portugueses participaram nessa busca de uma forma particularmente activa, no quadro dos Descobrimentos.
O Infante D. Henrique subscreveu a hipótese africana, nomeadamente a da Etiópia. Nesse sentido, foram enviados vários “pesquisadores”, com o intuito específico de recolha de informações: primeiro, Antão Gonçalves e, mais tarde, Pero da Covilhã, o qual penetra na Abissínia e confirma a existência de um reino cristão, governado por um Negus, rei da Etiópia[2].
Só no tempo de D. Manuel I é preparada uma embaixada relevante, tendo como destino a Etiópia (1521). É encontrado um culto de base cristã, eivado de superstições e heresias condenadas pela Igreja europeia. Por outro lado, longe de poder servir de apoio aos vice-reis da Índia, os abissínios tiveram mesmo de ser ajudados pelos portugueses, contra uma tentativa de invasão dos somalis.
Os portugueses, os primeiros a perseguir essa ilusão, foram igualmente os primeiros a desiludir-se: aquele não era o reino do Prestes João.
Mas essa ilusão foi, sem dúvida, um dos fundamentos (senão “o” fundamento) místico-iniciático dos Descobrimentos: o Oceano é dissolução, naufrágio e morte, mas também passagem iniciática, caminho de ressurreição[3].
E não seriam os portugueses predestinados para aquela busca? O nome Lusitânia lembra a palavra luz, que, na tradição hebraica, significa “nó da imortalidade”, ponto situado na base da coluna vertebral, no “sacrum”. Sagres (o “Promontorium Sacrum” dos romanos) foi o lugar escolhido por Henrique para a base das operações…
Luz era também o nome do local onde Jacob sonhou com uma escada pela qual subiam e desciam os Anjos do Senhor, local esse que recebeu depois o nome de Bethlem. Foi de Belém, nas margens do Tejo, que partiram as caravelas…
[1] Intervenção de Lima de Freitas, em 1983, nos “Encontros Internacionais de Tomar”.
[2] Esta tese tinha a seu favor, entre outras razões, a lenda da rainha do Sabá que, tendo visitado Salomão, recebera a iniciação na gnose e concebera dele um filho; seria esta a origem da dinastia dos imperadores da Etiópia.
[3] Uma outra lenda, baseada no “Livro de José de Arimateia”, refere que Salomão terá construído um barco à “prova de todos os mares” (uma espécie de Arca de Noé), que pudesse aguentar dentro de água mais de mil anos, sem apodrecer. Este barco era o depositário do Graal… Assim, a busca era marítima
Ao fim de cerca de 100 episódios termina hoje este Breve Enquadramento dos Templários. Para quem leu, espero que tenha gostado; para quem não acompanhou, um alívio...
jp

19.7.09

BLOGGINCANA - NOVO PASSATEMPO

Eduardo P. L. e Jorge Pinheiro têm o prazer de apresentar o novo passatempo que substitui a Tertúlia Virtual. Será a BlogGincana que terá a sua primeira edição em 13 de Setembro próximo. Para saber mais veja AQUI.

ANTOLOGIA ROBERTO BARBOSA - ILHA DO FOGO

Fotografia de Roberto Barbosa.

