30.9.08

PORQUE BLOGO

Eram duas da tarde. O Roberto entrou distribuindo cumprimentos a presentes e ausentes, a conhecidos e desconhecidos. A D. Elisa aplicou-lhe o avental registado com o seu nome. O avental que todos os dias o esperava para almoçar. O Roberto tinha tendência para as nódoas ou as nódoas, como tudo o resto, gostavam muito dele. Bem protegido, sentou-se com o Carlos na mesa do canto. Eu fiquei em frente. Veio o bacalhau com alho e muito azeite. Era Abril de 2007. O meu livro estava quase pronto. O Roberto fizera a foto da capa. Andávamos eufóricos. O lançamento era em Maio. As piadas sucediam-se à medida que o bacalhau avançava. O Roberto tinha um blogue desde 2004 ROB só com fotos de telemóvel e um título. Os alunos do IADE eram fãs. Eu também. A discussâo era inevitável. As elipses dos títulos... As metáforas das fotografias... Os comentários psicossomáticos... Naquele dia, entre duas postas de bacalhau e um jarro de tinto, obrigaram-me a ter um blogue. Foram eles, o Roberto e o Carlos, que discutiram o nome. Não tive voto na matéria. Por mais que resistisse nada havia a fazer. Estavam lançados. Eu havia de ter blogue! Voltei derrotado para casa, tirando lascas de bacalhau dos pontos mais recônditos da minha memória. Cheguei a casa e lá estava o blogue à minha espera. O telefone toca. O Carlos diz-me: "Introduz uma palavra passe". Já está. Tudo feito. A front page... Tudo! Foi só começar. E comecei por dizer que era um grifo planante. Uma espécie de linha editorial que me permitia andar por aí e falar de tudo, planando pelos locais e pelos assuntos mais variados, em pose diletante e esvoaçante.
Porque blogo? Não sei! Têm de perguntar ao Roberto e já morreu. Morreu logo a seguir, em Junho. Morreu sem querer e sem esperar pelo meu sucesso. Traidor! O que sei é que não mais parei de postar. De certa forma desvendo-me, entrego-me, numa psicanálise colectiva em que, diariamente, venço a minha timidez. Uma obrigação mental estimulante e que me diverte. Curiosamente, tem contribuído para aumentar a minha tolerância e a capacidade de compreensão de pontos de vista diferentes. Gosto de andar por aí no surf da ocasião. Ver outros mundos. Os mundos de outros. Os outros nos seus mundos. Não blogo por me sentir sozinho. Blogo para me sentir acompanhado.
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Este post insere-se no desafio do novo blogue do Eduardo "Post in Progress".
Na fotografia, Roberto Barbosa, no restaurante da D. Elisa. Foto de Inês.

OLHAR DIREITO

No "Olhar Direito" dois novos posts meus:
- Santana, Um Homem de Sorte
- Porque Precisamos dos Americanos
"Olhar Direito", um blogue onde a polémica é bem vinda!
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TERTÚLIA VIRTUAL - 15 DE OUTUBRO

Dia 15 e Outubro nova Tertúlia Virtual aberta a todos os blogues. As regras estão no sidebar. O registo no Mister Linky's abre a 14 de Outobro. TEMA: VOAR.
Em pequeno sempre quis voar. Os meus pés fugiam do chão e eu voava livre naquela salinha pequena onde brincava sozinho nas tardes frias de Inverno lisboeta. Tocava no tecto e percorria os cantos obscuros da sala. Via os sofás lá de cima, as cadeiras, a mesa. Tudo me parecia distorcido, enrugado. Perto e longe, ao mesmo tempo. Sempre que voava havia um cheiro a borracha queimada que se entranhava até íntimo dos meus poros. Voei muito naquela sala. Ainda hoje sei que voava. Mas só eu sei! Voem comigo dia 15 de Outubro.
Foto de Roberto Barbosa.

