31.1.17

COMIGO MESMO - L

Em Junho de 1961, com 9 anos, fiz o exame de admissão no Liceu Camões, mas fui logo transferido para o Liceu de Oeiras. A casa de Nova Oeiras estava em fase de acabamento e não sabíamos quando seria a mudança. Acabou por ser só em Fevereiro de 1962. Como não havia vaga em Oeiras, fiquei na Secção de Algés, a funcionar precariamente no Palácio Ribamar, onde entre 1920 e 1928 funcionou o casino “The Splendid Foz Garden". Hoje, depois de adquirida pelo Município..., aloja a galeria municipal, um posto de turismo, biblioteca e sede do Centro de Dança de Oeiras.
As instalações eram tão precárias que chovia dentro da sala, ao ponto de termos de abrir guarda-chuvas. Todos os dias apanhava o autocarro na Rua Luciano Cordeiro (perto da Ferreira Lapa) e ia até Algés. Um trajecto de meia hora que eu fazia sozinho, revelando um grau de autonomia, para um filho único de 10 anos, digno de registo. A partir de Fevereiro de 62, já a morar em Nova Oeiras, ia de comboio para Algés. Renovada prova de grande autonomia.
PS: na foto, o Palácio de Ribamar.

30.1.17

COMIGO MESMO - XLIX

Mas, enquanto a minha mãe andava atrás das bactérias, o meu pai também não parava quieto. Logo em 1948, ainda Tenente, fez o curso de Estado-Maior (a funcionar em Caxias, como já referi). Depois nasci eu, em 1951. Mas isso não o impediu de, na qualidade de chefe da Repartição de Operações e Organização da Divisão NATO, fazer parte da equipa que, entre 1953 a 1955, planeou e conduziu as primeiras manobras da dita NATO realizadas em Portugal (Santa Margarida...).
Em 1958, o meu pai foi frequentar a Escola de Armas Especiais dos USA, na Alemanha, onde se especializou no emprego de armas nucleares. Uma área completamente nova para um militar português. Como se vê, a vida lá em casa era perigosa. Entre bactérias e fissão nuclear, a escolha não era fácil.
De 1959 e 1961, o meu pai frequentou a Écolle Supérieur de Guerre, em Paris, tendo coincidido com a estadia da minha mãe durante 6 meses também em Paris, nos estágios do Pasteur e Fournier. Foi nessa altura que a casa de Nova Oeiras estava a ser projectada. Foi em Fevereiro de 1962 que viemos para cá.
PS: na foto tirada na Alemanha, o meu pai é o 2ª da direita.

28.1.17

COMIGO MESMO - XLVIII

Os meus pais sempre tiveram uma vida profissional intensa. Quando olho para trás, percebo que não tive uma infância “normal” para a época. Naquele tempo, as mães ficavam em casa a tomar conta dos filhos. Não foi o que se passou comigo.
A minha mãe licenciou-se em Farmácia, na Universidade do Porto, em 1943. A partir de Janeiro de 1947 (portanto ainda antes de se ter casado), entrou para o quadro do Instituto Superior de Higiene - Dr. Ricardo Jorge, onde viria a fazer toda a carreira, até à reforma em 1990.
A sua actividade foi sempre na área da bacteriologia sanitária. O quadro de pessoal, nesta área, era então muito reduzido. Era uma área ainda muito embrionária. A minha mãe trabalhou sobre a direcção do Dr. Arnaldo Sampaio (pai do futuro Presidente da República, Jorge Sampaio). A esse pequeno grupo, quase pioneiro, se deve a importância que a bacteriologia viria a ter em Portugal. Um trabalho apaixonante que em muito ultrapassava o simples emprego. A minha mãe era uma investigadora.
Logo em 1954, ela foi bolseira da OMS (Organização Mundial de Saúde). O estágio foi em Paris no Instituto Pasteur, no Instituto Alfred-Fournier e no Hospital Saint-Lazare, para aperfeiçoamento das novas técnicas de Imunologia e Serologia da sífilis. Em 1960, durante 6 meses, voltaria a Paris e ao Instituto Pasteur, onde trabalhou na investigação sobre o Treponema Reiter e do Treponema pallidum (este último responsável pela sífilis). Em Fevereiro de 1970, novamente em Paris, novo estágio no Instituto Alfred-Founier, para aperfeiçoamento das técnicas de Imunofluorescência. Aí voltaria em 1978, para actualização dos métodos de diagnóstico da sífilis.
A minha mãe conta repetidamente a história da surpresa dos médicos quando aparecia uma jovem senhora a falar de sífilis nas aulas de saúde pública. A minha mãe sempre foi muito "avançada".

