28.2.14

CANATO DA CRIMEIA

O Canato da Crimeia foi um Estado tártaro que existiu entre 1441 a 1783. Além da península da Crimeia, também abrangia algumas áreas do sul da Ucrânia e do sudoeste da Rússia. Fazia fronteira ao norte com a Polônia-Lituânia, ao sul com o mar Negro, ao leste com o mar de Azov e a Moscóvia e a oeste com os principados da Valáquia. Foi o Estado sucessor da Horda de Ouro (e por tabela do Império Mongol), existindo até menos de 10 anos antes da Revolução Francesa.

27.2.14

PACO DE LUCÍA

 

Foto de Roberto Barbosa (1981 - Coliseu de Lisboa)

25.2.14

SELFIE COM TODOS

Selfies conduzem a epidemias de piolhos e lêndeas (Exame Informática)
As selfies, a palavra do ano para a Time, surgem aos milhares por segundo. Mas a tendência de juntar as cabeças para tirar uma fotografia tem vindo a facilitar a propagação de piolhos e lêndeas

O QUE É A IMAGINAÇÃO?


Hoje estava sem imaginação. Talvez por ter jantado demais. Talvez porque era um dia comemorativo. A imaginação não vem quando se quer. Aliás, o que é a imaginação e para que serve? Para entreter os amigos? Para fazer umas "flores" no FB? Imaginem-se sem imaginação... Conseguem comunicar? Conseguem dizer coisas sem se sentirem banais? E temos de ser não-banais ou devemos andar todos a dizer o mesmo partilhando os likes mais virais? Porque estamos aqui a comunicar, atirando ideias de encontro à parede? Porque estamos sozinhos? Porque temos o vício de conversar?... Hoje estou sem imaginação. Deixo-vos com a sensação de não ter cumprido o meu dever. De não ter postado a foto diária. Enfim, sinto-me frustrado.

22.2.14

UKRANIA - GUERRA URBANA




 
Fotos de Anatoli Stepanov, Sergei Grits e Vlad Sode.

ELOGIO AOS FILHOS ÚNICOS


Ser filho único de uma família pequena tem as suas vantagens. Somos mimados sem escrúpulos ou invejas, não temos que repartir afectos, nem dar lições aos mais novos ou receber lições dos mais velhos. Podemos exibirmos à vontade que todos acham graça e não temos a difícil tarefa de nos impor no seio da própria família. Ficamos, assim, mais disponíveis para "atacar o mercado externo". Se tivermos um mínimo de inteligência, acabamos por perceber que "isto não é tudo nosso" e moderamos a nosso egocentrismo. Aliás, esse egocentrismo já está implícito na nossa qualidade de filhos únicos e nem carece de se afirmar, contrariamente a filhos de famílias grandes que carecem desesperadamente de afirmação. Uma outra vantagem: a herança é toda nossa. Desvantagens: libertarmo-nos das mães excessivas; estarmos totalmente sozinhos sempre que há dificuldades ou momentos críticos na família.

20.2.14

AS ANÁLISES

Durante metade da nossa vida andamos a dar cabo da saúde. Na outra metade tentamos recuperá-la, quando já nada há a fazer. Comemos tudo o que está ao nosso alcance, bebemos até rebentar. Depois acabamos a cortar no sal, nos açúcares, nas gorduras... Temos de comer verduras e fruta como um qualquer vulgar herbívoro. E é precisamente com a idade que cada vez mais a vida social se faz à volta da mesa. Tudo é pretexto para uma refeição. Os encontros com amigos ou família são ao almoço ou jantar. E aí começam as limitações. A idade não perdoa. A idade é feita de colesterol e de imensas transaminases, sempre à beira dos diabetes. Há quem considere as dietas um mal necessário. A verdade é que nós não gostamos de dietas e as dietas não gostam de nós. Como conseguimos estar com os amigos sem estar a petiscar? Quanto tempo aguentamos à mesa a bebericar copos de água?

