Showing posts with label roberto. Show all posts
Showing posts with label roberto. Show all posts
4.3.13
31.1.13
AFINAL NÃO HÁ MORTE
Afinal a morte não existe. Existe apenas ausência. Mas existe também lembrança. As pessoas que amamos continuam a viver dentro de nós. Enquanto continuarmos a pensar nelas, elas existem. E quando nós morrermos alguém vai ficar a pensar em nós. E assim vamos eternizando a vida. Por isso a morte é um estado de alma. Vivemos para além da morte, porque ficamos dentro dos amigos. E os amigos passam a ser nós. Recordar quem morreu pode ser doloroso. Mas, se pensarmos que eles são parte de nós, então estamos a reviver. Mais do que um homenagem, comemorar os mortos é comemorar a nossa vida.
ADEUS FRANCISCO
O Francisco era o mais novo dos três filhos do Roberto e da Cristina. Há mais duas meninas lindas. Conheço o Francisco desde que ele nasceu. Íamos passar férias juntos para a praia da Fábrica (Tavira). Ficávamos nas Solteiras, a caminho da Serra do Caldeirão. Uma casa de aventuras que deu guarida ao grupo durante mais de duas décadas. O Francis, como lhe chamava o Roberto, era o benjamim. Sossegado, observador, discreto. Sempre rodeado de meninas, era feliz dentro de água. Sempre adorou água. Qundo o pai morreu, em 2007, o Francis ia morrendo também, mas de desgosto. Herdou o gosto pela fotografia e cinema. Estava a começar tudo. Curso de cinema, projectos artísticos, uma relação com a Barbára, com quem vivia em Lisboa. Uma vida à sua frente. A morte aos 23 anos não o deixou continuar. Acabou antes de começar. Para nós mais velhos que carregamos dentro de nós um cadáver iminente, já nada é estranho. Apenas injusto e extemporâneo. Mas para os jovens que hoje foram ao velório, havia uma sensação de estupefacção estampada nos rostos. Uma incredulidade, um absurdo, uma sensação de incompreensão total. A tragédia destas mortes precoces é a impreparação total e absoluta. A sensação de que alguém foi impedido de jogar. Que alguém não teve os deuses do seu lado. Que tudo lhe foi negado. Não sei se o Francisco vai ter com o pai. Gostava de acreditar nisso. Se assim fôr, em breve estarei convosco. Guardem-me um lugar. Adeus Francisco.
25.1.13
MACAU - TURISTA OCIDENTAL - EPÍLOGO
Acabámos hoje a nossa viagem por Macau. As fotografias do Roberto Barbosa, tiradas em 1985, guiaram-nos num breve encontro com a História, numa viagem impressionista pelo exótico e desconhecido oriente. O que acabaram de ver, foram as fotografias expostas em Bruxelas (a 3 de Dezembro) e o texto que integra o respectivo catálogo. Estou em negociações para fazer uma exposição semelhante em Lisboa e outra em Macau.
É muito estranho trabalhar com alguém que já morreu. Às vezes penso que se ele estivesse vivo nada disto seria possível. Ele era muito pouco dado a estas "mundanices". Não que fosse uma pessoa reservada ou tímida. Acho que era mais desinteressado. Alguém que não atribuía real valor ao que fazia. Que achava que era absolutamente normal. Que não merecia destaque. Sinto que, de certa forma, o estou eternizar em mim. E isso dá-me uma força extra. Quero aqui realçar o excelente trabalho do Carlos Costa, amigo e colega do Roberto no IADE, sem o qual nada disto teria sido possível.
Fotografia de José Maria T. da Rosa (1985).
É muito estranho trabalhar com alguém que já morreu. Às vezes penso que se ele estivesse vivo nada disto seria possível. Ele era muito pouco dado a estas "mundanices". Não que fosse uma pessoa reservada ou tímida. Acho que era mais desinteressado. Alguém que não atribuía real valor ao que fazia. Que achava que era absolutamente normal. Que não merecia destaque. Sinto que, de certa forma, o estou eternizar em mim. E isso dá-me uma força extra. Quero aqui realçar o excelente trabalho do Carlos Costa, amigo e colega do Roberto no IADE, sem o qual nada disto teria sido possível.
