28.1.14

ESTAS JÁ ESTÃO TRAMADAS


OPERAÇÃO CAÇÃO - XXXVI


 Finalmente Idalécia saiu de coma. As suas memórias eram confusas. Tanto se via no alto da ravina, como a planar no ar. Sabia que tinha estado com alguém, mas não se lembrava de quem. Tinha muita sede e não sabia onde estava. Dois dias depois ainda não se lembrava como caíra. Ao terceiro dia o “Gordo” pode, finalmente falar com Idalécia. A muito custo conseguiu reconstituir parte daquela noite. Idalécia começava a lembrar-se de forma fragmentada. Que tinha acontecido a Melzek? Melzek estava morto por tiros de pistola. Ela lembrava-se vagamente de um corpo retorcido cair ao lado dela. Mas porque não tinha sido ela atingida por qualquer tiro? Teria sido arrastada por Melzek aquando da queda? Aquilo era estranho. Mesmo que não fosse ela o alvo, como é que o atirador podia garantir que ela não o tinha visto? Mas Idalécia não se lembrava de ver mais ninguém e muito menos uma pistola a disparar. “O Gordo” interrogou-a de todas as formas e feitios. Será que Melzek a tinha protegido dos disparos? Será que ela tinha caído depois e não se lembrava? Mas ela era peremptória: não se lembrava de ter visto outro homem e não viu ou ouviu quaisquer disparos. Mas, a verdade é que não se lembrava como tinha caído. Apenas que vira, depois, cair Melzek. “O Gordo” fez um raciocínio básico. Das duas uma: ou a moça mentia com quantos dentes tinha ou já estava lá em baixo, na ravina, quando Melzek fora atingido. Será que a queda de Idalécia nada tinha a ver com o assassinato de Melzek?
(Continua)

27.1.14

ARCO DA RUA AUGUSTA

Por apenas dois euros e meio pode agora subir-se ao terraço do Arco da Rua Augusta. Todas as fotos nos posts anteriores foram tiradas de lá. Deslumbrante.

TERREIRO DO PAÇO

Apenas por curiosidade, o meu pai trabalhou de 1961 a 1968 no torreão que se vê ao fundo (o torreão ocidental), mais precisamente na sala com varanda  no primeiro andar. Era então onde funcionava o Ministério do Exército.

AUGUSTA




25.1.14

LISBOA - ARCO DA RUA AUGUSTA

 



OPERAÇÃO CAÇÃO - XXXV


 
Moema não conseguira acompanhar Valdemar. Vira-o chegar ao lobby do hotel, eram umas sete da tarde. Vira-o ser abordado por dois chinas. Ainda tentou apanhar um táxi para o seguir, mas perdeu-lhe o rasto. Estranhou, por isso, quando ele voltou, duas horas depois, acompanhado de duas prostitutas em direcção ao bar. Viu-o mandar uma mensagem por telemóvel e pensou que aquela mensagem poderia ser a chave de tudo. As comunicações de Valdemar estavam sujeitas a intercepção, desde que Moema iniciara a vigilância lá em Imbituba. Por volta da meia-noite, enquanto Valdemar comemorava no quarto acompanhado das duas beldades chinesas, Moema recebia no seu portátil um e-mail do NTCT com a indicação da comunicação, do número e do local destino. Apressou-se a reenviar o e-mail para “o Gordo”, com uma nota de humor: “Joguei na sorte e a sorte jogou em mim”. Eram quinze horas em Lagos. “O Gordo” acabava de se alambazar com dúzia e meia de sardinhas assadas, bem regadas com uma garrafa de tinto alentejano, no restaurante “Barrigana”. Nem queria acreditar quando o iPhone apitou uma mensagem urgente. O cerco apertava-se. Bruxelas parecia ser onde todos os caminhos iam dar.
(Continua)