6.2.14

TAMBÉM TENHO UM MIRÓ

Eu também tenho um Miró. Uma série de borrões mais ou menos coloridos que valem uma pipa de massa. Estava a pensar vender esta coisa a que chamam pintura. A crise e as almoçaradas impõem um aumento de receitas para poder continuar a desbundar. Eis que me deparo com a Oposição Parlamentar, o Ministério Público e a esmagadora maioria da "opinião pública". Todos acham que devo manter o Miró mesmo que deixe de comer lampreia, lagosta e fios de ovos com ameixas de Elvas. Opõe-se à venda porque é património cultural. Providências cautelares. Acções principais. Até invocam a doutrina cristã da "hipoteca social". Pior, querem que eu exiba o meu Miró num qualquer museu criado para aumentar despesas. Nunca percebi o que dá valor à arte. Há arte protegida e arte desprotegida? Arte que se pode vender e outra não? Porquê? Quem define? O mercado? Então só depois de o mercado querer comprar é que se sabe o valor? E só depois de se saber o valor é que não se pode vender? 

MEDIOCRACIA

Felizmente quase todos nós somos medíocres. Nada irrita mais do que um génio. Depois de morto ainda vá. Em vida é um verdadeiro atentado à normalidade e à paz social. Um Picasso, um Dali, um Van Gogh só servem para nos rebaixar e aumentar a frustração. Nos negócios ainda é pior. Empreendedorismo, inovação, iniciativa... tudo conceitos fatigantes. Nada melhor do que receber ordens. Ter patrões. Não ter de pensar muito. Nada melhor do que pintar mal e os amigos elogiarem imenso. Nada melhor do que escrever qualquer coisita e ser muito apreciado. A vida é medíocre. Os génios são uns chatos. Bem vindos à mediocracia.

5.2.14

POST IT

Para gaudeo de todos a Operação Cação chegou ao fim. Para os que leram e para os que não leram. Não tinha consciência de que era tão grande. O conto foi publicado no livro colectivo Manjar Branco/Um Novo Caso, produzido pela editora Piacaba.
Foi de facto demasiado tempo. Um tempo precioso para acabar o meu novo livro. Vai-se chamar "Post It" e reúne uma selecção de textos desde o princípio do blogue (2007), ligeiramente revistos e melhorados. Vai contar com um precioso prefácio do Eduardo Lunnardelli. O lançamento será lá para Junho. Depois aviso...

OPERAÇÃO CAÇÃO - XXXX (FIM)

 
                                      

Valdemar tinha engendrado um plano simples. Durante a tarde compraria uma faca de ponta em mola no mercado ilegal. Comprar armas era a sua especialidade, não haveria de ter problemas. Depois do jantar dariam um passeio pela beira da água. Talvez com o pretexto de lhe contar umas confidências sobre o que ele tinha vindo fazer a Macau, Valdemar aproximar-se-ia e apunhalaria Moema. O corpo seria empurrado para o rio. Quando encontrassem o cadáver, se o encontrassem, já ele estaria no ar. O voo de regresso a São Paulo estava marcado para sete da manhã do dia seguinte. Moema, porém, previra tudo isto. Por trinta mil patacas tinha já comprado uma “baby gun” no Bairro da Areia Preta, ali perto das Portas do Cerco. A Baby Glock era uma arma que cabia na palma da mão e de uma eficácia espantosa. Escondia-se facilmente. Pesava pouco e era de manuseio muito simples. Moema desconfiava que ele iria tentar esfaqueá-la. Era o processo mais silencioso. Para isso precisava de se aproximar. Não o faria durante o jantar. Só poderia ser depois. Talvez a convidasse para um passeio à beira-rio. Durante o jantar falaram de banalidades. Coisas sem relevância. Provavelmente tudo mentiras. Enquanto Valdemar pagava a conta, Moema foi ao “toilette”. Mudou a pistola da pequena carteira para o bolso direito das calças. Cá fora fazia um calor húmido. Uma neblina intensa tornava a paisagem opaca. Valdemar conduziu Moema para longe da zona de restaurantes. Moema deixou-se conduzir. Valdemar foi-se aproximando. Moema agarrou a pistola dentro do bolso. Valdemar fez deslizar a lâmina da faca. Moema destravou a arma. Valdemar aproximou-se ainda mais. Moema estava totalmente alerta. Valdemar, praticamente encostado a Moema, segredou-lhe: “É pena, porque você faz o meu género”. Desferiu uma violenta punhalada direita ao coração, ao mesmo tempo que recebia o impacto de uma bala na cabeça. Os dois corpos caíram como fuzilados por um raio. Ficaram ali no chão, retorcidos, despojados de vida, admirados da morte. Foram encontrados pelas duas da manhã. As autoridades policiais de Macau, numa avaliação muito preliminar, atribuíram o caso a um desentendimento passional. Só depois de perceberem que o passaporte de Valdemar era falso e que Moema era da polícia brasileira, começaram a explorar outras pistas.
Em Lagos, “o Gordo” culpava-se da morte de Moema. Em Bruxelas, a acusação contra a “Irmandade Branca” sofria um importante revês. Em Marselha, um ex-etarra levantava uma encomenda clandestina no porto e seguia para um discreto abrigo na Camargue. Daí sairia para Espanha pela fronteira de Portbou. No dia 27 de Setembro estaria em Granada, em visita à Capela Real
FIM