Fotografia de José Maria T. da Rosa (1985).
MACAU - TURISTA OCIDENTAL - XXXIX
E fico eternamente à espera
O autocarro passa. Vejo-a de relance. Aceno desesperado.
Desaparece ao virar a esquina. Um sorriso enigmático deixa em mim uma esperança
pueril. Só podia ser ela. Ter-me-à visto? Sinto em mim a monção que me invade.
Um tsunami que me abala. Um tufão que me destrói. E fico à espera eternamente.
Macau.
24.1.13
MACAU - TURISTA OCIDENTAL - XXXVIII
A pérola mais preciosa
A transferência da soberania de Macau entre Portugal e a
China aconteceu a 20 de Dezembro de 1999. Macau reencontrou o seu destino. A
economia de Macau reforçou-se, assente no turismo e no jogo. Hoje, reconhecer
esse Macau antigo é uma tarefa quase arqueológica. Macau, mais do que um sítio,
é um conceito. Um conceito que vive na diáspora de si própria. Um Oriente que
esconde a sua pérola mais preciosa.
MACAU - TURISTA OCIDENTAL - XXXVII
Vim para ficar
Já nada quero. Já nada existe. Acho que já não sou. Talvez
tenha perdido a razão. Deambulo pela cidade ao som de música celestial. Falo
sem falar. Entendo sem entender. Vejo sem ver. Os deuses sopram em mim como
vela sem pano. A neblina já não assusta. Deixei de ter calor. O mar fala comigo
das tempestades que me assolam. Vim para ficar. Ela é o caminho.
23.1.13
MACAU - TURISTA OCIDENTAL - XXXVI
A violência acabou
A violência acabou. A repressão amainou. Começou a pressão
política. Exigências pesadas e inegociáveis do lado chinês. Em Lisboa, Salazar
não tomava posição. Finalmente, a 29 de Janeiro de 1967, o Governo de Macau e
as autoridades chinesas chegam a acordo. Evitou-se uma sublevação generalizada,
mas ficou claro que Portugal apenas estaria em Macau enquanto a China quisesse.
20.1.13
MACAU - TURISTA OCIDENTAL - XXXV
Uma insónia sem angústia
Um sono milenar apodera-se de mim. Como se nunca tivesse
dormido. Uma vida sem sonhos. Uma insónia sem angústia. Quero fugir e já não
posso. E ficando sinto que não mais acordarei. Do outro lado há um mundo de vertigem.
Uma vertigem que eu não domino. E durmo… durmo. E sonho… sonho.
MACAU - TURISTA OCIDENTAL - XXXIV
Nunca mais seria o mesmo
No dia 3 de Dezembro de 1966, os manifestantes invadiram o
Largo do Leal Senado gritando empunhando o Livro Vermelho. Grupos dirigiram-se
à esquadra da polícia, com evidente intenção de a tomar de assalto. A polícia
abriu fogo. A confusão generalizou-se à cidade inteira. Em dois dias de
convulsão social houve 8 mortos e 200 feridos, todos chineses. O futuro de
Macau nunca mais seria o mesmo.
19.1.13
MACAU - TURISTA OCIDENTAL - XXXIII
A vida quer mais do que eu
Equilíbrio instável. Vertigem permanente. Fico preso na
neblina que me rodeia. Bambu resiliente. Resisto sem querer. Resisto porque a
vida quer. A vida quer mais do que eu. Passa gente que não me vê. Espero que
ela olhe. Espero que ela olhe e me veja. Estou sem destino. Aguardo um sinal.