23.1.14

OPERAÇÃO CAÇÃO - XXXIV




Moema não conseguira acompanhar Valdemar. Vira-o chegar ao lobby do hotel, eram umas sete da tarde. Vira-o ser abordado por dois chinas. Ainda tentou apanhar um táxi para o seguir, mas perdeu-lhe o rasto. Estranhou, por isso, quando ele voltou, duas horas depois, acompanhado de duas prostitutas em direcção ao bar. Viu-o mandar uma mensagem por telemóvel e pensou que aquela mensagem poderia ser a chave de tudo. As comunicações de Valdemar estavam sujeitas a intercepção, desde que Moema iniciara a vigilância lá em Imbituba. Por volta da meia-noite, enquanto Valdemar comemorava no quarto acompanhado das duas beldades chinesas, Moema recebia no seu portátil um e-mail do NTCT com a indicação da comunicação, do número e do local destino. Apressou-se a reenviar o e-mail para “o Gordo”, com uma nota de humor: “Joguei na sorte e a sorte jogou em mim”. Eram quinze horas em Lagos. “O Gordo” acabava de se alambazar com dúzia e meia de sardinhas assadas, bem regadas com uma garrafa de tinto alentejano, no restaurante “Barrigana”. Nem queria acreditar quando o iPhone apitou uma mensagem urgente. O cerco apertava-se. Bruxelas parecia ser onde todos os caminhos iam dar.
Fotografia de Roberto Barbosa
(Continua)

22.1.14

OPERAÇÃO CAÇÃO - XXXIII

 Quinze minutos depois estavam no iate “Pérola do Oriente”, ancorado ao largo, a meio caminho entre Macau e Hong Kong. Tsé-Lao era um homem elegante. Gostava do modo de vida ocidental, mas preservava muito as hierarquias e tradições chinesas. Era um homem poderoso e cheio de si. Por ele passava todo o comércio ilegal de armas convencionais, explosivos e de armas bio-químicas provenientes das fábricas e laboratórios da República Popular da China. Cumprimentou Valdemar com um inclinar de cabeça e foi direito ao assunto, em tom desafiador: “Sempre negociámos com um homem chamado Octávio. Agora dizes que és tu o chefe. Que razão temos para acreditar em ti? E não nos achavas suficientemente dignos de falar directamente com o chefe?”. Valdemar limitou-se a dizer: “Fui eu que mandei executar Octávio. Se ele estivesse vivo, provavelmente a vossa organização estava em perigo. Ele estava em risco eminente de ser descoberto. Posso fazer de imediato a transferência bancária dos dois milhões de dólares para fechar o negócio, desde que me garantam a chegada da encomenda a Marselha nos próximos oito dias”. O dinheiro era sempre um bom argumento. Tsé-Lao mandou vir chá. O acordo ficou estabelecido. Valdemar fez a transferência através do iPad. O explosivo seguiria para Marselha no dia seguinte. Quando regressou ao Hotel Lisboa, Valdemar mandou uma mensagem para um número de Bruxelas. A mensagem era clara: “A festa pode continuar. Os foguetes vão a caminho”. 
Fotografia de Roberto Barbosa.
(Continua)

16.1.14

OPERAÇÃO CAÇÃO - XXXII

Em Macau, Valdemar instalara-se no Gran-Hotel Lisboa. Os casinos e o jogo dominavam a economia de Macau. Casinos que não fecham nunca. Um jogo que atrai mais de dois milhões de turistas por mês. Um bulício permanente. Cá fora, prostitutas aguardam clientes para comemorar a vitória ou para fazer esquecer a derrota. Ao fim da tarde Valdemar desceu do quarto e dirigiu-se ao iluminado lobby do hotel, esperando um contacto, conforme fora combinado. Sentiu uma mão nas costas e dois homens com cara de kung-fu disseram-lhe para os seguir. Cá fora, um carro levou-os a alta velocidade até ao Porto Interior. Uma lancha rápida aguardava. Quinze minutos depois estavam no iate “Pérola do Oriente”, ancorado ao largo, a meio caminho entre Macau e Hong Kong.
Fotografia de Roberto Barbosa
(Continua)

14.1.14

QUE FAZER DO PASSADO?

Projectos é o que nos resta da vida. Os que fizemos, os que não fizemos e os que haveremos de fazer. Toda a nossa vida é um projecto em constante mutação. O que antes era uma evidência, hoje é uma história, amanhã poderá ser um livro. As nossas vidas passaram depressa. Resta hoje prolongá-las no saudosismo produtivo de uma acção concreta. A certeza de aproveitar o que fomos no resto que seremos. Hoje estou cheio de ideias. Vou começar a chatear os amigos...

13.1.14

COMENTÁRIOS QUE VALEM UM POST

Blogger Eduardo P.L. said...
Bem apanhado. A sardinha em Portugal substitui a Soup do Warol....