CONTENTORES NÃO (TRAFARIA)

Este era o antigo Cine Teatro da Trafaria, uma povoação da margem sul de Lisboa. Uma povoação com tradições que se está a desfazer, fruto da desertificação e de planos obras para a orla ribeirinha. Agora querem lá meter mais contentores (para lá daqueles silos horrorosos que desfeiam o rio e a vista de Lisboa). Sou contra.

4.2.14

OPERAÇÃO CAÇÃO - XXXIX


Moema estava com um problema. O pedido de ajuda que tinha feito às autoridades de Macau não tinha tido ainda resposta. E isso, naquelas paragens, significava que estava por conta própria. Talvez se tivesse precipitado. Um excesso de voluntarismo que já lhe tinha valido a alcunha de “Furacão”. Mesmo assim, Moema decidira avançar. Tinha jogado tudo na confrontação de Valdemar com uma série de meras suposições. Mas ela sabia que acertara em cheio. A expressão de Valdemar durante o pequeno-almoço dizia tudo. Ele sabia que ela sabia, mas não sabia exactamente o que ela sabia. O próximo passo seria dele. Moema esperava agora uma tentativa de assassinato. Era nisso que ela jogava. Uma jogada de risco. Esperava conseguir prender Valdemar no acto de a tentar assassinar. Assim, as autoridades de Macau não poderiam deixar de intervir. Não estranhou, por isso, que quando Valdemar chegou à mesa com os dois croissants com queijo, a sua fisionomia estivesse completamente recomposta. Menos estranhou que, minutos depois, a convidasse para jantar naquela noite.  O jantar foi no restaurante “Camões”, na Doca dos Pescadores, uma zona de bares e restaurantes no estuário do rio das Pérolas.
Fotografia de Roberto Barbosa
(Continua)

3.2.14

FARTO DE FRIO


OPERAÇÃO CAÇÃO - XXXVIII


Eram seis da manhã quando a polícia de Bruxelas invadiu o apartamento de Michel. Ao mesmo tempo, os restantes líderes belgas da “Irmandade Branca” eram detidos nas suas casas. Jean-Baptiste Lefèvre era preso num hotel de Bordéus. A identificação do número de telefone de Michel, depois da mensagem de Macau recebida de Valdemar, mais as provas circunstanciais recolhidas pela equipa do inspector Joaquim Ribeiro, foram suficientes para lançar um mandado internacional. A “Irmandade Branca” há muito que era considerada perigosa e estava vigiada. No entanto, talvez por cumplicidades e simpatias dentro da polícia e da magistratura, sempre saía ilibada das acusações que lhe imputavam. Aliás, a ideia de uma “nova cruzada” contra a crescente influência islâmica na Europa, em especial na França, tinha cada vez mais adeptos. Mas, agora, a questão era mais séria. Um atentado. Mortos. Feridos. Destruição... Nem as simpatias políticas ou policiais mais poderosas os podiam salvar. Curiosamente, ao serem descobertas as intenções da “Irmandade”, todo este esforço para desacreditar o Islão acabava por funcionar completamente ao contrário. Lamentavelmente, os grupos de poder islâmicos sediados na Europa podiam comemorar. Paradoxalmente, a Al-Qaeda saía a ganhar sem ter mexido uma palha. Faltava, no entanto, uma prova concludente para acusar a “Irmandade Branca”. Ou a confissão dos arguidos, ou a ligação ao autor directo do atentado, ou a ligação à compra de explosivos. Com Melzek morto e não se acreditando na possibilidade de confissão dos arguidos, restava a ligação à compra dos explosivos. E essa ligação chamava-se Valdemar.
(Continua)