27.1.17

COMIGO MESMO - XLVII

Setembro... Todos os anos era raptado em plenas férias grandes. Curvas e mais curvas. Seguia entalado no moderno Simca "Aronde", entre cestas de reforço gastronómico para o caminho e a omnipresente governanta Alice. Pernoita obrigatória no Grande Hotel do Luso ou na Curia. O indispensável bacalhau salgado em Torre de Moncorvo para evitar o derradeiro vómito... Bragança à vista. Nove meses de inverno, três de inferno. Para mim era sempre inferno!
Que estava eu a fazer naquela pasmaceira? Subtraído à moderna Nova Oeiras... Precocemente retirado às namoradinhas de praia... Distante da Marginal... Violado a meio das férias grandes... Contrariado no mais profundo do meu ser?!
Cinquenta Setembros passaram. Muitas mais moscas morreram. Familiares também. Já não há casa de granito. As primas já não querem brincar aos médicos. As curvas do Pocinho esqueceram a vertigem nos acidentes do IP4. O castelo ergue-se agora entre desvairada especulação imobiliária. Os bombeiros continuam a apitar. As serras continuam a arder... Como gostava de voltar a fazer aquelas curvas no velho Simca. Voltar a enjoar na subida para Torre de Moncorvo e passar tardes a apanhar moscas na sombra das figueiras do quintal. Já nada existe…

26.1.17

COMIGO MESMO XLVI


O almoço aproximava-se rapidamente sob a forma de uma nojenta canja de perdiz carregada de miúdos, seguida de rojões com batata entalada ou alheira com grelo cozido. Para rematar, o habitual queijo com marmelada. Em dias especiais havia pisperno com batatas e nabo cozido. Sobremesa, o fumegante chouriço de mel com amêndoas, com apetitoso aspecto a cocó fresco e sabor a goiabada de porco.
À noite, a bisavó Marta, com lúcidos 99 anos, vestia-se a preceito enfrentando o preto e branco da televisão Grunding com sorriso de cerimónia. Respondia à locutora de serviço na certeza de que estava logo ali, dentro da caixa iónica, e que falava directa e exclusivamente para ela. Era escusado qualquer tentativa de explicação do conceito de teledifusão. O diálogo era ponto a ponto… e pronto!

25.1.17

COMIGO MESMO - XLV


A água gelada do rio Sabor deu-me renite para a vida toda. Os pequenos peixes mordiam os dedos dos pés e cobras de água fugiam sinuosamente amedrontadas. A minha prima Luísa, que sempre foi alta e desenvolta, nadava que se fartava, enquanto eu e a Guida chapinhávamos por ali, tentando não ir ao fundo. As cestas de merenda acumulavam-se na sombra dos freixos, guardadas por pais, tios e avós que nunca chegavam a descompor-se em fato de banho, por mais bravo que o calor estivesse.
As moscas atacavam manhã cedinho, na manivela escorregadia da bomba manual do poço situado no fundo do quintal. Cento e cinquenta pesadas voltas enchendo a cuba de granito para a rega da tarde, aumentando exponencialmente os enchumaços ósseos dos meus ombros magritos. Depois vinha a apanha dos figos de capa-rota em escadas gigantes de ferrugem, fugindo das abelhas gulosas e das vespas assassinas. Trabalho supervisionado pelo avô, que dava instruções enquanto, esforçadamente, puxava o ancinho entre alfaces francesas e morangos serôdios.
Às onze horas estava pronto para o primeiro folar do dia, guloso do presunto e das pernas de frango saturadas de gordura temperada a colorau. As cólicas resolviam-se na sanita de emergência na varanda em sobrado com janela panorâmica para o quintal. Lá em baixo via gatos malhados tentando passar despercebidos na penumbra da couve-galega fugindo aos chumbos incertos da minha "Diana 23". Foi naquele quintal que aprendi a fazer pontaria e foi ali que percebi que era míope e tinha astigmatismo avançado. Passei a usar óculos que ainda hoje fazem parte da minha cara.