AVENTURAS DE ARNALDO ROCHA - ELÉCTRICO 15

Como dizia Santo Agostinho, o tempo não existe: o passado já passou; o futuro ainda não chegou; o presente acabou de passar. Arnaldo Rocha é um agente especial da poderosa “Organização” que tenta, desesperadamente, criar o “Quinto Império”, a união do norte e do sul, do leste e do oeste. Arnaldo Rocha percorre o tempo atrás do mito.
Publicação simultânea, em episódios, no Brasil (“Varal de Ideias”) e em Portugal (“Expresso da Linha”), todas as terças e sextas feiras.
EPISÓDIO V (continuação)
O núcleo central do Castelo de São Jorge, o castelejo, assenta na antiga construção mourisca que Afonso Henriques tomou em 1147, quando Lisboa era Ashbouna, capital do Alto Gharb. É um polígono quadrangular com muralhas de dez metros e uma dezena de torres. Do lado noroeste, a muralha prolonga-se num esporão que desce a encosta até à Torre de S. Gonçalo, cuja base se apoia na Rua Costa do Castelo.
12,30h. Arnaldo abandona a esplanada do Castelo e entra no restaurante “Pátio dos Leões”. Gotas pesadas de chuva prenunciavam a tempestade fatal. Num banco de jardim, um casal vestido de cabedal negro, capacetes de mota no regaço, simulava beijos enamorados, enquanto olhavam de soslaio as deambulações de Arnaldo.
Abóbadas a perder de vista. Sala cinzenta em luz de xisto. Janelas em ogiva panorâmica deslumbram-se sobre o Tejo.
Mesa sete. Mestre V. Homem de aparência contida. Cara oval, óculos dourados na ponta do nariz judeu. Tinha acabado de tomar a bica. Dizia-se ainda descendente de Mestre Boaca, primeiro arquitecto dos Jerónimos, despedido por razões obscuras por D.Manuel I.
“Quando venho para estas missões”, começou com voz pausada e clara, “almoço sempre primeiro… Não quero problemas de colite. Sente-se meu caro Arnaldo. Recomendo-lhe o bacalhau, está óptimo”.
Nesse preciso instante a tempestade rebenta. Trovões e relâmpagos, rasgam o céu por entre cascatas de água em fúria. Ao longe, as colinas da Trafaria, Lazarete e Almada brilham nos raios que incendeiam a “ponte vermelha”, que treme de pavor.
O bacalhau veio finalmente, trazido por um empregado que mais parecia comendador. Arnaldo, ainda encharcado, queixa-se de sinusite, assoando-se abundantemente.
Só então Mestre V voltou a falar: “A tua missão está carregada de espinhos. Todos querem o teu falhanço. Não tens amigos. Ninguém te vai proteger… Ouve com atenção, só direi isto uma vez!
Sempre houve grandes cataclismos. O mundo foi muitas vezes destruído. O mundo precisa de se renovar. Em tempos remotos, depois do grande dilúvio que encheu os mares e destruiu a civilização atlante, o neto de Noé, Túbal, aportou na actual Setúbal, tendo-se tornado no mais poderoso rei da península. Com ele chegou também o sobrinho Elysa, que terá fundado Lisboa e dado o nome aos celestiais Campos Elísios. Só muito depois os Fenícios chamaram a Lisboa Alis Ubbo e os romanos Felicitas Julia.
Sempre houve uma cruz, que percorreu todos os cataclismos… Uma cruz com todos os poderes do mundo. Durante milénios a busca prosseguiu, sem sucesso. Só há uma verdadeira cruz redentora. Sempre esteve em Lisboa, trazida por Elysa. Procura-a… Encontra-a, antes do próximo dilúvio. Essa é a tua missão”.

Arnaldo comia calmamente o bacalhau cozido, acompanhado por dois dedais de vinho tinto (nunca exagerava em serviço). Também já estava habituado a estes discursos dos “emissários do fim do mundo”. Na sede da “Organização”, tinha frequentado um curso semestral sobre escatologia avançada e aulas práticas sobre os dias do apocalipse.
Lá fora o céu desfazia-se em água, enquanto relâmpagos descarregam electrões sobre Lisboa que explode em átomos de todas as cores.
Mestre V. continuava indiferente: “Procura a cruz orbicular, a dupla hélice, as duas suásticas cruzadas, a cruz do movimento perpétuo, símbolo da totalidade do Cosmos, harmonização dos quatro elementos… Procura a cruz universal!”.
O silêncio caiu subitamente. O restaurante estava vazio. Arnaldo sentiu um arrepio digno de “Quinto Império”. Mestre V. suspirou. “Arnaldo, só tu nos podes salvar. Só tu podes encontrar a Vera Cruz. Procura na Custódia e segue o trilho da cruz que se quebrou. Agora foge depressa, enquanto a tempestade te protege. Corre… Já cometes-te demasiados erros. Estás a ficar velho… Vai, vai, corre. Que os corvos não te alcancem!”.
Arnaldo pressentiu o perigo. Saltou da mesa. Precipitou-se na intempérie. Virou à direita e correu em direcção à Torre de S. Gonçalo. Escorregou nos degraus moídos por pés seculares de gigantescos conquistadores. Ouviu duas balas que, tangentes, lhe pouparam o cérebro. Atirou-se para a escada de alumínio que o levou dez metros abaixo, novamente ao “Ninho das Águias”, conforme prévia combinação com o velhote da recepção. A Torre de S. Gonçalo confina, a oeste, com a residencial. A fuga fora prevista. Sentiu-se novamente jovem, embora ligeiramente febril.
Puxou a escada e correu pela esplanada dos maracujás. Pela última vez, olhou curioso os papagaios que, finalmente, pareciam desinteressados.
Desceu, tropeçando, os 38 degraus e viu-se novamente na rua bombardeado por toda a chuva do universo.
Virou em direcção ao “Teatro Taborda”. Desceu os três andares num ápice e saltou para a “vereda tropical”, de cuja existência só na véspera soubera.
Derrapou no pânico verde da erva encharcada e aterrou de cócoras na Rua da Saudade. Cruzou as escavações do Teatro Romano, quase invisível na cortina de chuva. Continuou correndo vielas abaixo… Só parou à vista da Sé.
(continua na 6ª feira)
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29.9.08

ALDEIA, CIDADE HUMANA


Absolutely

A ROSEROUGE ACABA DE ESTREAR O SEU BLOGUE. PRESENÇA HABITUAL NO NOSSO CANTINHO DA BLOGOESFERA COMO COMENTADORA ASSÍDUA E PROVOCADORA, AQUI ESTÁ O SEU ESPAÇO O Absolutely

