Uma letra de pernas altas. Movimenta-se com à vontade em todo o vocabulário. Começa, acaba, vem no meio. Não gosta de "v". É alérgica ao "s". Segura o "p" e o "b". Vai com todas as vogais. Com "a" é mãe. Com "u" muge. Com "i" até mia. "M" é letra de Myra. De adMira. De adMirável. Mira-se porque sim. AdMira-se porque se gosta.
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22.4.13
4.3.13
ABECEDÁRIO DE MYRA - L
O "L" é uma letra perturbadora. Serve para pouco e chateia muito. Um som difícil e traumatizante. Uma letra que se não fosse dita, ninguém reparava. E, no entanto, está por todo o lado. Fla, fle, fli, flo, flu; bla, ble, bli, blo, blu... Quinze minutos por dia. Terapia da fala, exercícios, grupos de ajuda, apoio psicológico. É isto que o "L" nos dá. Coitados dos japoneses e dos chineses, nunca saberão distinguir o "l" do "r". No Facebook há "Clubes de Pessoas Que Não Dizem o L", nas quais me incluo. Na Polónia "l" é "w". No Brasil é "u". Não é anel, é aneu. Acima de tudo nunca peçam "lulas com clareto Lello".
18.2.13
ABECEDÁRIO DE MYRA - K
O "k" é impositivo, pretencioso e inútil. Muito quadrado, muito rectilíneo. O "k" é germanófilo, quase nazi. Os países latinos modificam-lhe o visual. Introduzem-lhe curvas sonoras. "Kaiser" é "César". "Que" não é "k". O Twitter deu-lhe nova vida no absurdo redux da abreviatura escrita. A verdade é que o "k" não entra na redacção de coisa alguma. É uma não-letra.
13.2.13
ABECEDÁRIO DE MYRA - J
"J" é o som que falta quando tudo se acaba. Parece surdo, quase mudo, mas é um "jota". Invade as vogais. Repele as consoantes. Uma letra promiscua que se enrola no "a", penetra o "o", afaga o "u" e se roça no "e". Só o "i" lhe escapa. É ao "g" que fica a missão de tratar com o implacável "i". Um "j" sabe o quer. Cresce na proporção da sua vontade. Esconde-se na subtileza da sua vaidade.
11.2.13
ABECEDÁRIO DE MYRA - I
iiiiii..... uma letra aguda. Tão aguda que se instala no feed-back do ouvido interno e assobia no eco da nossa existência. O "i" mantém-se para além da nossa vontade. Depois do som acabar, depois de tudo se calar, o "i" permanece como som primordial. Chega a incomodar. Impõe-se sempre que aparece. Não é muda, nem surda. Uma letra irritantemente constante. Sintomaticamente presente. Até o "e" quer ser "i" só para se deixar ouvir. Si-mi-vim-semi-ti-mim-pi-vi-mi-sim.
10.12.12
ABECEDÁRIO DE MYRA - H
O "H" não existe. Aspira-se. Engole-se. Desaparece na exalação da frase. No suspiro da palavra. "H" é letra que não se lê. Uma letra elegante e diletante. Uma oralidade exigente. Uma escrita sofisticada. Precisa do "n" ou do "c" para soar a qualquer coisa. Uma letra "blasé" que tanto podia ser como não e cuja existência é um problema de consciência fonética. Hão-de ver. Há-de de ser. Haverá de haver.
1.12.12
ABECEDÁRIO DE MYRA - G
Uma letra gulosa e exibicionista. Gosta de aparecer. De estar por todo o lado. Apropria-se do "j" e lê-se "gente". Agarra-se ao "i" e fica "giro". Às vezes precisa do "u" para ser "guerra". Com "a" mia "gato". Com "o" mete "golo". Uma fonética flexível que lhe garante a sobrevivência no alfabeto. O "j" que se cuide ou ainda perde o "jeito".
26.11.12
ABECEDÁRIO DE MYRA - F
Apesar da sua provável origem fenícia, o “f” demorou para se
afirmar. Ainda há bem pouco tempo era “ph”. Só por força de Acordos
Ortográficos o “f” viu a sua personalidade reconhecida. Talvez por isso, o “f” se
impôs como letra perigosa e matreira, sempre pronta a resvalar para a asneira. Qualquer deslize e o “f” vira “fuck” e de “fuck” em “fuck” acaba por ficar tudo
lixado. E, no entanto, as suas funções terapêuticas são reconhecidas por todos.
