29.3.15

HERBERTO HELDER (1930 - 2015)

queria fechar-se inteiro num poema
lavrado em língua ao mesmo tempo plana e plena
poema enfim onde coubessem os dez dedos
desde a roca ao fuso
para lá dentro ficar escrito direito e esquerdo
quero eu dizer: todo
vivo moribundo morto
a sombra dos elementos por cima

HERBERTO HELDER - RETRATO EM MOVIMENTO

Morreu esta semana um dos maiores poetas contemporâneos de língua portuguesa. Morreu como viveu, recusando homenagens e tributos. Agora, depois de morto, vai ser divulgado e em breve estará ao lado de Pessoa, nesse mundo imortal da poesia intemporal. Descobri cá por casa esse precioso livrinho editado em 1967. Uma peça de colecção absoluta. Deixo-vos o texto introdutório. Não tenham preguiça de ler. Nem tudo é instantâneo:
Quando se caminha para a frente ou para trás, ao longo dos dicionários, vai-se desembocar na palavre Terror. É um sítio fechado, eriçado, anfractuoso - extremamente difícil para os pés e mãos. O vocábulo. O vocábulo, entretanto, é apenas uma compressão violenta, síntese à entrada de um texto que se multiplica por dentro, sem crescer, cruzado insensatamente por túneis, corredores e caminhos de pronúncia áspera. Está sobrecarregado de máquinas inteligentes - relegadas, por intencional inclinação de sentido, para uma malícia próxima dos ramos de cores, dos animais sumptuosos e das estrelas que não andam. Os motores fervem. Não há riquezas: petróleo, trigo, topázios. É difícil viver aqui, respirar, mexer os dedos ao pé da respiração, olhar junto ao movimento do corpo, ter uma corpo no meio da sombra, um nome com a sua luz própria na dilatação obscura dos nomes. Contudo é preciso viver, tem de se andar para trás ou para a frente, porque há o fermento no corpo, o sangue, a irradiação dita pernas e braços, é-se bípede, quadrúpede, miriápode - vem-se dar sempre a este sítio que devorou a rosa cardeal.

22.3.15

VILA ROMANA DE SÃO CUCUFATE (VIDIGUEIRA)


A Vila romana de São Cucufate é um conjunto de ruínas do século I d.C. em Vila de Frades, perto da Vidigueira. Este sítio arqueológico reúne vestígios de termas, jardim e um templo, posteriormente adaptado ao culto cristão: o convento dedicado a São Cucufate, um mártir executado em 304 na actual Catalunha.
No século II é feita uma segunda edificação e a casa terá sido refeita no século IV para dar origem a uma vila palaciana, cujas ruínas monumentais permanecem hoje, supondo-se que terá sido uma próspera casa agrícola. 


Próximo do local original de entrada na vila, na sua frente, surge um templo dedicado a divindades não identificadas, com características semelhantes às do templo das ruinas romanas de Milreu, em Estói, perto de Faro. No século V o edifício foi convertido ao culto cristão.
Subsistem vestígios de um jardim com um tanque de pedra que poderá ter sido utilizado como piscina, um hábito comum numa região quente. Da vila permanecem dois corpos laterais com contrafortes, unidos por arcadas, sustentando um andar superior (hoje desaparecido) que terá albergado a zona residencial. A entrada dos fazia-se por três escadarias que davam acesso a uma zona elevada descoberta, e que se prolongava por uma área coberta por uma abóbada de que se vislumbram alguns vestígios.
 

No interior da construção surgem salas abobadadas que teriam servido para armazenar talhas destinadas de vinho e ao azeite, produtos agrícolas da região, valorizados pelos romanos.
Ao piso superior - a zona nobre - acedia-se por uma escada íngreme que contrasta com a grandiosidade do edifício, que faria acesso a uma varanda, correndo ao longo da fachada. Nas traseiras, vislumbra-se outro tanque. Da segunda construção (século II) foram conservados o triclínio, uma sala de refeições romana, com três leitos em volta de uma mesa, com um pavimento róseo.
Das termas subsiste a sua arquitectura com as canalizações em pedra que levavam a água as zonas do frigidário, bem como os arcos nas zonas das fornalhas que aqueciam o tepidário e o caldário. A norte desta zona termal são visíveis os muros que delimitavam a área de trabalho da propriedade, com os aposentos para criados ou escravos que se ocupavam da agricultura e um lagar.