TEMPLÁRIOS REVISITADOS - BREVE ENQUADRAMENTO DA ORDEM

D. SEBASTIÃO
Depois de D. Dinis, o arquétipo nacional permanece vivo. A Ordem de Cristo, no entanto, não é a Ordem do Templo: perde-se o contacto iniciático com o Oriente (a demanda de Prestes João das Índias terá sido uma busca ligada a essa perda?).
Aos poucos, os mestres deixam de ser eleitos pelo capítulo, ficando a sua eleição sujeita aos desígnios da coroa. Mas, dentro dela, mantém-se muito do espírito e dos conhecimentos dos Templários e esse factor será decisivo para o lançamento da epopeia dos Descobrimentos.
No séc. XVI, o fantástico surto da arte manuelina fechava o ciclo do Portugal telúrico, ficando gravada na pedra a tradição que remonta às origens da nacionalidade e que esteve na vanguarda dos motores internos que levaram ao êxito dos Descobrimentos.
O ciclo que se iniciou na batalha de S. Mamede encerra-se com a chegada de Vasco da Gama à Índia. A partir desta data, ainda se realizam inúmeros feitos, mas começava a decadência.
D. Manuel I, o Venturoso, ainda leva até ao fim o projecto marítimo da Índia. Mas, ao ilegalizar os judeus e ao solicitar ao papa, em 1515, a entrada da Inquisição, estava a dar a machadada fatal numa tradição de tolerância, que vigorara nos primeiros quatro séculos da história de Portugal.
D. João III reforça a intervenção da Inquisição que, a partir de 1539, “entra a matar”, e rompe definitivamente com a tradição portuguesa. Portugal rendeu-se à Europa dogmática. A Europa telúrica perdia a liberdade em Portugal.
A Ordem de Cristo é neutralizada, passando a ser apenas monástica. Esta tendência começa já com D. Manuel, que inicia obras no Castelo de Tomar, descaracterizando-o e transformando-o no Convento de Cristo. É também nesta fase que a população “civil”, que residia intra-muros, é definitivamente transferida para a Corredoura, arrabalde de Tomar, onde hoje se situa a cidade.
Mas é de facto com D. João III que se perde o que poderia ainda restar do carácter iniciático da Ordem.
O rei nomeia, para prior perpétuo da Ordem, Frei António de Lisboa, da Ordem de S. Jerónimo. Este, mal chega a Tomar, queima inúmeros documentos da Ordem de Cristo e dos Templários (entre eles, provavelmente, a célebre “Bezerra”, o diário da Ordem, que desapareceu misteriosamente) e profana o panteão templário de Santa Maria do Olival, onde se encontravam mais de vinte túmulos de mestres do Templo…

Diga-se o que se disser de D. Sebastião, este jovem visionário ter-se-á apercebido da tragédia, mesmo que de uma forma insconsciente.
Renegou a sua educação jesuítica e tentou reabilitar a Ordem de Cristo e “…restituir os antigos costumes a que sou afeiçoado…”, conforme escreve em carta ao seu povo, em 1569. Que costumes seriam esses?
D. Sebastião parece também ter desenvolvido pesquisas para a descoberta do “tesouro dos Templários”, que, no todo ou em parte, poderia estar escondido na zona de Tomar. Tê-lo-ia descoberto?
Há quem defenda que seria na qualidade de Gão-Mestre da Ordem de Cristo que D. Sebastião teria tomado conhecimento do local onde se encontrava o tesouro.
Podemos especular sobre se terá sido essa descoberta que ditou o destino do jovem e sonhador rei de Portugal, ao promover e financiar a batalha de Alcácer Quibir (ou batalha dos Três Reis, como lhe chamam em Marrocos, por nela terem morrido, para além de D. Sebastião, dois reis marroquinos).
Teria assim feito recair sobre si e sobre Portugal uma maldição, ao utilizar o ouro dos Templários para fins alheios ao objectivo a que se destinavam…