28.9.08

FILHOS DO POVO DO SUL - XXII

Tudo isto era enorme canseira. Compor e tocar. Fazer o próprio marketing. Discutir contratos. Colar cartazes. Carregar o equipamento. Ligar cabos. Checar o som. Guiar carrinhas. Ser cobrador de fraque. Pugilista do recibo… E sempre com a pedrada habitual. Era demais!
A necessidade de um “manager” impunha-se com premência. Foi dentro dos “groupies” menos flipados que a escolha recaiu. Seleccionámos o C. J. e sobrinho, rapazes sem qualquer experiência do assunto, ar tímido e completamente destituídos de iniciativa. Tudo qualidades!
Assim surgiu a célebre produtora “Organizações Salve-se Quem Puder”… Ou seja, ficámos rigorosamente na mesma, mas com “manager”, o que dá logo imensa classe. Continuámos a ter exactamente as mesmas chatices, mas agora podíamos imputar culpas a alguém.
Começámos a ter concertos em locais cada vez mais extraordinários. Nas Festas Populares de S. Pedro do Montijo, contratados pela respectiva Comissão de Festas, em Julho de 1973. Aquilo sim era gente avançada para a época ou, então, foram bem aldrabados. Tocámos na praça principal, Dentro do coreto qual Sgt. Pepper’s Lonnely Heart Club Band. Tocámos o repertório psicoactivo habitual sem quaisquer concessões. Lá em baixo desfilavam famílias montijenses devorando farturas e coiratos, olhando-nos com ar perplexo e tentando perceber que bichos eram aqueles, enquanto pediam satisfações à Comissão de Festas que esteve à beira do linchamento. Ganhámos nove contos e mais uma caldeirada de chocos, para variar.
O nosso manager abriu-nos horizontes inexplorados: o Portugal profundo entre o Mondego e o Douro. Partimos à conquista dos Lusitanos, esse povo irredutível que fez a vida negra aos romanos e atrasou o desenvolvimento da região quase duzentos anos. Atacámos Covilhã e Gouveia. Nada conseguimos… Aquilo é mesmo malta coriácea. Acabámos a tocar músicas dos “ Moody Blues” para fugir ao pelourinho. À noite dormimos no ginásio de um liceu qualquer, entre trampolins e pelintos, agasalhados a aguardente de zimbro. Nunca mais lá voltei. Os Lusitanos não gostam de estrangeiros e eu não gosto deles!
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TODAY'S FLOWER - DRY FLOWERS FROM ALGARVE

PAISAGENS ALCOÓLATRAS

A ÁGUA QUE PASSARINHO NÃO BEBE

Cachaça ou pinga (tb. cânha, no Rio Grande do Sul) é o nome da aguardente de cana, hoje mundialmente famosa pela proliferação da caipirinha em países tão longínquos como a própria Rússia.
O nome terá origem ibérica, podendo vir do termo "cachaza", um vinho inferior bebido na Península ou do termo "cachaço" (porco) ou "cachaça" (porca). A carne de porco selvagem no norte e nordeste era muito rija. Por isso era amaciada com álcool vínico a que se chamava "cachaça". Este nome, conhe
cido nas quintas fidalgas do Minho, foi mencionado pela primeira vez por Sá de Miranda (1481-1532) em correspondência a António Pereira, senhor de Basto.
A "cachaça", tal como a conhecemos, obtém-se da destilação do fermentado da cana-de-açúcar ou do melaço. O álcool fermentado, como, por exemplo, no vinho, é um álcool natural. O álcool destilado é um produto sintético. A bem dizer, os destilados são a primeira droga sintetizada do mundo, precedendo em muitos séculos a heroína, a cocaína ou o LSD.
A inalação de vapores de álcool através de aquecimento do produto da fermentação era conhecido desde os egípcios e, depois, no tempo dos gregos e dos romanos. Os alquimistas atribuíam-lhe propriedades mistico-medicinais. É a água de vida (eau de vie), o elixir da longa vida. Pensavam ter capturado o "espírito" do álcool. Ainda hoje se chama aos destilados bebidas "espirituosas".
A água que pega fogo (acqua ardens) chega, através dos romanos, ao Médio Oriente e são os árabes que descobrem os equipamentos de destilação semelhantes ao usados ainda hoje, os alambiques. Dão o nome de al raga à aguardente, sendo a mais célebre a arak, da península arábica.
A tecnologia árabe espalha-se. Na Itália surge a grappa (da destilação da uva); na Gemânia o Kirsch (da cereja); a seevivice, na zona da actual República Checa (da ameixa); na Escócia surge o whisky (da cevada sacarificada); em Portugal destila-se o bagaço da uva, isto é o engaço remanescente do mosto, dando origem à bagaceira.
O processo de destilação artesanal de cachaça começou em 1532, quando o colonizador português Martim Afonso de Sousa levou os primeiros cortes de cana-de-açúcar da ilha da Madeira para o Brasil (na Madeira, a bebida chama-se poncha). Esta primitiva cachaça ou garapa azeda é dada aos escravos. É, apesar de tudo, uma "bebida limpa", em comparação co o cauim produzido pelos índios que cospem num enorme caldeirão de barro para ajudar a fermentação do milho.
A geração inicial de de colonizadores portugueses mantinha-se fiel a uma boa bagaceira e a um vinho tradicional do Porto. A partir de finais do séc. XVI, porém, multiplicam-se os engenhos de áçucar e a produção de cachaça, em especial na zona de Minas Gerais, onde acabara de ser descoberto ouro.
Incomodada com a quebra de impostos sobre os produtos vínicos nacionais e alegando que a cachaça prejudicava a retirada de ouro de Minas Gerais (o bagaço não, está claro!), a corte portuguesa proibe a partir de 1653 a produção e comercialização de cachaça. Sem resultados, a corte resolve, então, taxar o produto. Em 1756 os impostos sobre a cachaça foram um importante contributo para a reconstrução de Lisboa depois do terramoto.
A cachaça viria a ser, já no princípio do século XIX, um dos símbolos da liberdade brasileira. A chamada aguardente da terra é símbolo de resistência da "Inconfidência Mineira" que viria a ser o princípio da independência da colónia. Quando beberem uma caipirinha lembrem-se dos heróis da resistência, pela boca dos quais passou a ardência destilada do fervor nacional.
jp