24.1.17

COMIGO MESMO - XLIV


A rua dos meus avós era a Rua Conselheiro Abílio Beça, mais conhecida por Rua de Trás por contraposição à Rua Direita, ambas bifurcadas na Praça da Sé, em direcção à tutelar torre de menagem. Casa de três pisos e loja, paredes meias com a Câmara Municipal, a escassos cem metros do Museu Abade Baçal. Gravada no granito frontespício, a data abissal de 1783. O número da porta era o 61.
O meu avô Domingos, cidadão honorário de Zamora, vinha da raia com brilhozinho nos olhos sempre pontualmente às sete para jantar. A minha avó Olinda disfarçava e o pessoal tentava não ter conversas polémicas. Política nunca!
O meu avô Domingos era uma personagem incontornável. Levava-me a todo o lado no jipe da Guarda Fiscal de que era comandante. Percorríamos a fronteira. Entrávamos por Espanha sempre que nos apetecia comprar caramelos. A intimidade com os espanhóis é aqui total. A proximidade e a Guerra Civil de Espanha traçaram cumplicidades com o regime franquista, nem sempre totalmente saudáveis.
Depois do jantar a rua estalava de calor acumulado. Caminhada esforçada até ao "Café Leão", ali a 300 metros, na Praça da Sé. Saturação de tabaco. Bicas suadas. Conversas encaloradas. Eu era mostrado como um troféu. Que grande que ele está... Cada vez mais igual ao pai... Então sempre queres ser médico quando fores grande? Grande já eu era. Tinha 12 anos, porra! E, francamente, não tinha a mínima vontade de ser qualquer coisa. Queria era sair dali.

23.1.17

COMIGO MESMO - XLIII

Mas se hoje tenho saudades, naquele tempo de adolescência não era bem assim. A bem dizer, era uma enorme estucha ter de fazer aqueles tremendos 580 km para lá e outros tantos para cá. Tudo sem autoestradas, nem telemóveis, nem sequer GPS. Íamos pela velhinha Estrada da Beira: Mangualde, Celorico da Beira, Foz Côa, Pocinho…, cortando o país ao meio.
Recordo os quarenta graus à sombra. A frescura do feldespato. O cheiro ácido a porco vindo lá dos "fundos", ...
misturado com o cheiro perfumado de maçãs bravo de Esmolfe que enchiam a salinha do rés-do chão. As primas, Luísa e Guida, filhas do tio Amilcar (irmão da minha mãe), com quem brincava aos médicos na obscuridade ominosa da cave brigantina. Recordo moscas, muitas moscas. Moscas que apanhava à mão, em holocaustos diários. Desenvolvi uma técnica muito peculiar que ainda hoje domino e que por facilidade de expressão, denominarei de técnica da “mão-húmida”.
Na casa ao lado, o meu tio-avô Abílio (da parte do meu pai) mantinha uma mercearia com loja para estacionamento de burros em trânsito com pessoal de Gimonde, Carrazeda e Sacóias.
Às 17h tinha lição de acordeão nas freirinhas. O método era 1-2-3-4-5-6-7. Cada número sua nota, cada nota seu número. Não cheguei a perceber quem era mi, porquê si, muito menos onde era lá.

22.1.17

COMIGO MESMO - XLII



Hoje recordo Bragança pela distância e pela saudade. Lá em cima ficava o castelo, um dos mais bem preservados do país, com a sua altiva torre de menagem e a Torre da Princesa, com uma lenda que mudava consoante o interlocutor. Bragança é terra de Celtas, de uma tribo Galaica, os Zoelas. Uma terra que foi dominada pelos Romanos e invadida pelos Visigodos.
Os Mouros não conseguiram estabelecer-se por conta própria e andaram 50 anos a levar na tromba, antes de terem percebido que não valia a pena insistir. Foram os leoneses que tomaram conta disto. A independência veio com naturalidade, logo nos tempos de Afonso Henriques. Bragança sempre foi terra de atravessamento. Guerras com Espanha, invasões francesas, lutas liberais, revolução cartistas… Tudo passou por aqui. A população foi enriquecida com os judeus em fuga dos Reis Católicos e será rara a família que não tem sangue “marrano”. No Inverno neva, mas os lobos são protegidos.