Segundo Gilbert Durand[1], D. Sebastião desaparece, com o seu exército, a 4 de Agosto de 1578. Tinha vinte e quatro anos e entra para a zona mítica dos “reis escondidos”, dos “superiores desconhecidos”, dos “invisíveis”, das “autoridades escondidas” (os “Alumbrados”, tema tão caro aos rosacrucianos, no séc. XVII). A lista contém nomes como Seth, Enoch e Elias, todos “escondidos” e esperando pelo fim dos tempos.
Entre os sebastianistas, importa reter o nome do Padre António Vieira que, nas suas obras “História do Futuro” e “Clavis Prophetarum”, transporta o mito do “rei encoberto” para um joanismo renovado, elevando-o ao nível de uma filosofia geral do cristianismo: Portugal é o reino que deve assumir a vinda do Reino de Deus. O “soberano escondido” será, então, o Imperador do Mundo.
Assim, o “sebastianismo”, de raiz fortemente política e anti-espanhola, ganha, com António Vieira, uma amplificação messiânica.
O "sebastianismo” é a certeza de haver uma garantia, mesmo que momentaneamente escondida, de ordem, de justiça e de legitimidade. É a recordação do espírito telúrico dos quatro primeiros séculos da nossa história; do espírito das cruzadas e da reconquista do ideal da expansão universal, da busca do reino de Prestes João.
Como diz Fernando Pessoa:
“Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço de terra
Que é Portugal a entristecer,
Brilho sem luz e sem ardor
Como o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro…
É a Hora!
[1] Em conferência realizada em 1983, no âmbito dos “Encontros Internacionais de Tomar”.
jp

17.7.09

TV RURAL AO VIVO

TEMPLÁRIOS REVISITADOS - BREVE ENQUADRAMENTO DA ORDEM

D. DINIS
Nascido a 9 de Outubro de 1261, D. Dinis foi um neto condigno da memória do seu avô, Afonso X, de Castela, o Sábio, que era adepto de uma cultura de tolerância entre cristão, muçulmanos e judeus. D. Dinis, apoiado pela mística rainha Santa Isabel, terá sido um dos melhores monarcas de Portugal e da Europa. Aclamado rei em 1279, governaria o país durante quarenta e seis anos, até 1325.
Desenvolveu a marinha, criou a primeira Universidade do país, revolucionou a agricultura, foi poeta… e defendeu, sem reservas, a Ordem do Templo, junto do papa (como foi dito na Parte II); no momento da sua inevitável extinção, criou em Portugal a Ordem de Cristo, que albergou os Templários portugueses e alguns franceses, que escaparam à perseguição de Filipe IV.
Terá, por isso, herdado bens e segredos da Ordem e, seguramente, grande parte da frota marítima templária, que passou a abrigar-se em Serra d’el Rey (Peniche).

Em 1283, faleceu o mestre da Ordem nos três reinos, D. João Escritor, sucedendo-lhe D. João Fernandes, que terá vindo já nomeado da Palestina, pelo Grão-Mestre internacional da Ordem, mantendo assim a sua tradição “multinacional”.
Quando ascendeu ao mestrado, D. João Fernandes teve de enfrentar um caso delicado. Os Templários de Leão e Castela apoiaram a rebelião de D. Sancho contra Afonso X; este tipo de apoio tinha um carácter de excepção, já que só em casos extremos a Ordem ultrapassava a legalidade. O Mestre português foi a Castela acabar com o levantamento dos Templários castelhanos, o que lhe mereceu o profundo reconhecimento de Afonso X.
No entanto, tudo leva a crer que, após a morte do Mestre, em 1288, Portugal tenha deixado de ser a sede dos Templários dos três reinos (Porquê?… Novo capítulo a explorar…).
É então a vez de D. Lourenço Martins, que viria também já nomeado pelo Grão-Mestre internacional, sem prévia consulta de D. Dinis, que mandou proceder à inquirição sobre o procedimento: concluiu-se que o rei tinha de ratificar a nomeação (uma cláusula que existiria já desde o tempo de Afonso Henriques, como dissemos na Parte II).
Em 1295, é nomeado o último mestre da Ordem em Portugal, D. Vasco Fernandes.
Com a extinção da ordem por Clemente V, segue-se o processo de criação, em Portugal, da Ordem de Cristo, no qual D. Dinis utilizou inúmeros recursos diplomáticos e revelou grande coragem e visão política.
A Ordem de Cristo é criada em 1319 e o seu primeiro Grão-Mestre é D. Gil Martins. A sua sede é inicialmente fixada em Castro Marim, mudando-se poucos anos depois, em 1339, para Tomar, reintegrando a antiga sede templária.
É na ligação entre a Ordem e o rei que se começa a perspectivar e a planear a epopeia dos Descobrimentos: a Escola de Sagres, de que o Infante D. Henrique virá a ser Governador, é criada pela Ordem de Cristo.