27.9.08

FOTOS DE OUTONO

NOITES...








De cima para baixo: a banda; Xico Zé; João Pinheiro; "O Cinema", óleo sobre tela, de Carmo Romão; "O Bailarico", óleo sobre tela, de Tiago Serpa; Fotografias de Pedro José Martins; o meu local de trabalho.

25.9.08

ANTOLOGIA ROBERTO BARBOSA

Este era um dos paraísos de Roberto Barbosa. Sempre belo. Sempre diferente. Cacela-a-Velha e a praia de Fábrica.

AVENTURAS DE ARNALDO ROCHA - ELÉCTRICO 15

Como dizia Santo Agostinho, o tempo não existe: o passado já passou; o futuro ainda não chegou; o presente acabou de passar. Arnaldo Rocha é um agente especial da poderosa “Organização” que tenta, desesperadamente, criar o “Quinto Império”, a união do norte e do sul, do leste e do oeste. Arnaldo Rocha percorre o tempo atrás do mito.
Publicação simultânea, em episódios, no Brasil (“Varal de Ideias”) e em Portugal (“Expresso da Linha”), todas as terças e sextas feiras.
EPISÓDIO IV (continuação)
Àquela hora, naquela chuva, decidiu-se pelo restaurante do “Teatro Taborda”, ali a cinquenta metros. Novamente desce os 38 degraus, agora com aquela mulher exótica, com quem quase não falara e, no entanto, a quem tudo dissera… Os papagaios agitam-se, definitivamente curiosos.
Cá em baixo, enfrentam a tempestade, enquanto se ouvem barcos uivando desesperadamente no Tejo que se adivinhava lá ao fundo, mas parecia estar em todo lado.
Viraram à direita, rumo ao “Teatro Taborda”. Ao nível da rua, apenas a sala de entrada. Depois, o edifício branco e estreito desliza suavemente pela encosta.
No andar mais abaixo, o restaurante. Meia dúzia de mesas à luz de velas, romanticamente esperando comensais ensopados. Para norte, vista poderosa sobre o Convento da Graça. Para sul, vista descendente até ao rio. Lisboa inteira estava ali… e ela também.
Lá fora, a chuva cai, cai sempre. O caril era do Paquistão… O vinho de Óbidos… A empregada brasileira… Os proprietários alemães… As palavras de circunstância!
Ao fundo, uma porta dá para uma rampa exterior que conduz a um descampado, uma espécie de “vereda tropical” que, por entre silvas e canas da Índia, vai descendo até ao Teatro Romano e daí até à Sé. Esgotos em queda livre e drogados injectando-se a céu aberto, completam a paisagem.
A conversa mantinha-se fraca. Arnaldo não sabia o que dizer. Sempre fora tímido com mulheres. Apetecia-lhe mexer… apalpar. O caril excitava os sentidos. De repente, ela dá-lhe a mão e aperta com força. O jantar acaba logo ali!
Ele deixa algumas notas em cima da mesa, suficientes para pagar três jantares e precipitam-se para a saída.
Segundos depois sobem os 38 degraus de um só fôlego. Os papagaios mal têm tempo de exercitar a curiosidade.
Irrompem pelo quarto já semi-nus e assaltam a cama com violência. As bocas penetram-se fundo, até o beijo se transformar em atentado ao pudor… Os corpos enrolam-se até o suor ser um só… As paredes não contêm tantos gritos de prazer. Ao fim de duas intensas horas, Arnaldo adormece exausto, agarrado a um corpo de quem não sabe o nome.
Dorme de um só sono. Acorda às 8 horas com ligeiro catarro e, como era de prever, ela não estava lá!
A porta envidraçada que dá para o jardim está entreaberta. Os papagaios gritam desvairados. A mulher da janela em frente faz-lhe sinal para fuga imediata.
Arnaldo Rocha percebe que cometera demasiados erros. Está a ficar velho… quiçá senil.
Toma banho frio para revigorar e, pela primeira vez, espirra. Veste-se às três pancadas e precipita-se para a recepção. Conferencia baixo com o velhote, que vai assentindo com a cabeça. Paga a conta e deixa-lhe uma pauta de cem no aperto de mão final.
Desce novamente os 38 degraus. Os papagaios olham-no, agora críticos.
Cá em baixo vira à esquerda, em direcção ao Castelo. A chuva tinha parado momentaneamente. O sol vinga-se brilhando esfuziante por entre nuvens negras entumescidas pela tempestade que teima em se aproximar. O branco das paredes corroi-lhe as pupilas crispadas de cansaço.
Arnaldo foi andando, desconfiado de tudo e de todos. À entrada do Largo dos Loios, virou à esquerda por uma rua íngreme. Entrou no Castelo. Decidira misturar-se com a multidão de turistas até à hora do almoço… até ao encontro com Mestre V.
(continua na terça feira)
jp