21.1.17

COMIGO MESMO - XLI

Ainda dizem que o FB é uma treta...! Rosa Oliveira, mulher do meu colega e amigo Carlos Oliveira, investigou de livre e espontânea vontade e descobriu a genealogia do meu avô Francisco Pinheiro, pai do meu pai. Para além de lhe agradecer, fiquei muito sensibilizado. Faço aqui um interludio para publicar o que ela me mandou:
"Como gosto de genealogia, estive a pesquisar sobre o seu avô Francisco do Patrocínio Pinheiro e descobri o registo de bat...
ismo dele. Eis o que descobri: nasceu a 31 de Janeiro de 1902, pelas 10 horas da noite e foi batizado na Igreja Paroquial de Santa Maria no dia 19 de Março de 1902. Filho de João António Pinheiro, pintor, e de Maria Joaquina Rodrigues, agenciária (?!). Neto paterno de Nereu José Pinheiro e de Maria Engrácia Pinheiro e materno de José Rodrigues e Mariana Rita Rodrigues. Foram padrinhos: Francisco do Patrocínio Felgueiras, viúvo, professor do liceu e Etelvina da Conceição Felgueiras, solteira. Casou com Teresa de Jesus Alves, de 18 anos, filha de Claudino da Transfiguração e de Maria José Rodrigues, e natural de Castrelos. O casamento foi na Conservatória a 15 de Maio de 1921. Faleceu na Freguesia de Cedofeita, Porto, pelas onze horas do dia 22 de Julho de 1959"
NOTA: Fiquei a saber que tenho um bisavô Claudino da Transfiguração e não sei que pensar disto.
PS: na foto, o meu avô Francisco, à esquerda a minha mãe e à direita a minha tia Natália (cerca de 1953)

20.1.17

COMIGO MESMO - XL

Em 1974 dá-se o 25 de Abril. Bragança aderiu mais por dever de ofício do que por convicção. Mas, a verdade é que as estruturas formais foram drasticamente alteradas. O meu avô deixou de estar ligado ao que quer que fosse e em 75 viria para Oeiras por causa da doença da minha avó que, aliás, viria a falecer logo em 76 aqui em casa. Ele ficou por cá, sempre com grande empenho pelo quintal, mexendo e remexendo a terra, talvez saudoso da distante Bragança e do s...eu quintal de terra preta. De vez em quando desaparecia por algumas horas. Tínhamos de o ir buscar a um cafezito ali perto do bairro das Palmeiras.
Quando penso no meu avô, penso nele com grande carinho e respeito. Talvez ele fosse mais ríspido com os filhos. Connosco, os netos, era uma doçura. Lembro-me dele a fazer a barba logo de manhã. Um ritual matinal que ele seguia a preceito. Afiava a navalha, no já muito gasto assentador de couro, num movimento para cima e para baixo, alternadamente nos dois lados da lâmina. Depois ensaboava a cara com pincel e cortava diligentemente com a lâmina, mirando-se num pequeno espelho côncavo, daqueles em que os poros da cara parecem crateras de um vulcão em erupção. Talvez ele estivesse a tentar ensinar-me. Afinal, eu era o único neto macho.

18.1.17

COMIGO MESMO - XXXIX


A sua carreira militar foi interrompida várias vezes para assumir outras funções. Entre 35 e 41 esteve em comissão de serviço como Comandante Distrital da GNR. Neste período apanhou a Guerra Civil de Espanha (1936 - 1939).
De 1945 a 1950, o meu avô foi Comandante Distrital da PSP, tendo depois, já na situação de reserva, regressado ao Ministério da Guerra. Entre 57 e 62 presta serviço na Legião Portuguesa, tendo, em 61, sido nomeado Director da Carreira de Tiro de Bragança. Em 1963 presta serviço como Presidente da Comissão Liquidatária do B.C. 3 (Batalhão de Caçadores 3).
Em 15 de Janeiro de 1963 é requisitado como Comandante da 5ª Companhia da Guarda Fiscal, cargo que ocupou durante 2 anos. Passa ainda por Provedor da Casa da Misericórdia e Comandante dos Bombeiros Voluntários.
Em 17 de Junho de 1969 é nomeado Vice-Presidente da Câmara Municipal de Bragança, com o pelouro da Vida Administrativa Rural. Era então Presidente da edilidade o Dr. Abílio Machado Leonardo.