Uma última palavra para a Rainha Santa Isabel, essa criatura mística que transformou o pão que alimenta o corpo em rosas espirituais que alimentam a alma[1].
Dinamizou o culto de Espírito Santo, apoiou os Franciscanos e foi grande amiga dos Templários. Verdadeira missionária da paz, várias vezes evitou a guerra entre o rei e o irmão e, depois, entre o monarca e o próprio filho.
D. Dinis, rei-lavrador e rei-poeta, homem de muitos amores, não lhe regateia elogios e, numa bela cantiga que lhe dedica, termina, dizendo: “Se Deus quisesse assim mandar, érades boa para Rei”.
[1] Este mito, muito popularizado pelos franciscanos, integra-se no âmbito das transubstanciações miraculosas, tal como a da água em vinho, e, mais do que o seu sentido real, pretenderá significar “ver com os olhos da alma” (“per interines oculos”). Acrescente-se
ainda que a rosa é um simbolo místico muito antigo, retomado, no séc. XVII, pelos Rosacruzes.
jp

16.7.09

SEMPRE NA LINHA

TEMPLÁRIOS REVISITADOS - BREVE ENQUADRAMENTO DA ORDEM

DE SANCHO A DINIS
Com excepção de Afonso III, a empatia entre os monarcas e a Ordem do Templo foi total. No séc. XII, esta foi, sem qualquer dúvida, a ordem militar com mais peso em Portugal.
Os Hospitalários entraram no país em 1118, mas, neste século, não tiveram papel de relevo.
Os primeiros monges da Ordem de Santiago chegam em 1174 e vão desempenhar um papel vital na conquista do Alentejo e do Algarve, no séc. XIII, a partir do reinado de D. Afonso II, sob a liderança do mítico D. Paio Peres. No tempo de D. João II, esta Ordem teve a simpatia do rei e dela saíram grandes capitães, como Bartolomeu Dias, Vasco da Gama, Francisco de Almeida e Afonso de Albuquerque.
A Ordem de Avis, composta inicialmente por freires de Évora, aparece em 1162, mas só virá a ter prestígio no séc. XIV (não esqueçamos que Avis estava ligada à ordem espanhola de Calatrava; talvez esteja aí a origem das desesperadas e frustradas tentativas de fusão das três coroas: Portugal, Castela e Aragão).
Depois de bem pesados os factos, a conclusão é de que a Ordem do Templo foi, de longe, a que maior influência exerceu nos séculos XII e XIII e no início do séc. XIV. Para além dela, só a Ordem de Santiago teve um papel militar relevante na formação de Portugal.

D. Lopo Fernandes sucedeu a Gualdim Pais e esteve sempre ao lado de D. Sancho I. Era tão forte a ligação que D. Sancho tinha com a Ordem, que o rei faz uma carta, datada de 21 de Março de 1210, em que diz que “…se ele quisesse entrar na Ordem, esta o receberia e que, por sua morte, lhe seria entregue o seu corpo, para a Ordem lhe dar sepultura”. E, no seu testamente, faz do então mestre D. Gomes Ramires um dos seus testamenteiros.
Como em toda a Europa, também em Portugal os Templários eram banqueiros e ficaram ligados à emissão da primeira moeda de ouro portuguesa.

D. Pedro Alvites, o mestre seguinte, eleito em 1212, foi o Procurador do Templo nos três reinos: Portugal, Leão e Castela. De facto, com sede em Tomar, os três reinos formaram uma província templária, até 1288.