NOITES DO T.I.O. - AMANHÃ



NOITES do T.I.O. - CAFÉ CONCERTO
Não se esqueçam. É já nesta 6ª feira, a partir das 21,30h. Lá os espero!
Esta sexta-feira, dia 26, o Novo Espaço recebe a primeira edição das Noites do T.I.O., uma noite de café-concerto e tertúlia com que celebramos a chegada do Outono, num ambiente acolhedor e descontraído, co-produzido pelo T.I.O. (Teatro Independente de Oeiras) e pela MAPA-Associação Cultural.
O programa inclui um concerto de jazz pelo Xico Zé Jazz Ensemble, composto por Xico Zé - Baixo Emílio Robalo - Piano João Pinheiro - Bateria e convidados.
Um trio que faz do jazz uma fusão de sons e percorre latitudes musicais diversificadas.
A banda promete a presença de convidados especiais num ambiente sonoro de alta intensidade.

A Mapa-Associação Cultural co-produtora do evento, expõe obras de pintura, fotografia e escultura de Carmo Romão, Tiago Serpa, Neuza Faustino, Pedro J Martins, Hugo Travanca, Filomena Trigueiros e Helena Calvet.
A comédia stand-up será outro dos pratos fortes do evento:Filipe d'Aviz, actor revelação do T.I.O. e também autor de textos de humor para rádio e televisão será o anfitrião, abrindo caminho para Guilherme Fonseca, comediante de créditos firmados, com passagem pela TV (Sempre em pé - RTP) e autor do blog ramboia, sendo que a sua especialidade em stand up comedy é um refogado de observação, com sarcasmo e ironia q.b., ao qual acrescenta uma pitada de non-sense. O jovem Pedro Baptista, promissor comediante de Setúbal, completa o trio de ataque à comédia.

A atmosfera sonora está a cargo de dois djs: Snowman irá envolver-nos em groovie tunes from around the world , enquanto Mr Jazz recorre aos clássicos em midnight jazz moods. Numa noite de tertúlia artística há, ainda, lugar ao improviso com poesia musicada pela banda ITM (inside the mojo)

24.9.08

ARTE CHINESA





Estas pequenas estatuetas de porcelana chinesa eram usadas como "motor de arranque" em locais de estilo, mas também serviam para a educação sexual dos menores. Nalguns casos, como o da primeira imagem, significavam o à vontade com que os chineses encaram o sexo em família. Quem vir nisto algo de pornográfico ou de libidinoso, é porque tem uma mente distorcida e capitalista. Aliás, atente-se no ar prazenteiro de todos eles. Só pode ser por bem!

Coleccção particular de J. e L. Ambrósio, a quem agradeço a hospitalidade e a oportunidade de fotografar.

23.9.08

MINHA GRANDE PAIXÃO









O Eduardo, sempre irrequieto, abriu um novo blogue "Post in Progress" que, traduzido, pode querer dizer "A Progressão do Post". É claro que também pode ser "O Post Progride" ou, mesmo, "Na Progressão do Post". Pessoalmente, prefiro "Que o Post Progrida" que, não querendo dizer rigorosamente nada, tem um sabor sofisticadamente romano que muito me agrada. O tema proposto pelo Eduardo, nesta estreia, é "Minha Grande Paixão". Ora, eu poderia escolher 37 coisas diferentes. Sou apaixonado nato, no sentido lato... Opto por seguir a pista do Eduardo e vou falar do meu "sítio".

Há 47 anos que moro em Nova Oeiras. Um bairro, então, novíssimo em Oeiras, na Costa do Estoril... enfim, na Linha! Nova Oeiras é uma "cidade-jardim", uma pequena ilha verde no meio da floresta de betão que não cessa de nos cercar. Uma mini-aldeia urbana, de perfil "corbusiano" e características "modernas", em termos de estilo arquitectónico. Lisboa fica a 15 km e Cascais a 10. A pé chega-se à praia em 10 minutos. Um clima suave. Quase semi-tropical. Pássaros exóticos. Frutos de além-mar. A casa onde moro é da família desde que para cá viémos. Mandada fazer nos anos 60, é hoje excessivamente grande para os usos actuais e para os gastos previsionais. Tenho privcidade, estúdio de música, atelier no jardim, árvores muito verdes e uma piscina para as agruras da canícula. Quando a crise vier em força, talvez dê para turismo de habitação (se houver turistas!).