18.1.13
MACAU - TURISTA OCIDENTAL - XXXII
Começou num incidente
Tudo começou num incidente irrelevante. Uma licença para uma
escola popular que tardava em ser concedida. As autoridades portuguesas agiram
com violência desproporcionada. A imprensa chinesa amplificou. Os protestos
cresceram. As manifestações sucederam-se. O governo de Macau ficou debaixo de
fogo, esqueceu o diálogo e a diplomacia. As tensões exacerbaram-se. As posições
extremaram-se.
17.1.13
MACAU - TURISTA OCIDENTAL - XXXI
A morte enfrenta-se de barriga cheia
Tudo se come. Tudo se bebe. Come-se com avidez. Com
voracidade. Como se a vida fosse acabar hoje. Como se tivéssemos de sair a
correr. A morte enfrenta-se de barriga cheia. O nosso lugar na terra marca a
nossa hierarquia no céu. Da matéria se fará espírito. Os deuses aprovam. Os
homens agradecem.
MACAU - TURISTA OCIDENTAL - XXX
Guardas Vermelhos
Nesse ano de 1966 a Revolução Cultural chegou a Macau. Chegou
sem que as autoridades portuguesas se tivessem apercebido. Mais do que um
protesto contra os portugueses, mais do que a intenção de integrar Macau na
China, os incidentes visavam mostrar a Mao-Tsé-tung que Macau também era
revolucionário. Macau tinha de ter os seus Guardas Vermelhos.
16.1.13
MACAU - TURISTA OCIDENTAL - XXIX
A porta era eu
A porta era eu. A minha única fronteira. Homens seculares.
Desejos ancestrais. Caracteres indefiníveis. Quero ser o bule. Quero ser o chá.
Quero ler as mensagens indecifráveis que me confundem. Quero entrar naquele
mundo que me perturba. Quero devorar o desejo que me persegue. Cada vez estou
mais dentro. Cada vez me sinto mais fora.
15.1.13
MACAU - TURISTA OCIDENTAL - XXVIII
À beira de se perder
Em 1966, Macau esteve à beira de se perder. A inexistência de
um canal diplomático com a China potenciou o aparecimento de figuras
importantes de Macau arvorando-se em intermediários. Portugal ficou dependente
desses contactos. Para agravar a situação, foram toleradas em Macau actividades
de associações e de agentes ligados ao governo nacionalista da Formosa.
14.1.13
MACAU - TURISTA OCIDENTAL - XXVII
Chá fervendo
Hesito. Gente que fala sem parar. Palavras que não entendo.
Respira-se um ar que não conheço. Homens sentados. Chá fervendo. Conversas
quotidianas. Frases soltas. Expressões mudas. Sorrisos herméticos. Tabaco.
Fumo. Cheiro antigo. Odor ancestral. Entro sem saber. Fico sem querer.
13.1.13
MACAU - TURISTA OCIDENTAL - XXVI
A presença portuguesa
A presença portuguesa era consentida de acordo com os
interesses da China. Macau foi sempre um território chinês sob administração
portuguesa. O principal erro político de Portugal foi não ter reconhecido o
governo da República Popular da China, após a proclamação de 1 de Outubro de
1949.
12.1.13
MACAU - TURISTA OCIDENTAL - XXV
Venho de parte incerta.
Olhos oblíquos. Portas entreabertas. Sorrisos tímidos.
Buracos negros de curiosidade. Estou naquele mundo sem lá viver. Sou
estrangeiro. Venho de parte incerta. Vou para não sei onde. Parei aqui e daqui
não consigo sair. À medida que avanço sou já estrangeiro de mim próprio.
11.1.13
MACAU - TURISTA OCIDENTAL - XXIV
Macau transforma-se.
A partir de 1944, apesar das restrições ao comércio
internacional de ouro, Macau não é incluído na lista de territórios abrangidos
pelas limitações. Macau transforma-se num dos principais centros mundiais de
comércio de ouro. Depois de 1952, Macau viu reforçado o seu papel na entrada de
bens estratégicos para a República Popular da China. Uma excepção ao embargo
internacional.
Subscribe to:
Comments (Atom)



