Em 1217, reinando já D. Afonso II, o Gordo, os Templários colaboram activamente na reconquista de Alcácer do Sal, de cujos despojos nada quiseram. Neste mesmo ano, o papa Honório III emite a bula “Vestris piis postolationibus”, que protege os Templários, concedendo-lhes a possibilidade de edificação de povoações, castelos e igrejas, nas terras conquistadas aos mouros.
D. Afonso II, a exemplo do que fizera D. Sancho, nomeia o mestre templário, Pedro Alvites, seu testamenteiro e depositário dos seus bens, para que os entregasse depois aos seus filhos, quando tivessem idade para os administrar. A confiança é total.
O mestre templário renuncia ao cargo no ano da morte do rei (1223), ascendendo ao mestrado D. Pedro Anes, homem de grande confiança do novo rei, D. Sancho II, mas que morre no ano seguinte. Seguem-se-lhe D. Martim Sanches, que vem também a renunciar em 1229, e D. Estêvão Belmonte, que governa a província por um período de dez anos, durante os quais os Templários colaboram na conquista de Juromenha, Serpa, Aljustrel e Arronches, e D. Guilherme Fulcon, que se supõe tenha sido francês ou alemão.
Em 1243, é D. Martim Martins que ascende ao cargo. Irmão colaço de D. Sancho II (a sua mãe fora ama de leite do rei), é amigo íntimo do monarca.
Numa acção conjunta com a Ordem de Santiago, a sua ajuda é decisiva na conquista do Al-Gharb. Mas não foi só em Portugal que D. Martim Martins ficou célebre: como mestre provincial dos três reinos, colaborou activamente na reconquista levada a cabo pelos reis de Castela e Leão, tendo morrido como um herói no cerco de Sevilha.

Entretanto, desenrolou-se o controverso caso da destituição do rei D. Sancho II, substituído pelo irmão, Afonso III, o Bolonhês, que reina entre 1248 e 1279. Os Templários tinham dado o seu apoio a D. Sancho, o que provocou, a princípio, atritos com o novo monarca.
A pouco e pouco, esses atritos foram-se esbatendo. Os mestres da Ordem eram já outros e D. Afonso III não podia prescindir dos Templários para a consolidação do reino.

Há que ressaltar que, desde D. Sancho II até D. Dinis, inclusive, houve sempre grande conflitualidade com os bispos. Entre outras razões, estes nunca se conformaram com os privilégios da Ordem, no campo eclesiástico (este conflito, aliás, como já vimos, era geral por toda a cristandade).
Por várias vezes, Tomar teve de ser confirmada como “Nullius Diocesis”. Por outro lado, a inveja, quanto ao poder temporal e aos bens dos Templários, era igualmente muito forte.
É neste contexto (e não só, obviamente), que surge, no séc. XIII, a Ordem mendicante dos Franciscanos, que conheceu grande expansão e adesão popular (uma tentativa de “democratização”, face ao elitismo dos Templários? Outro capítulo a investigar…).
Pese embora esta reacção do clero secular, os Templários realizaram muitos acordos amigáveis com os bispos portugueses, mas, inegavelmente, os tempos estavam a mudar, tanto em Portugal, como, principalmente, em França.
Afonso III morre em 1279. Com ele, finalizam-se as conquistas a Sul. A dinastia do Almóadas extingue-se em 1269. Desde então, o território nacional tem permanecido quase inalterado. Passaram-se setecentos anos.
Fotografia: Castelo de Almourol.
jp

O DIA SEGUINTE

Ontem o Mister Linky's pregou a partida. Resolveu bloquear e pedir dinheiro para abrir. O Eduardo teve um trabalhão louco para pescar à mão os participantes. Mesmo assim estamos com 106 contabilizados. A todos pedimos desculpa por essa situação que nos ultrapassou e agradecemos a forma extraordinária como aderiram a esta brincadeira que agora termina. A nova brincadeira será anunciada muito brevemente. Para já aconselho a leitura do texto do Eduardo no "Varal de Ideias".
Imagem de Ricardo Blauth.