Ter uma paixão implica saber preservar essa paixão. Saber alimentá-la. Saber lutar por ela. As paixões dão muito trabalho. Só essas paixões me interessam. As paixões positivas. Afirmativas. Saudáveis. As paixões mórbidas não me interessam. São doentias e paranóicas! Aprendi, recentemente, que a paixão por um "sítio" implica dar a cara por ele. Não ficar passivamente à espera que o inevitável aconteça. Implica lutar pela sua preservação e melhoria. Discutir projectos. Ouvir opiniões diversas. Conjugar esforços. Intrometer-me na vida autárquica. Implica muitas maçadas. Enfim, implica exercer a cidadania ao nível local. Por isso, estou activamente empenhado na vida da comunidade, integrando a direcção da Associação de Moradores de Nova Oeiras http://www.novaoeiras.com/

Nas fotos podem ver uma vista aérea de Nova Oeiras e dos bairros limítrofes (atente-se na diferença de índice de construção); das matas de Nova Oeiras; da minha casa; do seu interior e do jardim. Sejam muito bem vindos...

jp



NOITES DO T.I.O. - CAFÉ CONCERTO

JÁ NA 6ª FEIRA, 26/9, ÀS 21,30H. AUDITÓRIO DO TEATRO INDEPENDENTE DE OEIRAS TRANSFORMADO EM CAFÉ-CONCERTO. NO "PARQUE OCEANO", FRENTE À PRAIA DE SANTO AMARO. JAZZ; SKETCHES DE TEATRO, EXPOSIÇÃO DE ARTES PLÁSTICAS E DJ'S DE JAZZ. APAREÇAM, SENÃO NÃO FAÇO POSTS NOS PRÓXIMOS 15 DIAS!

AVENTURAS DE ARNALDO ROCHA - ELÉCTRICO 15

Como dizia Santo Agostinho, o tempo não existe: o passado já passou; o futuro ainda não chegou; o presente acabou de passar. Arnaldo Rocha é um agente especial da poderosa "Organização" que tenta, desesperadamente, criar o "Quinto Império", a união do norte e do sul, do leste e do oeste. Arnaldo Rocha percorre o tempo atrás do mito.
Publicação simultânea no Brasil ("Varal de Ideias") e em Portugal ("Expresso da Linha") todas as terças e sextas feiras.
EPISÓDIO III (continuação)
Arnaldo Rocha abre a mala recebida no aeroporto. Um estojo com material de higiene; uma muda completa de roupa; uma “Beretta” e um coldre de ombro; uma pequena máquina fotográfica digital e um envelope azul lacrado com o símbolo do “abraxas”. Rompe o lacre. Mensagem curta e concisa: “22 horas. A.R.C.O., Professor B”.
Olhou o relógio. 9,45. Corre a tomar banho. Faz a barba. Veste-se de lavado. Não esquece o revólver.
9,40. Desce os 38 degraus da escada em caracol. A jovem mulher mantinha-se vigilante no seu posto. Os papagaios olham-no, novamente curiosos.
A chuva persiste num dilúvio bíblico, como se todo o Atlântico tivesse decidido despejar-se sobre Lisboa. Arnaldo começa a sentir-se febril.
A rua estava deserta. Arnaldo virou à esquerda, em direcção ao Largo dos Loios. A água começa a engrossar. Regatos caiem desamparados pela encosta abaixo.
Largo dos Loios. A.R.C.O… O Professor B esperava-o no corredor de entrada, rodeado de provocantes alunas. Pega-lhe no braço e arrasta-o para um canto escuro: “Amanhã. 12,30h. Restaurante “Pátio dos Leões”, Castelo de São Jorge. Mesa sete. Mestre V”… E rapidamente volta às suas alunas.
Arnaldo Rocha regressa apressado à segurança do “Ninho”. Cinco minutos depois está de novo a subir os 38 degraus. Lá em cima os papagaios olham-no cada vez mais curiosos.
Na recepção o velhote entrega-lhe a chave com um discreto aceno de cabeça em direcção à sala de estar.
Sala pequena, com um par de sofás e uma televisão, onde depois do jantar a família de retornados*, proprietária da residencial, se reúne para ver telenovelas.
Ela estava lá, sentada a um canto, sorrindo despudoradamente. Mais uma vez teve a certeza de a conhecer de qualquer missão anterior. Não resistiu. Convidou-a para jantar… Este foi o seu segundo erro!
*Retornado: designação genérica dada a pessoas, normalmente brancos, que, depois da independência das colónias, regressaram a Portugal. Foram cerca de 600 000.
(CONTINUA NA SEXTA-FEIRA, 26/9)
jp

50 000 - O PRÉMIO

E que tal se fosse antes um jantar? Já não sei quem propôs, mas era muito mais fácil!!! Compulsado o sitemeter que, diga-se de passagem, deve ser completamente burro, verifica-se um empate técnico entre o João Menéres e a Kay. Assim cada um receberá um livro e um boneco. Como os livros são iguais (acho eu) podem seguir já. Por favor mandem os vossos endereços para o meu email. Quanto aos bonecos vai demorar mais um pouco, porque tenho de fazer outro. E como nunca são iguais, depois mostro e vocês escolhem. A todos muito obrigado por participarem nesta maratona que, para além da brincadeira, me enche de orgulho por gostarem do que eu faço. Um obrigado especial ao Eduardo que, não só publicitou, como serviu de consultor informático. Uma promessa: nos 100 000 vou inventar outra coisa. Safa!
jp

22.9.08

CLIENTE 50 000

QUASE A ATINGIR O NÚMERO MÁGICO, VAMOS ATRIBUIR UM PRÉMIO AO VISITANTE 50 000. UM LIVRO "TURISTA OCIDENTAL", AUTOGRAFADO PELO AUTOR (QUE SOU EU) OU O "BONECO" AO LADO (TAMBÉM MEU). A OPÇÃO É DO VISITANTE. TAMBÉM É VÁLIDO PARA ANÓNIMOS. O NOME E ENDEREÇO DEVERÃO, DEPOIS, SER ENVIADOS PARA O EMAIL DO BLOGUE. SEJAM RÁPIDOS!
JP

FOTOS DE OUTONO

O Outono começa hoje às 15h e 44m, hora de Portugal.

