Quando, depois
de tantos anos, penso no Liceu, a memória é atraiçoada pelas sensações. São
cheiros inolvidáveis. O toque irritante da campainha. O ranger do estrado
quando o professor de inglês, apelidado de “padeiro”, passava na sua sólida
rotundidade. O Sol que entrava pela janela. O chefe de turma que distribuía
estaladas sem qualquer razão aparente e arrotava com cheiro pestilente a alho
recozido. O estúpido colega da frente que não deixava copiar. O arranhar do giz
no quadro preto. As permanentes faltas de material. Aquele exame de latim que
nunca mais acabava. As férias grandes que teimavam em chegar.
O Liceu de
Oeiras sempre foi um liceu com grande liberdade. Talvez o facto de estarmos na
Linha de Cascais. De o sol brilhar. Do mar estar logo ali. Talvez tudo isso
tenha influenciado. A verdade é que as fugas para o Motel e, mais tarde, para o
Pérgula, as idas à praia, os intervalos clandestinos passados a fumar cigarros
nas traseiras do ginásio, os namoricos platónicos por entre as acácias em flor
e a exploração das grutas dos terrenos militares contíguos, tudo isso era tão
ou mais importante do que a aprendizagem oficial.
Os colegas nem
todos eram bons rapazes. Nem de todos ficámos amigos. Alguns desapareceram
completamente da nossa memória. Outros mantiveram-se anualmente nas celebrações
natalícias que insistimos em fazer. Outros, ainda, ficaram amigos para a vida.
Os anos de
liceu são anos de profunda transformação. Entramos envergonhados de calções.
Saímos homens de barba rija. São anos de integração social. De iniciação
política. De formação moral. A nossa personalidade molda-se para sempre. Viajar
pelos tempos de escola é revisitar a nossa autenticidade. Somos o que éramos.
Jamais deixaremos de o ser.
PS: na foto, o Liceu Nacional de Oeiras em 1952 (ano da inauguração)
