Quem não gosta de desabafar com “f”? E o bem que isso nos faz? Uma letra escatológica que acaba no Fim.
23.11.12
ABECEDÁRIO DE MYRA - E
Uma letra ambígua: "é" ou "e"? "É" de ser. "E" de qualquer coisa. Ora se afirma peremptoriamente. Ora não passa de uma copulativa inconsciente. "É" por que sim. "E" porque tanto faz. Quando surge isolada é uma letra sem peso. Um "e" sozinho podia perfeitamente ser substituído por uma vírgula. O "e" tem a sua força nas coligações que faz. Vive ao centro do abecedário. Alia-se à esquerda ou à direita. Disputa os ditongos ao "a". Uma saudável rivalidade que gera alternância fonética. "Eu" não seria nada sem o "e", mas é o "u" que marca a personalidade. Uma letra fraca que faz fortes alianças.
15.11.12
ABECEDÁRIO DE MYRA - D
Divino. Deus. Dante. Dor. Dedo. Dado. Uma letra que despreza consoantes
e aconchega vogais. Adora reinar sozinha. Uma letra eloquente e imperial. Vale
por si própria. Detesta ajudas. Impõe-se no abecedário como um comando
definitivo. Uma letra forte e imperativa.
14.11.12
ABECEDÁRIO DE MYRA - C
Uma letra irrequieta e indecisa. Uma letra complexada. Falhou
o círculo. Ficou aberta na indefinição. Pode ser tudo ou nada. Umas vezes é “q”
outras “k”. Com cedilha fica “s”. Às vezes gosta de se juntar em “cç”. Com
facilidade agarra o “ch”. Nunca sabemos quando é “ss”. Uma letra difícil.
Diverte-se com os nossos erros. Ri-se das nossas asneiras. Uma letra
irresponsável. Mutante sem escrúpulos. Uma letra traumatizada que não sabe
o quer.
13.11.12
ABECEDÁRIO DE MYRA - B
Bota. Baba. Bela. Barro que sustenta. Barco que navega.
Batalha que se vence. No início tem força. Parece uma letra determinada. Quase
irresistível. Arrasta vogais. Puxa o “r”. Arranca o “t”. De repente fica sem
força. Quase inerte. Carece de apoio. O “m” vem em socorro. E o “b” fica em
dívida. Um “b” é um “v” que deixou de ser boi.
ABECEDÁRIO DE MYRA - A
12.11.12
O ABECEDÁRIO DE MYRA
"A história de alguém que viveu muito, viveu intensamente, viveu perigosamente e, felizmente, ainda está aqui entre nós. Continua a pintar e está mais lúcida do que eu. Quem é Myra Landau? Pintora. Escritora. Aventureira. Amante. Amada. Mãe. Avó… Myra é tudo isso e muito mais. Myra fala seis línguas diferentes. Nasceu na Roménia. Estudou em França e Inglaterra. Passou por Portugal em fuga desordenada dos nazis. Rumou ao Brasil. Corria o ano de 1941. Deslumbrou-se com a visão da Baía de Guanabara. O Rio de Janeiro seria a sua casa na próxima década. Empenhou-se em causas. Na luta política. Conheceu filósofos, políticos, homens de letras. Em 1947 decidiu estudar jornalismo. Seguiu para Nova Iorque. Inscreveu-se num curso de John dos Passos. Não teve coragem. Acabou a frequentar um outro curso de Erich Fromm, perdida num enorme anfiteatro, rodeada de gente neurótica como ela. Escondia-se de todos. Achava-se feia. Com um nariz grande. Refugiava-se por trás de grossas lentes que lhe rodeavam os olhos hipnóticos. Ela não sabia ainda quem era. Ou melhor, não queria saber…"
Foi assim que comecei a pequena biografia de Myra Landau, em Junho de 2010. Myra está agora a residir em Jerusálem e continua em busca das formas e das cores. Talvez tenha iniciado uma nova fase artística. Ainda é cedo para o afirmarmos com segurança. A partir de hoje vamos começar uma série baseada nos seus últimos trabalhos: O "Abecedário de Myra". A pintura é dela, os textos são meus.
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