FILHOS DO POVO DO SUL - XXI

Entretanto, com mais ou menos metafísica, os concertos do “Ephedra” iam continuando, quase independentemente da nossa vontade.
Entidades diversas contactavam para dar um toque modernista à coisa. Às vezes não queríamos, mas havia sempre a prestação do equipamento a pagar...!
Nessa altura entraram na moda os “festivais regionais” nos sítios mais extraordinários. As Praças de Touros começaram a ter utilização alternativa. A acústica era péssima: o som rebolava, circulava, retrocedia, avançava, ecoava... uma merda!
Primeiro tocámos na Praça de Touros de Santarém, numa verdadeira tarde de “Sol e Touros”, juntamente com os “Arazen”. Palco improvisado entre tábuas. Umas dezenas de forcados psicadélicos e marialvas lisérgicos. Saída em ombros, com rabo e orelhas, direitos a uma caldeirada de chocos.
Seguiu-se a Praça de Touros do Montijo. Seis ou sete bandas, sob a designação ligeiramente elitista de “Música Conceitualto”. Trapalhada total na organização. Contratos verbais. Discussões orais. Ameaças judiciais. Tintos regionais… Tudo a começar às 15 horas ou seja, pontualmente às 18 no horário cósmico-lusitano que, como todos sabem, funciona num fuso indeterminado.
Nós éramos os penúltimos. Depois só o “Objectivo”. Passámos sete horas encerrados nos curros, camarins improvisados gentilmente cedidos pela “Organização”. Stress taurino. Charro atrás de charro. Angústia de cristão antes de ser lançado às feras…
O “tio” Rui, nosso guru na época, ruminava 28 vezes por garfada o arroz integral de ervilhas com cenouras que o acompanhava permanentemente em pequenos taparueres religiosamente escondidos no vasto bornal de campanha. Nós ajavardávamos bifanas de porco a escorrer mostarda, engolidas a poder de tinto roxo de Almeirim.
Às dez da noite o estado era de coma profundo quando, finalmente, nos vieram enxotar para a arena. Tocar era definitivamente o que menos nos apetecia. Não havia palco. Apenas um estrado directo na areia. A “Organização” não tinha previsto luzes nocturnas ou então ninguém encontrou o interruptor. Tocámos atrás de uma gigantesca fogueira improvisada, rodeados pela negritude das bancadas onde se adivinhava existir público. Foi xamânico. Foi ritual! Será que alguém se lembra? Talvez o Fogo.
O Fogo e o jornalista José Jorge Letria que, novamente no Diário de Lisboa, fazia a seguinte crítica. Dizia ele: ”… O rock, quando produzido ao vivo, é mais importante pelo modo como proporciona a aglomeração das pessoas do que pelas propostas musicais que veicula. Mesmo assim, queremos referir, para além da pobreza quase generalizada dos grupos, que se perderam em versões de trazer por casa, a agressividade ainda incipiente dos “Kama Sutra” e a grande segurança do “Status”. Para os “Ephedra” uma palavra de confiança: de todos os grupos que se exibiram, sábado, no Montijo, eles são, pese embora a pouca maturidade que revelam, os que possuem um som mais personalizado e elaborado, em termos de pesquisa e de entrega individual por parte dos músicos. No que concerne ao “Objectivo”, há a assinalar o profissionalismo que caracteriza as máquinas de fazer música. Enfim: “Música Conceitualto 72” ou, para muitos, a tauromaquia refrescada”.

21.9.08

TODAY'S FLOWER - ROMÃ

AUTO-DE-FÉ - PADRE MALAGRIDA

A 21 de Setembro de 1761 realiza-se em Lisboa um auto-de-fé em que é queimado o padre Gabriel Malagrida.