A VIDA PORTUGUESA




11.1.14

CIDADE TRANSPARENTE - EDUARDO LUNARDELLI

O novo livro de Eduardo Lunardelli chegou ontem depois atravessar o Atlântico. "Cidade Transparente" é um livro de memórias soltas. Coisas que nos ficam na memória e passam ao papel consolidadas na perspectiva dos anos vividos. Não sabia que, sem querer, tinha inspirado o livro quando escrevi ao Eduardo sugerindo que antes da autobiografia escrevesse "episódios soltos". Fiz bem. O livro lê-se de um fôlego e ficamos a querer mais. É impressionante as coisas que gravamos na nossa base de dados pessoal. Coisas que, depois, saltam para o papel com a naturalidade de quem vê no passado um fonte literária. Imperdível.

OPERAÇÃO CAÇÃO - XXXI


 


Idalécia esteve quatro dias em coma. Tinha múltiplas fracturas. Braços, pernas e costelas. Mas, mais preocupante, era um profundo traumatismo craniano na têmpora esquerda. O inspector Ribeiro sabia, agora, que tinha razão. Inácia, a colega de Idalécia no supermercado, identificara o corpo de Melzek como o do namorado alemão de Idalécia. O empregado do café “O Náufrago”, embora não o pudesse garantir a 100%, foi bastante positivo na identificação do cadáver como do homem que vira no pontão do Cais da Solaria, logo a seguir ao atentado. E depois, pensou “o Gordo”, para que haviam de o liquidar? Aquilo não fora um assalto, mas uma execução profissional. Estranho era Melzek ainda estar em Lagos. Porque razão teria ele ficado depois do atentado? Estranho era Idalécia não ter sido também executada, mas apenas empurrada. Aquilo não fazia qualquer sentido. As averiguações identificaram o apartamento de Melzek no Edifício Baluarte. Nada foi encontrado de relevante. Claro que a identidade era falsa. Melzek não era Melzek e muito menos Joseph Strauss, nome com que arrendara o apartamento. O passaporte era, obviamente, falso. Tudo era falso. No entanto, a fotografia de Melzek foi reconhecida por várias bases de dados criminais. Era um homem procurado internacionalmente. Um assassino a soldo, com ligações a partidos ou grupos neo-nazis. Essas ligações começaram a ser exploradas, nomeadamente a “Irmandade Branca”, uma organização particularmente violenta e perigosa, com secções espalhadas por vários países ocidentais. “O Gordo” estava, agora, seguro que a investigação ia no bom caminho. Ansiava por interrogar Idalécia, esperando que ela não tivesse perdido a memória.
(Continua)

CAMPO DE OURIQUE

Encontra-se no coração da cidade, entre as Amoreiras, a Estrela e os Prazeres. Trata-se de um bairro residencial, mas com uma vocação para o comércio muito forte e antiga. Campo de Ourique é um bairro com vida própria, parece uma pequena cidade dentro da Grande Lisboa. É apontado frequentemente como o bairro mais pacífico da cidade de Lisboa e aquele que reúne as melhores condições de vida, diferenciando-se de outras zonas urbanas que dependem excessivamente de Centros Comerciais. Os dias úteis e o fim de semana parecem não se distinguir entre si, pois o movimento pacato e paradoxalmente dinâmico das gentes atravessa o bairro todos os dias da semana com o mesmo ritmo. Aqui residiu Fernando Pessoa, hoje Casa Fernando Pessoa, na Rua Coelho da Rocha.

8.1.14

PORTUGAL - TEMPESTADE HÉRCULES




Nota: nenhuma das fotos é minha.

7.1.14

MITICISMO

As pessoas são míticas não tanto pelo que fazem, mas pelo que fazemos delas.