O MEU PAI


O meu pai, general do exército na reforma, faleceu no passado 9 de Junho e o funeral foi a 10. Na foto está com 85 anos. O falecimento foi com 87 anos. Aproveitei o fim da Tertúlia para exorcisar alguns fantasnas que ainda me perseguem e agradeço a todos as palavras que me dirigiram. Claro que compreendo ter enganado algumas pessoas. Confesso que, de certa forma, também isso fazia parte da postagem de ontem. Um dia falarei mais do meu pai, cuja carreira profissional é extremamente rica e interessante. Obrigado a todos.

14.7.09

TERTÚLIA VIRTUAL - É A VIDA...

10,30h. O homem apareceu pontual. Gravata preta. Ar untuoso. Todo ele era mesuras. Arrastava um saco enorme. Tirou computador, impressora sem fios e scanner. Abriu o catálogo. A escolha ia ser difícil. “Tem de ser em pau-brasil. Temos este modelo mais barroco ou este mais singelo. Não, este tem mais classe, mas a duração é igual. Damos quinze anos de garantia”. “E como querem os carros? Um para a família e outro para as flores? Pois, é o que eu recomendo, ficam mais à vontade”. “Pomos anúncio em que jornal? Preciso de uma foto. Sim talvez fardado. Tem a chave do jazigo? Tiro já orçamento. Pode assinar aqui…” Telemóvel: “Sim, pois, obrigado. Sim, sim é a vida”. “Capela tratada. A partir das cinco”. “Mãe tens de assinar aqui”… Telemóvel: “Sim, pois, obrigado. Sim, sim é a vida”. “Mas ele não vai fardado?!” “Não, ele não queria ir fardado. O funeral é sem farda. Eu sei porquê, mas não digo”. "As condecorações? Isso pode ser. É um compromisso". Telemóvel: “Sim, pois obrigado. Sim, sim é a vida…” A manhã passa e estou a ficar automático. “A certidão de óbito já está passada. Temos de ir reconhecer o corpo”. “Eu vou!”. Uma cara descomposta. As maxilas apertadas nuns panos sinistros. O corpo enrugado debaixo do lençol. Cabelo desgrenhado. Testa completamente gelada. Telemóvel: “Sim, pois, é a vida”. “Às 14h vimos buscar o corpo. A urna fica aberta? Então temos de dar o nosso tratamento especial. Um produto que evita que os líquidos transbordem e que haja cheiros”. Sim, pois, qualquer coisa, é a vida. O orçamento. Aprova-se sem pestanejar. Escolho o fato. Os sapatos. A gravata. A mãe olha estoicamente. Eu estou cada mais automático. Parece que toda a vida me preparei para fazer aquilo. Muita gente na capela. Cada vez mais. Excursões de velhos que vêem ali o seu destino próximo. Abraços desconhecidos, sentidos, contraídos. “É a vida. Não fica cá ninguém”. Generais. Coronéis. Presidentes… Muita gente. Sou mestre-de-cerimónias. Cumprimento. Levo. Trago. Volto a levar. “É a vida pois, obrigado”. Um tipo que teima em me conhecer desde a mais tenra infância, arrasta-se atrás de mim com rara inoportunidade tentando contar-me as desditas da vida e que o mundo já tem muita gente. Arre! A mãe vai chorando levemente. Ainda não se soltou. Eu ainda não tive tempo de perceber o que é a morte. Só sei que não é a vida… O meu pai foi a enterrar no dia seguinte. Era 10 de Junho, “Dia de Portugal”.
jp

TV RURAL - CABARET MAXIME


Eu vou. Mais um projecto com o meu filho João. Ouçam em www.myspace.com/tvrural

TERTÚLIA VIRTUAL

INSCRIÇÕES JÁ ABRIRAM AQUI. VAMOS BATER O RECORD

13.7.09

TERTÚLIA VIRTUAL - TEMA LIVRE

NÃO SE ESQUEÇA. AS INSCRIÇÕES ABREM AMANHÃ AQUI.