2.2.14

ELEVADOR DO LAVRA




OPERAÇÃO CAÇÃO - XXXVII


Valdemar levantou-se tarde. Eram quase dez horas da manhã. Estava vagamente de ressaca, depois de uma noite de sexo e champanhe. O jet leg ainda lhe baralhava os fusos horários. Tropeçou até à sala de refeições. Numa mesa isolada a um canto da sala estava Moema, acabando o pequeno-almoço. Valdemar tinha a sensação de já a ter visto em qualquer lado. Teria vindo no avião? Seria actriz de cinema? Era uma mulheraça. Grande. Imponente. Vistosa. Valdemar adorava aquele ar decidido, quase militar. A boca expressiva. O cabelo arruivado. Peitos sólidos. Tudo na mulher era atraente. Valdemar sentia-se com sorte. Resolveu arriscar. Dirigiu-se à mesa dela e perguntou em inglês: “Posso-me sentar?”. Estranhou a resposta vir em português. E ainda mais estranhou o convite ser aceite com tanta prontidão: “Claro, dois conterrâneos devem confraternizar”, disse-lhe Moema. Ela era de São Paulo. Bióloga. Tinha vindo a Macau para uma conferência sobre a poluição nas grandes metrópoles. Ele inventou ser empresário e estar ali para fechar um negócio, o que não deixava de ser verdade. Moema fingiu acreditar e foi conduzindo a conversa para a geografia do Brasil. Confessou-lhe estar farta de São Paulo e estar a pensar estabelecer-se num sítio mais calmo. Como detestava o nordeste, estava a pensar ir para sul. Santa Catarina podia ser uma boa hipótese. Havia uma zona de que ela gostava particularmente, ali para os lados da Lagoa de Ibiraquera. A Praia do Rosa. A Praia da Barra. Garopaba... Nesta altura, Valdemar estava em estado de sítio. Ia acenando com a cabeça, mas tudo nele era tensão. Moema observava Valdemar e sabia que o tinha atingido. Ele estava alerta e desconfiado. Estava onde ela o queria. De repente, e a vida tem destes repentes, saiu-lhe quase sem querer: “Você conhecia um tal Octávio que foi assassinado em São Paulo no mês passado?”. Valdemar não queria acreditar. Balbuciou uma negativa e levantou-se para ir buscar mais dois croissants com queijo. Quem raio era aquela mulher? Começava a perceber que se metera na boca do lobo. Ela sabia tudo. Que ele mandara assassinar Octávio. Que vivia refugiado na Lagoa de Ibiraquera. Tinha-o seguido até Macau. O mais certo era saber do negócio dos explosivos. Era da polícia, com certeza absoluta. O que mais saberia ela? Sentiu-se vigiado e, pela primeira vez na vida, sentiu-se indefeso. Não tinha apoios em Macau. Não podia telefonar a Tsé-Lao e pedir-lhe ajuda. Era a confissão da sua incompetência. Tentou raciocinar. Tudo levava a crer que a mulher estava sozinha. Ela não podia ter qualquer apoio das autoridades de Macau. Tsé-Lao tinha as suas protecções no território. E as autoridades chinesas não eram conhecidas pela cooperação. Aquilo era China, que diabo! A mulher estava a “pescar” por conta própria. Só havia uma coisa a fazer.
Fotografia de Roberto Barbosa
(Continua)