6.1.14

EU CONHECI UM MITO


Os gregos criaram os Mitos. Gente que cometera proezas heróicas para além no normal. Gente que vivia as próprias lendas e fazia a História curvar-se à sua passagem. Gente que entrava em guerras contra Troia. Cavalos de madeira imaginários que ganharam cidades impenetráveis. As viagens de Ulisses. Os mitos de Sisifo. As lendas de Safo. São histórias que cruzaram o tempo, aumentaram em dimensão e ganharam em detalhes. Hoje são filmes, peças de teatro, livros, jogos electrónico, histórias para contar aos netos. Gente imortalizada que vive connosco para sempre. São mitos, mas não sabemos se existiram. 
Eu conheci um mito. Eusébio da Silva Ferreira morreu ontem de madrugada aos 71 anos. Era apenas futebol. Não precisou sequer de matar, estripar, decapitar, para ser um mito. Bastava chutar uma bola de futebol. Alguém sabe se existiu o Homem da Maratona? Terá havido um Ulisses? E havia mesmo cavalo de madeira? Nunca saberemos. Mas Eusébio existiu mesmo. Eu vi-o jogar na televisão e no Estádio da Luz. Já então tínhamos a noção que estávamos a ver algo que nos transcendia A reviravolta contra a Coreia do Norte. A vitória contra o Brasil. As lágrimas na derrota com a Inglaterra. A vitória na Taça dos Campeões Europeus contra o Real Madrid. O livre impossível a mais de 40 metros que quase furou as redes da Juventus. Os remates alucinantes de força e espontaneidade. A agilidade felina. Aquela inclinação para a frente quando rematava a bola. O arranque desconcertante. A força avassaladora da paixão... Eu conheci um mito. Não sei se Ulisses existia. Mas sei que Eusébio sim. Morreu ontem. O mito acaba de começar.

4.1.14

OPERAÇÃO CAÇÃO - XXX



Valdemar embarcou no aeroporto de Guarulhos, São Paulo. Viajava num avião da Air China, com escala em Frankfurt e Pequim. Chegaria a Macau quarenta e seis horas depois. Saiu a uma 3ª feira, chegaria na 5ª feira. Embarcou sozinho e apenas com uma pequena mala de mão. Combinara um encontro com Tsé-Lao, o homem que lhe fornecia os explosivos. Era importante esclarecer os equívocos que se geraram após a execução de Octávio. Era fundamental reganhar-lhe a confiança e reatar o contrato. Valdemar sentou-se num discreto lugar em classe económica. Não reparou que, quatro filas atrás, uma mulher de porte atlético e olhar penetrante não o perdia de vista. Moema decidira seguir Valdemar. Algo lhe dizia que aquele homem estava envolvido em negócios ilegais, muito ilegais. Seguiu o seu instinto.
(Continua)

3.1.14

OPERAÇÃO CAÇÃO - XXIX

Passearam de mãos dadas com o luar a bater-lhes no rosto. Chegaram a um promontório isolado. Melzek beijou Idalécia com intensidade. Beijou-a repetida e apaixonadamente. Idalécia deixou-se arrastar até à beira do precipício. Num movimento súbito, Melzek empurrou-a. Idalécia caiu. Ele viu-a cair em câmara lenta. Matava ali a sua esperança. A esperança numa vida diferente. Percebeu que não era um homem normal. Nunca poderia ser um homem normal. O passado perseguia-o. O futuro não existia. Viu-a cair sabendo que nunca mais teria paz. Matava-se a si próprio. Um ruído surdo e o corpo imóvel jazia no fundo da ravina. Melzek virou-se desesperado e recebeu duas balas no peito. Recuou surpreendido. Um homem vestido de preto, encostou-lhe o cano da pistola com silenciador à cabeça e disparou sem piedade. O corpo de Melzek caiu do penhasco e ficou ao lado de Idalécia. Idalécia ainda gemia quando viu o corpo do alemão estraçalhar-se ao seu lado. A “Irmandade Branca” não perdoava.
(Continua)

2.1.14

OPERAÇÃO CAÇÃO - XXVIII

Idalécia encontrou-se com Melzek no “Café do Mar”, em cima das arribas, a caminho da Praia do Pinhão. Tinham combinado beber um copo depois do jantar. Estava Lua cheia. Um luar romântico que se espelhava nas águas mansas da baía de Lagos. Idalécia, porém, não conseguia tirar da cabeça as dúvidas quanto a Melzek. Seria ele o bombista? A certa altura não resistiu e disse-lhe: “Sabes, parece que encontraram o cartão de telemóvel do bombista”. Melzek deu um salto. E disse-lhe, com calma aparente: “Ah sim? Uhm... e como sabes isso?”. “Foi o meu irmão que encontrou dentro de um peixe”, informou Idalécia. Melzek estava confuso. Peixe, cartão, irmão!... “Mas como sabem que é do bombista?”, indagou Melzek. “Foi o inspector que disse”, retorquiu Idalécia. Melzek deu três saltos e ficou calado. “Sabes, dizem que era um alemão”, continuou Idalécia em tom provocatório. Melzek teve um estremeção e percebeu que tinha de actuar imediatamente. Pagou a conta, com ar indiferente, e convidou Idalécia para uma volta pelas arribas.