Depois do terramoto de 1755 corriam, em Lisboa, as mais assustadoras predições. Os abalos que durante mais de um ano se sentiram, agravavam os maus augúrios que se espalhavam como o vento. Um ano decorrido sobre a tragédia, os boatos corriam funestos. Garantia-se nova calamidade para a passagem do aniversário do terramoto. Nas vésperas da data, autoridades tiveram de fechar a cidade, para impedir o exôdo total. Este ambiente era o ideal para o aparecimento dos arautos da desgraça, dos profetas do fim do mundo.
O jesuíta Gabriel Malagrida voltara do Brasil (Pará) com fama de santo. Pregava, de forma exaltada, novos cataclismos em castigo pelos pecados da nação. Esta visão escatológica opunha-se diametralmente à visão positivista de Sebastião José de Carvalho e Melo, mais tarde Conde de Oeiras (1759) e, depois, Marquês de Pombal (1759). Sebastião José passara a chefiar o governo de D. José I, logo após o terramoto. Defensor do poder absoluto e adepto da maçonaria, o Marquês de Pombal haveria de ser uma das figuras mais polémicas da história de Portugal. Para uns, o grande reformador e salvador da pátria; para outros, um despota ambicioso e sanguinário.
Em Outubro de 1756 saiu o folheto "Juízo da Verdadeira Causa do Terramoto", de Malagrida, encumiasticamente apoiado pelo Santo Ofício e que circulou abundantemente por toda a Lisboa. Sebastião José considerou o folheto uma afronta pessoal e conseguiu desterrar o padre para Setúbal... Demasiado perto, como se verá!
Em Setúbal o padre ia recebendo um cortejo de fidalgos descontentes com o jugo que o Marquês ia impondo. Malagrida passava a ser a face pública de uma oposição que se escondia atrás as saias o padre, temerosa de represálias. As pregações de Malagrida tornaram-se fanaticamente anti-Pombal. Mas ele ia mais longe: se aos reis incumbe o destino dos povos, então D. José I era culpado do terramoto. Sobre este recairia a vingança divina.
A 3 de Setembro de 1758, Pombal aproveitou-se de um atentado (verdadeiro ou inventado?) contra o rei e ataca frontalmente os seus inimigos mais directos. O Duque de Aveiro, os Távoras e muitos outros nobres são incriminados, presos e torturados até confessarem tudo e mais qualquer coisa. Um ano depois eram executados no Rossio, num magnífico espectáculo que durou horas e foi muito frequentado. Uma execução à base de marretadas, com esmagamento dos membros e do tórax, para os "mais rebeldes"; garrote e roda para os menos importantes; e uma simples fervura para despachar os quase insignificantes! Na sequência, os jesuítas acabam por ser expulsos de todo o Império Português, ficando consolidado o poder absoluto de Pombal.
O padre Malagrida, porém, tinha despertado um ódio profundo a Sebastião José. Por isso não foi expulso. Considerado preso político, é encerrado nos calabouços do forte da Junqueira. Mantinha-se exaltadamente visionário, com os seus 70 anos arruinados por jejuns e vigílias. Ouvia vozes. Tinha alucinações. Falava com os anjos e com Jesus... Escrevia dislates incendiados pela imaginação desvairada. Sebastião José quis ver na demência blasfémia e fez do doente uma excelente presa para a Inquisição. Ele próprio, em pessoa, foi à secretaria do Santo Ofício delatar o padre por criminoso contra a fé, assinando Conde de Oeiras, como se um decreto régio fosse!
O julgamento, presidido pelo seu irmão, Paulo de Carvalho, foi rápido, não fosse o velho padre morrer, entretanto, de morte natural. A 21 de Setembro de 1761, nove meses depois, Malagrida, de mordaça na boca e com a fatal carocha, sinal da última pena, sai no auto-de-fé e é, misericordiosamente, queimado vivo, sem efusão de sangue, nos hipócritas termos da sentença, sendo, posteriormente, as suas cinzas deitadas ao vento.
Pombal celebrava, assim, a sua desforra sobre a Companhia de Jesus e, simultaneamente, colocava sobre a alçada secular um tribunal eclesiàstico que agora passava a matar por vontade régia e já não por meras questões de fé.
jp

FOTOS DE OUTONO

20.9.08

CLIENTE 50 000

Quase a atingir 50 000 visitas, apetece-me fazer uma festa. O blogue começou em Abril de 2007. O sitemeter em Junho de 2007. Num ano e três meses são 50 000 visitantes para um total de 823 posts. Não é a quantidade que importa, mas, obviamente, a qualidade. Como a audiência tem vindo a subir sustentadamente, estando perto da média diária de 200 visitas, sinto-me estimulado. Em 2008 o meu jornalzinho passou fronteiras e mantêm fidelidades antigas. Sem querer ser demasiado apologético, direi apenas: estou satisfeito! Gostava, então, de fazer a tal festa. Mas como se fazem festas pela net? Querem dar-me sugestões?
jp

OLHAR A SEMANA

Todos os Domingos, no "OLHAR DIREITO" teremos uma análise da semana. Vai rodando semanalmente por cada um dos seis colaboradores do blogue. Teremos, assim, "olhares" diferentes para a vida que nos rodeia. Sensibilidades e pontos de vista diversos que serão complementados com o seu comentário. Esta semana podem ler a minha análise. Visite-nos e participe.

FOTOS DE OUTONO

PORTO - ESTENDAIS DA RIBEIRA



IMPRESSÕES DO PORTO





IMPRESSÕES DO PORTO

Há um rio que corre turtoso vindo de Espanha. Um rio retorcido por entre xistos e granitos, cavando encostas agrestes onde planam os grifos. Um rio de água onde cresce o melhor vinho. Um rio de ouro que desagua entre arribas de casas alcantarilhadas na cidade do Porto. Há uma cidade em socalcos, despenhada sobre o rio, salpicada de cores que cobrem paredes vetustas feitas de gerações eternas. Uma cidade de ruelas medievais que deslizam íngremes para o cais onde o vinho não chega mais. Há uma cidade que acorda devagar num Domingo solarengo e se espreguiça na Foz à luz coada do mar de prata. Da Ribeira à Sé pela Rua Escura. Estendais de roupa ofuscam ruas estreitas, onde as varandas se tocam num abraço secular. Há uma cidade que esconde segredos em labirintos recônditos. Monumentos secretos por descobrir. Um prazer permanente que importa repetir.
jp