17.1.17

COMIGO MESMO - XXXVII

Domingos Ferreira conhecia a zona de Bragança como ninguém. Foi ele que ajudou a dar as coordenadas cartográficas para mapear o distrito, procedendo ao levantamento topográfico à escala 1/20.000 de Bragança e seus arredores.
Domingos António Ferreira, o “avô Capitão”, nasceu a 10 de Agosto de 1897, em Bragança, na freguesia de Santa Maria. Filho de José Maria Ferreira e de Maria Cândida Ramos (meus bisavós e que ainda conheci em criança, moravam então no Porto). Morreu em 28 de Dezembro de 1985, com 88 anos, depois de ter morado aqui em casa em Nova Oeiras a partir de 1975, altura em que ele e a avó Olinda vieram por razões de saúde desta. A avó viria a falecer pouco depois, em 21 de Novembro de 1976. Aliás, a avó morreu cá em casa na sala da frente (a sala virada a Norte que lhe servia de quarto), coisa que me fez a maior das impressões. Nessa altura já eu estava casado pela primeira vez. Morava perto, na Torre D, de Nova Oeiras. Lembro-me de ver a minha avó morta, muito fria e decidi que nunca mais queria morrer.
PS: na foto, a minha avó Olinda.

16.1.17

COMIGO MESSMO - XXXVI


A verdade é que o meu avô Domingos era uma figura marcante. Claramente a figura mais forte de toda a família. Sempre de gravata fininha, como se usava na época, e chapéu preto à maneira. Um homem que via no comunismo um perigo físico a abater. Um homem que, seguramente, ajudou o regime franquista na época da Guerra Civil de Espanha (1937), o que lhe terá garantido ser Cidadão Honorário de Zamora.
Um caçador inveterado que nos mandava encomendas em caixotes de madeira com alheiras e perdizes de três em três meses. Caixotes cheios de pregos que tinham de ser tirados a escopro e martelo. Caixotes que íamos buscar à Estação de Oeiras, muitas vezes já com cheiro ligeiramente faisander.
Um homem que gostava de patuscadas, petiscos, copos e, estou seguro, também de “espanholas”. Gostava também de jogar. Penso que era apenas jogo de cartas. Ainda me lembro de o ir buscar a pedido da avó, era eu já mais velho e ele também, ao Café Poças que tinha uma sala íntima para os devidos efeitos. Foi nessa época, que passou a ter a alcunha de “Capitão Sagres”, porventura devido a algum uso excessivo que dava às garrafas de cerveja.

PS: o meu avô a dar de beber ao cavalo em frente à Igreja de S. Vicente (Bragança)

13.1.17

COMIGO MESMO - XXXV


Lembro-me muito bem do meu avô Domingos António Ferreira e da minha avó Olinda Adélia de Barros, pais da minha mãe. A descrição que se segue é da minha prima Guida que, juntamente com os pais e a irmã, a Luísa, moraram em Bragança até a 1967: “Ao fim do dia, o avô tratava do quintal onde cultivava tomates, feijão-verde, alfaces, couves, nabiças e flores. Havia também um canteiro com rosas brancas e vermelhas. O avô, com o seu ar de Clark Gable, trazia um botão de rosa que depositava nas mãos da avó e, com um beijo na testa, dizia: “Ó Linda, é para ti". Depois mudava de roupa e sentava-se no alpendre da casa, sobranceiro ao quintal, bebia um whiskey, fumava um cigarro e aguardava o jantar. A avó Olinda era uma avó bonita. Usava os cabelos brancos, apanhados com uma trança enrolada na nuca, conseguia ter um ar de cumplicidade tal com os três netos que cada um deles pensava que era o especial.
A avó Olinda oriunda da família Barros era professora primária e dava aulas em Vila Franca de Lampaças, uma aldeia próxima de Bragança. Nela permanecia toda a semana. Nessa altura as escolas tinham ao lado a casa da professora, e assim, ela levava os seus dois filhos que as vizinhas cuidavam, enquanto ela dava aulas aos filhos delas. O avô fazia visitas de surpresa. Aparecia de moto, capacete de cabedal e óculos de aviador, e surgia na estrada batida, como uma aparição vinda do futuro...”
PS: na foto, a avó Olinda e o avô Domingos.