11.7.09

TEMPLÁRIOS REVISITADOS - BREVE ENQUADRAMENTO DA ORDEM

GUALDIM PAIS (CONT.)
Muito poucos poderiam então adivinhar que este acordo seria um marco na história templária em Portugal.
A região de Ceras tinha cerca de 400 km2 e era praticamente desabitada. É aí que vai nascer a cidade templária de Tomar, que, no foro eclesiástico, desde a sua fundação e até ao séc. XVI, dependerá exclusivamente do papa. Era uma chamada Nullius Diocesis. É aí que, em 1160, Gualdim Pais inicia a construção do castelo de Tomar, futuro Convento de Cristo.
A Ordem de Cristou herdou este privilégio e é sintomático que, na fase dos descobrimentos, todas as igrejas de além-mar dependessem, no eclesiástico, de Tomar, ou seja, da ordem herdeira dos Templários.
Com Gualdim Pais e Tomar, os Templários passaram a ser um estado dentro do estado.
Enigmaticamente, o selo de validação utilizado por D. Afonso Henriques na doação da região de Tomar aos Templários (ver figura), constitui um mistério que se presta a várias especulações. Efectivamente, nele se podem ler, consoante os cruzamentos de letras que se façam, as seguintes palavras: Portugal; Portugral; Por tuo Gral; e Gral… Portugal = País do Graal? Escapa-nos o significado profundo, mas era sem dúvida uma mensagem destinada aos Templários.

Gualdim Pais esteve sempre ao lado do rei e quando este, ferido, após a derrota de Badajoz, em 1169, foi obrigado a retirar-se para as termas de Lafões, foi ao mestre Gualdim e aos Templários que confiou a defesa do território.
É igualmente em 1169 que o rei faz uma doação única na história de Portugal: um terço dos territórios que a Ordem conquistar e povoar, a sul do Tejo.
D. Afonso, na altura a recuperar, como se disse, dos ferimentos da batalha, continua a querer fazer progredir o seu projecto de país, para o qual, e no que diz respeito à área, teria já uma ideia muito concreta. Felizmente, a política realista da Ordem exigia a consolidação prévia da linha defensiva do Tejo.
Por isso, para além de incursões esporádicas, de que se ressaltam os casos de Monsaraz e Évora, mantiveram-se no centro do país. E foi a sorte: é que, após a decadência da dinastia almorávida, vieram os Almóadas, que tentaram reconquistar o que os cristãos lhes haviam tomado. Não fora a linha defensiva do Tejo e tudo poderia ter estado perdido.
O príncipe D. Sancho é armado cavaleiro em 1170, em Coimbra. Tinha dezasseis anos e o apoio de Gualdim Pais. A 6 de Dezembro de 1185, com mais de setenta anos, morre D. Afonso Henriques. A seguir ao funeral, D. Sancho é aclamado rei.
Em 1190, D. Gualdim e os seus homens conseguem livrar-se de um terrível cerco, imposto a Tomar pelos Almóadas, comandados por Jacub Almansor. Era a coroa de glória para o velho mestre templário, que, a 13 de Outubro de 1195, deixa este mundo.
Está sepultado em Tomar, na Igreja de Nossa Senhora do Olival, embora, segundo se diz, o seu túmulo esteja vazio…
Na imagem a "charola" do Castelo de Tomar".
jp

TERTÚLIA - MANIFESTAÇÕES


As manifestações continuam por todo o mundo. No entanto, a "Organização" mantém-se irredutível, recusando ceder a pressões de qualquer tipo, com a certeza de que o próximo passatempo será ainda mais divertido. Mas não esqueça de participar nesta última Tertúlia. É A MELHOR FORMA DE PROTESTAR.