19.3.15

HÁ QUEM FAÇA HOJE 65 ANOS

Que os anos passem não me preocupa. Preocupa-me que os anos faltem. Faltem para nos continuarmos a amar.

17.3.15

EU BEM ME PARECIA

O ex-primeiro-ministro italiano Sílvio Berlusconi conta que o dinheiro com que manteve economicamente durante vários anos as mulheres que participavam nas festas que organizava correspondeu a uma iniciativa pessoal, "generosa e altruísta".
Foi desta forma que Berlusconi descreveu através de cartas enviadas a cada uma das cerca de vinte jovens, em dezembro de 2013, para lhes explicar que os advogados recomendavam o cancelamento do envio de dinheiro.
Ler mais: http://visao.sapo.pt/silvio-berlusconi-diz-que-foi-por-altruismo-que-pagou-a-mulheres-que-iam-a-festas=f813589#ixzz3UfYVgnpB

15.3.15

ALMOÇO TRANSMONTANO






 

 Comecem com butelo com casula e entremeada.  O butelo é um enchido feito com os ossi­nhos do espi­nhaço e das cos­te­li­nhas do porco, com alguma carne agar­rada, e rode­ado pela bexiga ou bucho do ani­mal. Dizem que de cada porco não se con­se­guem fazer mais do que dois ou três bute­los. Coze durante cerca de duas horas, nunca deixando os ossos romper a pele. As casulas (ou cascas) são feijão colhido ainda na vagem, seca-se ao sol e guarda-se em saquinhos de pano depois de bem secas. De véspera, as cascas ficam de molho. No dia seguinte cozem-se com sal durante duas horas (na panela de pressão 45mn). Acabe-se com um bom Terrincho Velho, um queijo curado a 90 ou mais dias, de pasta dura, com alguns olhos, amarelado, crosta de cor vermelha, obtido por ser untado com colorau ou massa de pimentão. Regue-se tudo com tinto de Montes Ermos, de Freixo de Espada à Cinta, e espere-se pelo resultado... 
 

11.3.15

INOPINADAMENTE

Ando um pouco inopinado. Inopido-me com facilidade. Detesto que me inopidem sem avisar. Detesto o supetão que surpreende. Inopidar-se é um estado de espírito e estou cada vez mais inopinado. Mas que eu me inopide é uma coisa. Mas há quem inopode.

4.3.15

AMIZADE

A amizade é um bem precioso. Nem sempre a sabemos manter. Há equívocos que se geram e que a passagem do tempo não ajuda a resolver. Começamos a empreender e a cismar. Qualquer coisa que passe uma semana sem ser resolvida é fatal. A partir daí, o equívoco é aumentado pela nossa teimosia, pela nossa imaginação, pela nossa mágoa. Aumentado pela sensação de que fomos ofendidos, preteridos. A intimidade não se perde, mas perde-se a vontade de a ter. Às vezes são pequenas coisas que se resolveriam com um simples pedido de desculpas. Outras vezes são apenas falta de sensibilidade. Muitas vezes serão meramente falta de percepção do erro. Porém, a maioria das vezes são total inépcia social. Falta de humildade e incapacidade de dizer "errei". Só que o tempo passa e o tempo não ajuda. Uma desculpa que se devia pedir hoje, amanhã fica mais difícil de pedir e ainda mais de perdoar. A amizade é um bem precioso. Um bem inestimável que se deve preservar acima de tudo. Muitas vezes exige esforço, capacidade de encaixe, compreensão e tolerância.  Mas como tudo na vida, tem um timing para ser demonstrado. Se percebemos que não estamos confortáveis com o outro, não devemos esperar que o tempo mate o assunto, porque não mata. Aumenta o problema. Devemos encará-lo de frente e rapidamente, antes que um incidente se transforme numa tempestade e que a amizade se transforme em indiferença magoada. Este é o contributo que posso dar para todos aqueles que caíram na "armadilha da amizade": não deixem que os equívocos tomem conta da relação. Insistam em os resolver logo.