12.1.17

COMIGO MESMO - XXXIV


Muito provavelmente a sinagoga de Bragança situava-se, por volta de 1930, num edifício da actual Avenida João da Cruz ou, mais provavelmente ainda, no nº 23 da Rua Direita, para onde foi transferida pouco tempo depois, após a vinda de um rabino de origem inglesa do Porto. Na década de 30, depois da morte prematura do filho desse rabino, ele próprio se afastou, tendo sido possivelmente o último rabino a oficiar na cidade.
Na verdade a localização dos locais de culto judaico não é fácil. Basta dizer que no tempo de D. Manuel I o culto é proibido, passando a ser praticado de forma oculta em casas particulares. Só no primeiro quartel do século XX há um recrudescimento do culto judaico em todo o país.
A vida dos judeus marranos (convertidos à força que mantiveram o seu culto escondido), como é sobejamente conhecido, nunca foi fácil, embora eles também não facilitem. Já agora, sobre a palavra “marranos”, diz-nos o Capitão Barros Basto (conhecido como o “Apóstolo dos Marranos”) que a sua etimologia está na língua hebraica: “mar” que significa “amargamente” e anuss” que significa “forçado”. Ou seja, os judeus são um “povo amargamente forçado” a errar pelo mundo, desde que o Templo de Salomão foi arrasado pelos romanos. Mais prosaicamente, Elvira Mea (professora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto), explica que a origem do termo "marrano" começou por aplicar-se pejorativamente às pessoas que, embora baptizadas, continuavam a "marrar" na Torah; no século XX, a palavra tomou uma conotação elogiosa, designando quem, resistindo à opressão inquisitorial, manteve a fé judaica.

11.1.17

COMIGO MESMO - XXXIII

Já do lado da minha avó Olinda de Barros, não há grandes dúvidas. Viessem de onde vieram, a certa altura eram definitivamente todos judeus. O apelido Barros é composto por duas palavras: Bar que em aramaico quer dizer “filho” e Rosh que é uma palavra hebraica com o significado de “cabeça”, “chefe” ou “profeta”. Portanto, seria Bar Rosh.
A família Barros de Bragança é descendente de judeus expulsos de Leon e Castela, aquando da perseguição que os Reis Católicos de Espanha – Fernando e Isabel - e, posteriormente, o filho Filipe II, moveram aos judeus que viviam no Reino de Espanha, nos séculos XV e XVI. Foi o começo da Inquisição. Já haveria uma “comuna” ou “aljama” judia na cidade, pelo menos desde o século XIV, mas foi com a expulsão espanhola que a colónia se alargou para mais de 3000 pessoas, segundo os cálculos do Abade Baçal (que chamava à judiaria a “Alfama de Bragança”). De facto, os judeus espanhóis refugiaram-se maioritariamente em Portugal, onde governava D. João II, o “Príncipe Perfeito”, o qual se apercebeu das enormes vantagens em integrar os judeus, pela mais-valia comercial, industrial e financeira que estes traziam.
Na verdade conseguimos seguir os Barros desde 1619. O primeiro Barros brigantino teria sido Francisco Barros Chaves. Uma pesquisa geneológica impressionante que se fica a dever ao primo Júlio Barros, primo da minha mãe. Já mais perto de nós, vamos encontrar o meu bisavô Manuel Joaquim de Barros, nascido a 27 de Outubro de 1861 e falecido em 1946. Era sargento do exército e casou com Marta do Espírito Santo, a ”bivó” Marta que ainda conheci bem. A “bivó” morreu aos 103 anos. Era uma figura engelhada, sempre vestida de preto, com o nariz comprido que não escondia a origem judaica. Curioso que a minha mãe está a ficar muito parecida com ela.
PS: na foto, o meu bisavô Manuel Joaquim de Barros, a minha bisavó Marta do Espírito Santo e ao colo a mina avó Olinda Adélia de Barros.

10.1.17

COMIGO MESMO - XXXII


Saber a nossa origem é, para alguns, uma obsessão quiçá excessiva. Mas é, sem dúvida, um fascínio para todos nós. Todos gostamos de saber de onde viemos e para onde vamos.
Parece que a família Ferreira, do lado do meu avô materno, Domingos, veio da zona do actual Sudão. Isto segundo um teste de DNA baseado no cuspo familiar masculino que o primo Taducho (Carlos Augusto), primo direito da minha mãe, em boa hora mandou fazer.
O teste genético “Ancestrais paternos”, o qual analisa o DNA do cromossoma Y, permite estabelecer a linhagem genética paterna até à sua origem mais provável, há milhares de anos atrás. O grupo dos Ferreira é o E1b1b1b-M81 com origem no Nordeste africano, há cerca de 6 mil anos, na zona do Egipto/Sudão, tendo-se posteriormente dispersado para Noroeste e Este de África, sendo o mais comum na região do Magreb.
Na Europa, este haplogrupo encontra-se sobretudo na Península Ibérica e na Sicília, onde ronda uma média de 5%. Atinge 4% no Norte de Portugal, 5,5% em Zamora, 10% na Galiza e nas Ilhas Canárias, 12% no Sul de Portugal e 9% a 17% na Cantábria (…). Em resultado de migrações mais recentes, de povos africanos e europeus, este haplogrupo pode também ser encontrado por toda a América-Latina, por exemplo, em Cuba (6%), no Brasil (5,4%), na Califórnia e Hawai (2,4%).
Confusos, não vale a pena. As conclusões são simples. Há cerca de 6 mil anos o cuspo Ferreira veio algures da região entre o Sudão e o Egipto, atravessou o Mediterrâneo, sem socorro a náufragos, nem ilha de Lampedusa, nem sequer quotas para refugiados. Entrou por aí e, com o tempo, foi descolorando até ficar branco de pele. A verdade é que, como vimos, todos os cuspos do mundo vieram de África. O cuspo Ferreira não é, portanto, excepção. A questão agora é saber como aquele cuspo primordial foi parar a Bragança e como ao longo de breves 6 mil anos virou cuspo Ferreira. Uma investigação por fazer.

9.1.17

COMIGO MESMO - XXXI

Naquele tempo, havia o conceito de “visitas”. Pessoas que apareciam cerimoniosamente e eram cerimoniosamente recebidos na “sala de visitas”. Uma sala que ficava bem ao pé da porta, talvez para garantir uma saída mais rápida e mais eficaz. A circulação de pessoas era muito reduzida. A vida social muito limitada. Não se ia almoçar ou jantar fora, salvo em situações absolutamente excepcionais ou em viagem e, mesmo assim, era frequente levar farnel. Aliás, havia pouquíssimos restaurantes.
Lisboa era uma cidade cinzenta, apesar do Sol. Os meus pais estavam em absoluto concentrados no trabalho. Nas respectivas carreiras. A vida pública limitava-se ao estritamente necessário. Nada de cinemas ou teatro. Uns passeios por Monsanto, Mafra ou Parque Eduardo VII eram o indispensável para curtir um bom fim-de-semana. Ir a Bragança em Setembro era o máximo que podíamos esperar das férias.

8.1.17

COMIGO MESMO - XXX


Era também na sala de jantar, em cima da grande mesa preta, que o meu pai brincava com o comboio eléctrico. Uma prancha enorme, pintada de verde, com linhas, pontes e túneis. O comboio circulava sinuoso por entre aldeias coladas à tábua, árvores miniatura, lagos pintados a azul-celeste, rebanhos de ovelhas brancas e pastores de plástico encarnado. Carruagens diversas, duas locomotivas Marklin e um poderoso transformador que dava vida a todo o material circulante. Eu adorava, mas suspeito que o meu pai ainda gostava mais. Ele era um bricoleur inveterado. Sempre colecionou ferramentas de todo o tipo e usava-as com mestria insuperável. Era um perfeccionista. Acho que era algo que o fazia descontrair da vida intensa que tinha no dia-a-dia. Nunca saí a ele. Sempre preguei pregos às três pancadas. Sempre usei o Black and Decker como se fosse uma escavadora. Sempre enfiei buchas sem buraco.

7.1.17

COMIGO MESMO - XXIX


Os meus pais pouco recebiam lá em casa, mas lembro-me perfeitamente de uma noite de Carnaval animada, com muita gente na grande sala de jantar com mobília preta ao estilo D. José (a mesma que ainda temos em Nova Oeiras). Lembro-me de serpentinas e confettis que se infiltraram nos interstícios das tábuas do soalho e demoraram meses a sair. Foi o Carnaval mais duradouro da minha vida. Em Junho ainda apareciam confettis escondidos aqui e ali, a relembrar o Entrudo há muito passado.

6.1.17

COMIGO MESMO - XXVIII


Confesso que nada disso me perturbava. Com sete anos preocupava-me em acertar nas balizas virtuais que traçava na minha cabeça e defender os remates de ricochete que a parede me devolvia. Andava de triciclo no corredor em gincanas alucinantes. Gincanas que acabavam quase sempre em quedas aparatosas, de que ainda conservo um alto do lado esquerdo do crânio. Um alto que às vezes pode, erradamente, ser confundido com uma boça de inteligência. Pregava pregos compulsivamente na mesa-de-cabeceira e fazia grafitis com o bâton encarnado da minha mãe nas paredes do quarto, num assomo vanguardista de que ainda mantenho resquícios quando estou em modo artístico.

COMIGO MESMO - XXVII


Foi da janela do meu quarto, na Rua Ferreira Lapa, que vi gente a fugir. Ouvi balas. Pareciam estalinhos de Carnaval, daqueles que ia comprar à dúzia na Papelaria Fidalgo, ali na Rua Gomes Freire. Atrás da gente em fuga vinham soldados cinzentos com capacete e espingardas em riste. Estávamos em 1958, em plena campanha presidencial, com o “reviralho” a apoiar Humberto Delgado. Uma bala atravessou a bomba de gasolina da SACOR que ficava ali na Bernardim Ribeiro, a descair para a Bernardo Lima. Nos dias seguintes a vizinhança assustada, agradecia a Deus a sorte. A rua não explodiu e o regime continuou impune. Tudo sem replay exaustivo na televisão, que ainda não existia, para descanso da União Nacional.

4.1.17

COMIGO MESMO - XXVI


A casa da Ferreira Lapa, em Lisboa, era arrendada. Nós morávamos no rés-do-chão e os senhorios no 4º andar. Um dia, 40 anos mais tarde, cheguei à conclusão que a Fernanda era muito amiga da Cristina Aguiar, filha dos senhorios do prédio e que ainda lá morava. Mais uma daquelas coincidências em que sou fértil.
A Cristina Aguiar conhecia-me de bebé. Devemos ter chegado a brincar no saguão estreito nas traseiras do prédio. Havia uma escada de emergência em metal que percorria todos os andares pela rectaguarda, na vertigem dos degraus sem protecção. Do saguão partia um túnel escuro e comprido que servia para a serventia do lixo e que nos levava directamente para a rua. Uma aventura que acabava inevitavelmente no Sr. Zé da mercearia ou na carvoaria, mais abaixo, onde o carvão era pretexto para copos de três de gente avinhada logo pela manhã. Na rua ouviam-se os pregões lisboetas “Quem quer figos, quem quer almoçar” ou “Oh viva da costa”.

3.1.17

COMIGO MESMO - XXV


A Suzy, essa nunca mais a vi. Um dia, porém, 40 anos depois, vinha eu do trabalho, eram aí umas oito da noite, um dia chato com chuva miudinha e piso escorregadio. À saída da A5, já em Oeiras, o carro da frente trava subitamente. Travo também. O meu carro desliza e pumba… Bato por trás. Do carro sai uma senhora loira de olhos azuis, chateada com o contratempo e com a chuva insistente que lhe estragaria a mise. Eu assumo de imediato toda a culpa e sugiro encostar à berma para não atrapalhar o trânsito. Dei-lhe o meu cartão profissional para não haver dúvidas. Ela lê e diz excitada: Jorge Pinheiro?! O filho do general? Sim, respondi eu. Eu sou a Suzy! Dei-lhe dois beijos prolongados e saudosos. Os carros ao lado sorriam e devem ter pensado que bater por trás compensa. Era médica. Trabalhava em Ourém. Ainda nos telefonámos umas quantas vezes para resolver o acidente. Tenho de lhe bater outra vez a ver se nos encontramos de novo.
P.S. a Suzy à esquerda, a Graça à direita.

2.1.17

COMIGO MESMO - XXIV


Nos meus primeiros anos de vida íamos a banhos para Paço D'Arcos. Arrendávamos casa à época, bem em frente do jardim, e toldo na praia. O meu pai nunca soube nadar. Os homens ainda tinham aqueles maiôts pretos de corpo inteiro com alças. Havia um grupo de jovens militares que se juntava na praia com as respectivas famílias. Entre eles, a família Simeão e os Paixão Ribeiro. Tinham filhas. A Graça Simeão (ainda hoje minha amiga próxima) e a Suzy Paixão Ribeiro. Ambas eram um pouco mais velhas e tomavam conta de mim com desvelo maternal de quem vê um boneco de celuloide para brincar aos papás e mamãs.
Eu detestava sujar as mãos com areia, coisa praticamente impossível num ambiente tão arenoso. Mas insistiam em me levar à praia, o que implicava que eu passasse o tempo todo com as mãos em cima de um banco de madeira para não as sujar. Enfim, devia ser um puto insuportável.